Diz-me a tília a cantar: “Eu sou sincera,
Eu sou isto que vês: o sonho, a graça,
Deu ao meu corpo, o vento, quando passa,
Este ar escultural de bayadera…
E de manhã o sol é uma cratera,
Uma serpente de oiro que me enlaça…
Trago nas mãos as mãos da Primavera…
E é para mim que em noites de desgraça
Toca o vento Mozart, triste e solene,
E à minha alma vibrante, posta a nu,
Diz a chuva sonetos de Verlaine…”
E, ao ver-me triste, a tília murmurou:
“Já fui um dia poeta como tu…
Ainda hás de ser tília como eu sou…”

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)
O que é a tília que diz o soneto?
Para entender, recorri ao Google.
“A tília é uma planta medicinal presente no hemisfério norte, onde o ambiente é propício para o seu desenvolvimento. Em diferentes regiões do mundo, a planta apresenta diferentes características: na Europa Central, ela chega a atingir 30 m de altura, enquanto que na Finlândia apresenta 1 m de diâmetro.
Seu nome científico é Tilia cordata Mill e ainda é conhecida como teja, tejo, texa e tilha. Ela apresenta propriedades adstringentes, antiespasmódicas, antidepressivas, calmantes, sedativas, analgésicas, expectorantes, revigorantes, febrífugas e diaforéticas – que provocam a transpiração excessiva.”
O que tem a tília a ver com Florbela?
Pelo fato das características serem calmante, sedativa, analgésica e principalmente antidepressiva, o chá da planta devia ser o amigo de todas as horas da poeta.
O chá era tão íntimo que mereceu este belo soneto.
Florbela era demais.
Disse a tília para a Florbela no soneto;
“Já fui um dia poeta como tu…
Ainda hás de ser tília como eu sou…”
Hoje seus poemas são tílias.