Muito me delicio observando gente se encalacrando nas opiniões emitidas sem uma mínima consideração pelos ouvidos dos próximos. Numa reunião social recente, ouvi um todo metido, graduado numa “falcudade” peba, dizer que na sua igreja, determinadas categorias de gente não tinham vez nem participação. E que não admitia contestação sobre a infalibilidade de algumas autoridades pastorais do mundo atual.
Sem querer querendo, indaguei ao convencido se ele conhecia a vida do papa Paulo III, o Farnese, que tivera quatro filhos e três netos, todos eles nomeados cardeais entre 14 e 16 anos de idade, pouco antes do cardeal inglês Reginald Pole, pessoa gentil e dotada de extraordinária cultura humanista ser rejeitado pelo colégio cardinalício que, tempos depois, em 1555, elegia Gian Pietro Garafa como papa Paulo IV. Que escarneceria seus eleitores, instituindo o primeiro Índice dos Livros Proibidos, inclusive os de Erasmo de Rotterdam, autor do Elogio da Loucura, uma leitura que deveria se tornar obrigatória em todas as unidades de ensino voltadas para a difusão de uma cultura humanística de conteúdos significativamente relevantes.
Diante da mudez do valiente, relembrei aos demais participantes a frase do Nazareno que mais me cativa: “quem nunca pecou, atire a primeira pedra”. E um abraço coletivo possibilitou a continuação de uma noitada de muita discussão sadia, sem dogmatismos nem imposições, tampouco embromações analíticas e pulinhos aeróbicos próprios dos pouco densos, ainda que de alta farolagem midiática, alguns até se declarando imbrocháveis, utilizando um neologismo arrotado recentemente por um alucinado mandatário em campanha de ressurreição.
Lá para as tantas, um meio careca declarou que Fulano de Tal era seu guru, muito embora reconhecesse que o mesmo não era lá grande coisa intelectual. Foi, então, a vez de um jovem arquiteto opinar, até então concentrado na sua dose de escocês, sem levantar o tom de voz: – Se o amigo tem por guru alguém que não é grande coisa, é porque o amigo se encontra num patamar abaixo dessa pouca coisa! Diante dos aplausos gerais, o “guiado pelo guru” enfiou a viola no saco e foi cacarejar noutra freguesia, alegando que pretendia chegar cedo em casa.
Os dois acontecidos acima bem ressaltam como são grandiosas as diferenças entre criticidade e cricrismo, pioneirismo e oportunismo, fé vivenciada e histerismo embromatório, liturgia e cavilosidade, autoridade estratégica e mandonismo imbrochável.
Quantas vezes enxergamos mal por idiotices mentais as mais diversas, muitas delas originadas de frustrações mal resolvidas, de sexualidade nunca plena, de inveja dos outros, da ilusão de querer ser visto como um novo messias, ou, pura e simplesmente, por uma vontade de ser admirado como Cacique Touro Sentado, apesar dos procedimentos rasteiros, desenergizantes, bolorentos ou voltados para os apequenados que tudo aplaudem, sem nada discernirem acerca das causas da sua miséria intelectual.
Que bom seria se as autoridades dos mais diferenciados setores – civis, militares, empresariais e eclesiásticos – pudessem ter, sob a mesa de trabalho, um gravador que reproduzisse a todo instante a frase ouvida pelos césares, dita pelo servo sentado no canto da biga quando desfilavam após suas conquistas: “tu és mortal, tu és mortal, não te esqueças nunca disso”. Seguramente eles melhor diferenciariam autoridade de autoritarismo, pastoral de mandonismo, seriedade analítica de ironia provocativa, argumentação de xingamento, responsabilidade de aleivosia, pronunciamentos convincentes de merdalidades eleitoreiras.
Gosto dos que mantêm a cabeça erguida, sem enodoar a altivez, quando cônscio dos deveres cumpridos. Sabendo travar o bom combate, mesmo quando as farpas parecem querer cantar de galo, ainda que desatreladas da verdade dos fatos relacionados com os autênticos procedimentos evangelizadores que favorecem e aceleram a construção do Reino.
Cada vez mais convencido estou: quem crucifica cotidianamente o Senhor da História são aqueles que, também intra-eclesialmente, se postam como frágeis Sancho Pança, sem atentar para as tarefas alucinatórias de um alucinado Dom Quixote, com seus sonhos sempre aguçados, e de uma Dulcinéia del Toboso, sua inspiração cotidiana, nominada hipocritamente de Espírito Santo pelos evangelizadores de araque.
Prezado mestre,
Não entendi nada !
Não dá para ser mais específico ?
Sua metralhadora giratória de insinuações acusatórias, colocando-se o senhor sempre na posição de julgador máximo de tudo e de todos, mas sempre “en passant” e nunca indo direto ao ponto, não me disse absolutamente nada.
O máximo que concluí foi que o senhor não gostou da estória do imbrochável.
adonisoliveira, não entendo como esse jornal tão precioso dá lugar para o besteirol deste senhor fernando.
Obrigadíssimo pelo comentário solidário
Serei mais explícito no futuro. Obrigado.
“A vida fica mais fácil quando você entende que a outra pessoa tem o direito de não ter a mesma opinião que você.” (Frase atribuída a Eduardo Jorge)
A vida ficaria mais fácil se os abestados e metidos viessem a entender – e aceitar – que a outra pessoa tem todo o direito de não gostar do mito tosco e imbrochável que eles endeusam.
Valeu, Professor Fernando!
“Tem que manter isso aí, viu?”
Obrigadíssimo Walter. Percebe-se que vc é um pensante cidadão.
Busquemos sempre entender a conjuntura mundial, batalhando por mais Educação Integral para todos, na binoculização de amanhãs promissores para todos nós, filhos amados do Alto!!