MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

No centro de Curitiba, na esquina das ruas Emiliano Perneta e Voluntários da Pátria, encontra-se o majestoso e centenário prédio do Instituto de Educação do Paraná. Nele, minha mãe e minhas duas tias estudaram e se formaram professoras. Após formar-se, minha tia mais velha lecionou lá por vinte e cinco anos.

Naquele tempo, quase todo colégio tinha um coral, e havia até uma certa rivalidade entre os colégios mais importantes. No Instituto de Educação, minha tia acumulava as aulas com o cargo de assistente da maestrina do coral.

Um certo dia, já no final da tarde, minha tia foi procurada pela diretora, que lhe disse, aflita: Morreu o Bento Mossurunga!

Bento Mossurunga era um maestro e compositor paranaense, autor do hino do estado e famoso professor de música. O coral do Instituto devia prestar sua última homenagem, disse a diretora.

Em uma época onde ter telefone em casa era privilégio dos mais ricos, minha tia e a maestrina do coral demoraram algum tempo até localizar seis alunas integrantes do coral e “convocá-las” para a missão. As duas professoras usaram seus automóveis particulares (o da minha tia era um Fuscão vermelho) para apanhar as alunas em casa.

Já era noite quando chegaram às capelas mortuárias do Cemitério Municipal. As alunas vestiram os uniformes do coral e receberam as instruções das duas professoras para portar-se com discrição e respeito. Entraram no recinto do velório, a maestrina na frente, de cara muito séria, cumprimentando os presentes com leves acenos de cabeça, as alunas em fila atrás dela de cabeça baixa. Alinharam-se junto a uma parede e começaram a cantar a música mais triste que encontraram no repertório do coral. O burburinho da sala rapidamente cessou, todos escutando e tentando adivinhar quem eram aquelas moças que chegaram sem falar com ninguém.

Terminada a música, a maestrina virou-se e caminhou lentamente até o caixão no meio da sala, na atitude tradicional dos velórios. Mas ao olhar para o falecido, deu um pulo para trás e fez uma careta de susto. Caminhou até minha tia, que estava junto das alunas, e cochichou em seu ouvido: “O Bento Mossurunga tinha barba?”

“Não tinha barba e não tinha cabelo”, respondeu minha tia.

“Mas esse defunto é barbudo e cabeludo”, disse a maestrina, começando a rir.

Minha tia sabia que sua colega, quando ria, não parava mais. Rapidamente abraçou-a como se a consolasse, enquanto tapava sua boca com a mão. Ao mesmo tempo, olhou para as alunas e balançou a cabeça na direção da saída.

As alunas se retiraram em fila, com a mesma atitude séria e circunspecta com que entraram. Atrás, minha tia praticamente agarrando a maestrina que já começava a se sacudir de tanto tentar rir mesmo com a boca tampada.

Já na rua, após o ataque de riso terminar, e constatando que haviam cantado para o defunto errado, o consenso foi que não havia mais clima para outra homenagem. Todas entraram nos automóveis e rumaram para casa.

Bento Mossurunga foi enterrado sem a homenagem.

Por outro lado, em alguma família curitibana existe a história do velório de um antepassado em que, ninguém sabe de onde, umas moças apareceram, cantaram e foram embora sem falar com ninguém.

***

P.S. Em qualquer dicionário de português, consta que o feminino de “maestro” é “maestrina”. Recentemente, porém, a onda politicamente correta decretou que o termo é machista e preconceituoso e deve ser substituído por “maestra”. Eu, naturalmente, recuso-me a endossar tal tolice, e me pergunto: será que o mesmo raciocínio se aplica ao uso de “heroína” como feminino de “herói”? Deveríamos então usar “heroa”?

2 pensou em “ACONTECEU EM CURITIBA

Deixe um comentário para Schirley Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *