ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

Estive sumido por alguns dias, só assuntando e tomando temperatura do que vem ocorrendo em Pindorama, neste ano de 467 d. S. (depois do Sardinha) e, confesso, apesar de minhas já vastas cãs (essa é para Violante que gosta de termos castiços), ainda me causa espanto o modo como a vaca está cada vez mais se atolando, restando de fora só as pontas das suas aspas.

A minha questão acima, endereçada, principalmente aos curumins e jovens da atual geração, diz respeito à velocidade com que o país está afundando em uma ditadura, ou melhor dizendo, em uma democracia relativa, em que é permitido concordar com os arariboias de plantão. Discordar, nunca!

A velocidade com que a construção de um modelo de governança, digamos, sui generis, tem sido implantado nas terras de Pindorama, pela sua própria configuração aponta para um futuro nada bonito, mesmo para aqueles que concordam com esse modelo. E isso me faz vir à mente, como o chavismo, o orteguismo e outras democracias relativas conseguiram tomar conta do cetro de mando e não largam o osso, nem pela intervenção do divino. Morrem seco nos seus cargos, mas antes, matam toda a nação. Como parasitas intestinais, só morrem quando seus hospedeiros também sucumbem.

Desde primeiro de janeiro há um movimento lento, mas forte que busca implantar esse modelo de democracia, à luz do dia, enquanto se utilizam de vários subterfúgios para tirar a atenção da “plebe ignara de Gomorra” daquilo que realmente importa. Ou, por acaso, alguém acredita que críticas às taxas de juros do Banco Central, ataques ao agronegócio – o maior gerador de riquezas e impostos do país -, as invasões terroristas de propriedade privada, o arcabouço fiscal, a dita reforma dos impostos, o financiamento de carros que vai atolar parte da classe média em dívidas impagáveis, o tal programa desenrola, que vai premiar o mal pagador e dar tubos de dinheiro do contribuinte honesto para bancos é o miolo da questão?

Vez por outra, um corneta que quer esse tipo de democracia relativa no Brasil não aguenta ficar calado e bota a boca no trombone, revelando parte do plano em andamento, e, logo, a imprensa que está de namoro firme, entre seu pescoço e a corda, corre para desviar a atenção do distinto público, para outro lugar, fazendo com que aquele assunto caia no esquecimento.

O ensaio geral se deu com a cassação do deputado Deltan Dallagnol. Confesso. Não sou fã dele. Aliás, nem o conheço. O que sei de sua pessoa foi quando era chefe da operação Lava Jato, lá em Curitiba. Afora isso, nada! Todavia, a arquitetura de sua cassação política não se sustenta, nem se um advogado de porta de cadeia fosse investido no cargo de relator do processo. Há, naquela peça, ilações, hipóteses, conjecturas, opiniões, mas, a letra da lei para dar base ao papelucho, nada, niente.

Logo em seguida foi a inelegibilidade de Jair Bolsonaro. Assisti aquele teatro do TSE, enquanto o ministro presidente da corte vociferava suas considerações, verbalizando pelo fígado, aquilo que o cérebro não conseguia articular e dar um sentido lógico. Mas, o que importava não era a aplicação da lei, a validade do estado de DIREITO, mas tão somente tirar um concorrente do páreo que poderia ter alguma influência para impedir a tal democracia relativa de ser implantada no país.

Mas, a coisa não para por aí. Já há movimento para cassar Sérgio Moro, impedir a Michelle Bolsonaro de se candidatar a qualquer cargo, cassar Magno Malta, Nikolas Ferreira e por aí vai. Aponta esse movimento para o mesmo modelo que o chavismo usou na Venezuela, não com a Corina Machado, recentemente, mas, olhando-se para o passado, a cartilha tem sido seguida à risca. Foi assim com Henrique Capriles, foi assim com Juan Guaidó, apesar desses dois serem esquerdistas, também, só que tomam banho e usam roupas bem cortadas. O tom fora desse concerto macabro é a ação de brucutu de Daniel Ortega. Esse mesmo, o orelhudo tarado da Nicarágua. Enquanto Chaves utilizava as estruturas do Estado para anular seus concorrentes, dando um ar de legalidade às suas ações, Ortega preferia o estilo de Idi Amin Dadá. A diferença era que o sargento balofo e tirano de Uganda mandava matar seus oponentes e jogar seus corpos no rio Nilo Azul, este manda prender, banir e anular a cidadania de quem quer que ouse se opor a ele, nas democráticas eleições nicaraguenses.

O edifício de anulação de direitos políticos começou a ser construído no Brasil já no dia primeiro de janeiro. O dia oito daquele mesmo mês era o estopim necessário para por em movimento esse esquema. Enquanto isso, no Congresso, que dizem que tem maioria de direita, faz-se discussões inócuas e áridas sobre as responsabilidades, desviando a atenção para o que se está construindo. Aposto meu dedo mindinho da mão esquerda, como aqueles que estão presos terão seus direitos políticos cassados, além de pegarem uma cana brava.

Diante da situação que está sendo construída, é muito provável que em 2024 as eleições gerais em Pindorama terão características próprias e peculiaridades que darão um colorido avermelhado à bandeira e aos rios brasileiros. Espero que o esquema não deixe baixar o espírito de porco do Idi Amim, senão, a metáfora que usei, não será metáfora.

Como sempre vivo dizendo, sou caeté. Meu interesse ainda continua sendo o Bispo Sardinha e os seus mocotós suculentos. Não faço exercício de futurologia, mas sei ler o passado, tanto aquele pratrasmente de muitos anos, quanto aqueles pratrasmente de poucos meses, e a conclusão que posso tirar dessa mirada ao passado, desenha um futuro sombrio à nossa frente. Não serão eleições normais, não teremos uma democracia plena, mas, à reflexão de um descondensado colocado na cadeira presidencial, será a inauguração de um novo país. Tal qual a Coreia do Norte, onde também há eleições periódicas, nossas eleições serão ao estilo do plebiscito que manteve a ditadura salazarista em Portugal.

Naquele plebiscito havia duas opções: Sim – queremos que Salazar continue no governo. Não – não queremos que Salazar deixe o poder. Basicamente teremos a mesma situação. O movimento silencioso das estruturas do poder vai nessa direção. Cassando, anulando direitos, impedindo pessoas de participarem do pleito, mas tudo dentro da lei, com o dito amplo direito de defesa e contraditório. Porém, a eleição de 2024 será corrida de um cavalo só.

Tenho medo dessas palavras, mas minha percepção, bildando o que vem ocorrendo e como as coisas estão acontecendo, esse cenário é plausível na tessitura de uma democracia relativa à brasileira. Diante de tudo isso, resta uma pergunta de fundo que há dias está martelando meus miolos: Alguém ainda acredita que teremos eleições livres no Brasil em 2024? Aceito repto.

3 pensou em “ALGUÉM ACREDITA?

  1. Eita, Roque: você sempre expõe em belo linguajar camoniônico o que também penso. Ler seus escritos sempre me faz bem à sacudida alma. Parabéns mais uma vez. Tenha um bom dia, cheio de saúde, paz e sonhos sobre as suculentas coxas do Sardinha. Um abraço.

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