A noite empalidece. Alvorecer…
Ouve-se mais o gargalhar da fonte…
Sobre a cidade muda, o horizonte
É uma orquídea estranha a florescer.
Há andorinhas prontas a dizer
A missa d’alva, mal o sol desponte.
Gritos de galos soam monte em monte
Numa intensa alegria de viver.
Passos ao longe… um vulto que se esvai…
Em cada sombra Colombina trai…
Anda o silêncio em volta a q’rer falar…
E o luar que desmaia, macerado,
Lembra, pálido, tonto, esfarrapado,
Um Pierrot, todo branco, a soluçar…

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)
O amanhecer, visto por Florbela não é aquela coisa cheia de flores e passaradas.
Para ela é uma orquídea estranha a florescer.
Galos cantam, andorinhas dizem que vai haver uma missa; também há um vulto que se esvai, pois em cada esquina uma Colombiana trai.
Tudo isso no amanhecer da Florbela. O ordinário ganha ares esplendorosos.