CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Lamartine Morais, escritor, poeta e jornalista

Alhos são aquelas plantinhas pertencentes ao grupo dos caules comestíveis, que funcionam como tempero e podem ser usadas de diferentes formas na cozinha: no preparo de carnes, molhos, chás e atuam como anti-inflamatório natural. Bugalhos se entende por qualquer fruto cuja casca se assemelhe à da noz de galha. Trocadalho é o apelido de trocadilho, forma que os intelectuais resolveram definir suas trapalhadas vernaculizares, de forma inteligente.

Papai costumava fazer referências ao poeta e trocadilhista Emílio de Menezes, paranaense de Curitiba, que na década de 1940 era um dos expoentes máximos da “especialidade”. Seguem, aqui, algumas notas.

Certa feita, recém-chegado ao Rio de Janeiro, Emílio desceu do prédio para conhecer as ruas do bairro e se deparou com duas moças, que presumindo que o vizinho era um matuto, lhe interromperam a caminhada para algumas indagações, mas foram empulhadas em todas as perguntas:

– O senhor é do Ceará?

– Não, sou de minha família.

– Sabe qual é a parte mais bonita do corpo de de u’a mulher?

– Seios.

– No Ceará ainda se come muito cuscuz?

– Não, se come com as mãos!

De outra feita um amigo o indagou sobre o acadêmico Rocha Alazão ao que respondeu:

– Rochinha é tão delicado que é incapaz de dizer que 2 mais dois são 4 para não contrariar o 3 mais 1.

Cena ocorrida na Rua da Quitanda, centro do Rio de Janeiro. Emílio se depara com antigo colega de escola, de Fortaleza, que sendo padre deixara a batina e isto, na época era um escândalo:

– Como estás alinhado assim, Padre Marcílio, à paisana! …

Numa casa de lanches, Emílio dirigiu-se à pia para lavar as mãos e notando que a toalha estava molhada falou em alta voz para o gerente:

– Amigo, mande-me trazer uma toalha de banho para enxugar essa toalha de rosto!

Meu velho foi de uma época em que nas escolas havia, como pauta, as declamações e ele se dedicava àquelas em que os poetas primavam pelo pitoresco. E costumava contar várias histórias hilárias sobre fatos do seu tempo.

Estando sem dinheiro, Emílio pediu ao generoso amigo Manuel Lesbrão 30 mil réis emprestados, no que foi atendido. Mas o amigo, também poeta e trocadilhista, inspirou-se para versejar sobre o devedor, imaginando seu epitáfio, que sabemos são frases escritas, geralmente em placas de mármore, e colocadas sobre os túmulos nos cemitérios:

Morreu Emílio em tal quebradeira
Que nem pôde entrar no céu
Pois só levou a cabeleira
Papo, bigode e chapéu.

Nas rodas boêmias, segundo notas de Lamartine Morais (José Lamartine Morais de Albuquerque), em seu livro: “Humor na Literatura”. Emílio de Menezes costumava dizer que:

Beber é uma necessidade; saber beber, uma ciência; embriagar-se, uma infâmia.

Lembro-me de outras passagens, de anos mais recentes, quando Millôr Fernandes, em 1980, assinava matérias inteligentes nas revistas “Pif-paf” e “O Cruzeiro”:

E há também a história
Da moça chamada Lia
Que dizia, quando um rapaz
A convidava para um jantar
Ela já sabia o que ele queria.
Sabia mas ia!…

O mesmo humorista fez o epitáfio de sua própria esposa:

Minha mulher aqui jaz,
Que partiu para o além.
Agora descansa em paz
E eu também!

E vou concluir com notas de Pereira Valente, poeta baiano, que se dedicou à advocacia e ao magistério. Ao surgir a notícia que na Inglaterra e nos Estados Unidos as mulheres estavam iniciando campanha a fim de receberem salários dos maridos, inspirou-se e fez este verso:

Confesso que a ideia é boa
E merece aceitação
Acabamos com a patroa
Sejamos nós o patrão.

Que época de pessoas inteligentes!…

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