CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Patrimônio Cultural Pernambucano

A Academia de Artes e Letras de Pernambuco funciona no antigo prédio da Faculdade de Medicina, juntamente com outras instituições de cultura memória, ensino e pesquisa.

Um prédio que tem atividade intensa porque ali estão a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, o Memorial da Medicina, a Academia Pernambucana de Medicina e o Museu da Medicina. O edifício foi construído em 1927 e está situado à Rua Amaury de Medeiros, nº 206, no Derby, Recife.

Já me indagaram por qual razão me reporto a Capiba com tanta frequência nas minhas crônicas. Naturalmente porque era pessoa de fino trato, trabalhamos juntos no Banco do Brasil, éramos amigos-irmãos e fui seu primeiro biógrafo, quando em 1984 ele completou 80 anos.

A proximidade me levou ao fortalecimento de uma amizade que perdurou até o dia em que ele desapareceu, e continua com a estima e respeito que tenho por Zezita, sua viúva. A alguns dos seus amigos fui apresentado, recebendo incomparável impulso.

Quando ambos estávamos aposentados eu ia buscá-lo às tardes de quarta-feira para fazer visitas aos amigos. Ele ditava o roteiro e marcava os horários. Zezita deixava que saíssemos sozinhos.

Uma dessas visitas foi à casa de um dos seus melhores letristas – o médico e poeta Ferreyra dos Santos – com quem ele produziu a “Valsa Verde”, o hino de formatura dos médicos.

Essa música se tornou um clássico. Lançada em 1932, gravada inicialmente em disco 78-RPM, seguindo-se várias outras, a partir de Cristina Araújo, Sérgio Gaia, Claudionor Germano e Expedito Baracho, sendo a mais recente interpretada por Paulinho da Viola, sob acompanhamento de Rafael Rabelo.

VALSA VERDE

Não sei bem quem és
Mas sei que entraste em meu olhar
Como na sombra entra uma réstia
De excelsa luz
Pelos meus olhos tristes
Nunca percebia
Não sei quem és e te recordo
E te desejo tanto
Pra ilusão de minha vida…

Não sei bem quem és
Mas sei que entraste em meu olhar
Como na sombra entra uma réstia
De excelsa luz
Que o meu sonho de amor
De verde iluminou
Depois o anseio
Que em mim ficou…

Não sei bem quem és
Mas sei que entraste em meu olhar
Como na sombra entra uma réstia
De excelsa luz
Pelos meus olhos tristes
Nunca percebia
Não sei quem és
E te recordo
E te desejo tanto
Para a ilusão de minha vida…

Não sei bem quem és
Mas sei que entraste em meu olhar
Como na sombra entra uma réstia
De excelsa luz
Que o meu sonho de amor
De verde iluminou
Depois o anseio
Que em mim ficou…

Poeta Ferreyra dos Santos, Capiba e Paulinho da Viola

Chegamos à praia de Candeias. O reencontro foi emocionante. Tamanha era a ansiedade que o poeta e sua esposa já estavam no portão. Seguiu-se a prosa solta e muitas recordações da década de 30. Enquanto eu percorria a casa conhecendo o acervo de imagens e troféus dos seus tempos de atleta do Náutico, os dois proseavam alegremente no terraço e falavam da nova gravação da Valsa Verde com o famoso jovem Paulinho da Viola. A música já era um clássico.

Após o lanche, participei da conversa para sugerir a utilização de um dos salões da AABB, onde seria realizada a festa de entrega do título de Acadêmico Emérito da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, a Capiba. Aconteceria uma linda festa, inclusive com Ariano Suassuna, um dos seus amigos da juventude.

O médico José Ferreyra dos Santos já era meu conhecido, pois fomos diretores do Clube Náutico Capibaribe em 1958, sendo ele Vice-presidente do Conselho Deliberativo. Durante a prosa aventou-se a possibilidade de meu ingresso na sua academia, logo à primeira vaga, pois a Instituição precisava de um jornalista atuante, para promover os eventos.

Os anos se foram e Ferreyra dos Santos ficou mais próximo de mim. Mas, infelizmente, se encantou antes. Presenciei no hospital seus momentos finais, juntamente com um dos seus filhos.

Anos mais tarde participando do II Encontro de Jornalistas do Interior de Pernambuco, realizado em Caruaru, meu nome foi citado ocasionalmente e alguém se levantou para me comunicar que eu havia sido eleito para ocupar a Cadeira nº 1 da Academia de Artes e Letras, e que há tempo estava sendo procurado.

Deixara Ferreyra dos Santos, com seus colegas acadêmicos, o pedido de minha indicação, que foi respeitado pelos acadêmicos. E assim ingressei naquele quadro de intelectuais, por acaso, sem ao menos me candidatar. Tornei-me “acadêmico biônico”. Algo “sui generis”.

Mas o impulso foi de Capiba, que naquela tarde de verão, em Candeias, sugeriu meu nome. Por isso se engrandeceu nossa amizade e meu bem-querer por ele.

Hoje, lembrando desses episódios tão alegremente vividos, pranteio aquele atleta, poeta e médico que às sextas-feiras dedicava todo o seu expediente para atender, de graça, a clientela pobre do bairro de Santo Amaro, no Recife, e ainda lhe pagava os remédios.

Por sugestão de Capiba e sua indicação me tornei acadêmico por acaso.

3 pensou em “ACADÊMICO POR ACASO

  1. É música de outros tempos, como também eram os médicos de então.
    Mudando o tom.
    Minha mulher – Raquel, teve um tio que trabalhou no BB, nessa época e sua lembrança nos faz curiosar se porventura você veio a conhecê-lo.
    Era Mário Arcoverde.

    • Caro leitor Arael,

      Conheci o sr. Mário de Siqueira Barbosa Arcoverde desde 1956, quando trabalhávamos em setores diferentes, no prédio do BB, situado na Av. Alfredo Lisboa, 427, eu no Câmbio e ele no Cadastro, pois era comissionado Investigador de Cadastro.

      Anos depois, na década de 60, nossos departamentos foram transferidos para o Edf. São Paulo, alugado pelo Banco, na Praça Ascenso Ferreira, e ao ser construído o prédio definitivo, na Av. Rio Branco 243, que tomou o nome de Edf. Capiba e lá nos aposentamos.

      O sr. Mário Arcoverde foi um dos meus homenageados ao ser citado na pag. 219 do meu livro comemorativo do Centenário do BB – O BANCO DO BRASIL NA HISTÓRIA DO RECIFE.
      Que maravilha ficar D. Raquel sabendo desse registro, além dos filhos do sr. Mário! Pois será parte significativa de sua biografia.

      Vê-se, em seu gentil ato, ao comentar sobre minha crônica, que a História nunca se perderá enquanto houver leitores atenciosos que levam suas impressões aos autores. É a nossa melhor paga.

      No Recife, estou às suas ordens pelo ZAP 081-9.9880.0038.
      Cordialmente, Carlos Eduardo Carvalho dos Santos.

  2. Sr. Carlos Eduardo. Muito bom dia. Um excelente sábado de primeiro de maio.

    Nada melhor para comemorar a jornada de hoje. Do que esse magnífico texto, que o senhor saudosista e magistralmente nos brinda.
    Um privilégio para todos nós, lermos sôbre essas histórias vivas, de convivências suas. Com todas
    essas personalidades importantes e incomparáveis. Que habitaram e habitam o universo artístico e cultural de Pernambuco e do Brasil.
    Sem dúvida, o Estado mais rico e diversificado em Cultura, Arte e Folclore.

    Seus escritos sempre nos remete à belas e inesquecíveis lembranças. Principalmente pra quem em algum momento, dessa linha do tempo. Adolescentes em uma época única, gratificante e honrada. Onde nossos pais eram nossos heróis.
    De sermos observadores. De presenciarmos e acompanharmos os talentos e as genialidades desses senhores superdotados.
    São eternos representantes da nossa terra natal, nossas inspirações de vida, arte, dignidade e orgulho.

    Sinto-me compelido em comentar ou em reagir à alguns artigos seus e humildemente peço sua permissão para isso.
    Pois, tem sempre algo que nos liga. Nesse turbilhão de emoções e experiências, vividas pelo senhor em sua maravilhosa existência. Que Deus o conserve e o abençoe, sempre.

    Vejamos então: O prédio da Academia, o bairro do Derby, o genial Capiba, o incomparável Claudionor Germano, Paulinho da Viola (meu pai era fã), praia de Candeias ( acho que já lhe falei que nasci em Piedade, no Hospital da Aeronáutica), o glorioso Náutico, o timbu hexacampeão.
    Quando morávamos em Boa viagem, entre a Praia e o Aeroporto (antes era tudo Boa Viagem) depois passou à se chamar de bairro Setúbal. Na nossa rua, construiram uma linda casa bem próximo de nós e de nossos parentes e quem veio morar nela, foi ninguém mais e ninguém menos do que o Sr. Rubens Moreira e sua família. Simplesmente o Presidente do Náutico e da Federação Pernambucana de Futebol.
    Nós sempre jogamos bola no campinho que ficava bem em frente a casa dele. Então, passamos à nos esmerar mais ainda, na esperança de que de repente aquele senhor imponente e sério, que sentava na sua rede para fumar o seu cachimbo, muito compenetrado.
    Da sua varanda, vislumbrasse algum craque para levar pra jogar no Náutico. Meu Deus! Quantas recordações incríveis. E o senhor. Sr. Carlos Eduardo é diretamente e magicamente responsável por isso. Agradecemos de coração esse bem estar que o senhor nos proporciona. Além dos ensinamentos e das experiências de vida. O senhor é um grande homem e de grandes e verdadeiros sentimentos. Seu título de Acadêmico, independente de ser “biônico” como o senhor, com sua humildade e bom humor, citou.
    São caracteristicas inerentes à sua inteligência e erudição.
    Merecidamente conquistado como a vitória dos verdadeiros guerreiros.
    Muito obrigado mais uma vez e aceite nossos cumprimentos de estima e apreço.
    Mui atenciosamente,
    Luiz Carlos Freitas

    P.S.: Foi só para lembrar o final de algumas cartas enviadas pelos Bancos. Somos colegas bancários, também. Mais uma feliz e grata coincidência.
    Um forte abraço.

Deixe uma resposta