PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

O autor Leandro Gomes de Barros, Pombal-PB (1865-1918) e seu cordel

* * *

PRIMEIRA PARTE

Leitor se não se enfadar
Desta minha narração,
Leia a vida deste ente
E preste toda atenção,
Que foi o quengo mais fino
Desta nossa geração.

Pois ele desde criança
Sabia a tudo iludir,
Estradeiro muito velho
Não pode a ele competir,
O Cancão nunca armou laço
Que alguém pudesse sair.

Cigano que no Egito
O temiam como lobo,
Entre todos os ladrões
Era professor de roubo,
Chegou aqui no Brasil
O Cancão fez dele um bobo.

Até na hora da morte
O Cancão caloteou,
Com o Testamento dele
Inda o juiz se enrascou,
O escrivão recebeu
Um processo que tomou.

Na vida dele houve caso
De chamar a atenção,
Muita gente talvez pense
Que seja exageração,
Ia um ladrão roubar ele
Ele roubava o ladrão.

Agora vamos saber
Quem era esse tal Cancão,
Descrever os sinais dele
Costumes e propensão,
Para podermos entrar
Em sua apreciação.

Cancão era um apelido
Que os irmãos lhe puseram,
Pelas as travessuras dele
Esse apelido lhe deram,
Por ele nunca querer
O que os parentes quiseram.

Ele era um branco moreno
De olhos agateados,
O rosto largo pequeno
Os cabelos estirados,
Não eram preto nem louro
Eram quase acastanhados.

O corpo muito franzino
E muito pouco comia,
Vivia sempre pensando
De noite pouco dormia,
Não confiava em ninguém
E nem contava o que via.

No quengo é que não se pode
Dar dele uma descrição,
Só posso classificá-lo
Como grande aberração,
Um caso extraordinário
Enfeites da criação.

Porque admira a todos
Este ente se criar,
E enganar a todo mundo
E ninguém o enganar,
Nunca achou um estradeiro
Que pudesse o enrascar.

Roubar objeto algum
Isso não, nunca roubou,
Mas em negócio com ele
Nunca ninguém se salvou,
Desde a Igreja a justiça
Tudo isto se queixou.

O pai de Cancão de Fogo
Foi um homem preparado,
De muitos bons sentimentos
E muito bem arranjado,
Mas a sorte neste mundo
Dar e tira, como um dado.

Por isso Cancão um dia
Estava numa discussão,
Disse a um irmão da mãe dele
Homem algum tem distinção,
A vantagem do fiel
É a mesma do ladrão.

Já tenho quase dez anos
Nunca ouvi dizer assim:
Pedro escapou por ser bom
Paulo morreu por ser ruim,
Bom e mal, bonito e feio
Tudo tem o mesmo fim.

Cancão tinha sete anos
Quando andou perto da morte,
Foi passar um rio cheio
A correnteza era forte,
Desta vez quase a desgraça
Fez ele mudar de sorte.

O Cancão já se afogando
Estava bastante vexado,
Quando passou um cavalo
Que ali morreu afogado,
O Cancão saltou em cima
E disse: estou embarcado.

Os irmãos bateram palmas
Quando viram ele cair,
Disseram em casa nós vimos
O Cancão se consumir,
Afogou-se nesse instante
Ali deitaram a sorrir.

A própria mãe de Cancão
Não deu sinal de sentida,
Quando trouxeram-lhe a nova
Da desgraça acontecida,
Disse: ele não prestava
Não perdi nada na vida.

Cancão saiu no cavalo
Com as pernas a remar,
Tocaram numa barreira
Cancão pode se salvar,
Disse ele: bom cavalo
Que faz o dono escapar.

O Cancão entrou em casa
Pôs tudo surpreendido,
Principalmente os que viram
Quando ele tinha caído,
Já tinha corrido a nova
Que Cancão tinha morrido.

A mãe dele perguntou-lhe
– A morte então não te quis?
Quem não quis, disse Cancão
Foi o esforço que eu fiz,
Graças a um cavalo morto
Que foi quem me fez feliz.

Cancão de Fogo já tinha
Nove ou dez anos de idade,
Quando o pai dele morreu
Deixou-os em necessidade,
Cancão quando soube disse:
– Isso não é novidade.

Minha mãe está sem marido
Por isso não vá chorar,
Eu também fiquei sem pai
Porém sempre hei de passar,
Ela pode achar marido
Pai é que não posso achar.

Eu digo como o macaco
A um outro respondeu:
Quando ele disse: meu mano
Sua mãe hoje morreu,
Disse –lhe então o macaco
Por isso já esperava eu.

A mãe de Cancão de Fogo
Decidiu-se a trabalhar,
Cancão de Fogo não quis
A isso se sujeitar,
Dizendo: não tenho força
Para serviço acabar.

Agora para viagem
Ou para qualquer mandado,
Achava-o de prontidão,
Não se mostrava enfadado,
Ninguém conseguia dele
Era trabalho pesado.

Todos na casa queriam
Ver o Cancão se acabar,
Dizia o Cancão de Fogo:
Pode tudo me odiar,
Amor não enche barriga
Ódio não faz empacar.

Minha mãe acha que fez
Favor ter-me concebido,
Eu cá sim, fiz lhe um favor
Livrei-a de ter morrido,
E o que seria dela
Se eu não tivesse nascido?

Se ela deu-me de mamar
Eu não sei, ela é quem diz,
Eu não lhe pedi o peito
Se me deu foi porque quis,
Em eu lhe vazar os seios
Foi um favor que lhe fiz.

Eu cá só devo favor
Ao sol e a água do rio,
A água porque eu bebo
E tomo banho no estio,
Devo ao sol porque me esquenta
Na hora que tenho frio.

Um dia disse a mãe dele:
– Não tenho o que almoçar,
O Cancão de Fogo disse:
– É fácil de se arranjar,
O mundo é uma dispensa
Tem o que se procurar.

Então a mãe dele disse:
– Só se for comprar fiado,
Eu morro, porém não compro
Deus está vendo o meu estado,
Seu pai morreu sem dever
Conservou seu nome honrado.

Disse Cancão: essa honra
Não passa de palhaçada,
Porque o capitalista
Não olha a pessoa honrada,
Leve a honra numa venda
E veja se arruma nada.

Disse a velha: não puxaste
Ao teu pai que foi honrado,
Disse Cancão: Deus me livre
De ter a ele puxado,
Se eu fosse como meu pai
Também estava enterrado.

Ela chorando não pode
Pronunciar mais um nome,
O Cancão de Fogo disse:
Minha mãe está é com fome,
Disse: espere aí mais um pouco
Que nessa casa se come.

Saiu encontrou um velho
Que andava ali perdido,
O velho era sertanejo
E ali desconhecido,
Não sabia dum hotel
Onde fosse garantido.

O velho muito usurário
Não queria se arranchar,
Em qualquer hotel decente
Só com medo de pagar,
Dava preferência a um rancho
Somente a fim de poupar.

Disse-lhe o Cancão de Fogo:
Vossa mercê está perdido?
Me pague que eu vou botá-lo
Em um lugar garantido,
Foi o hotel que já vi
De preço mais resumido.

Eu vou contar uma história
Eu, lá levei um freguês,
Era um mês que ia passar
Foi tão bom que passou três,
Quer saber quanto pagou?
Dez tostões por cada vez.

Se me der cinco mil réis
Vamos que está arranchado,
E a despesa é a que disse
Lá não há preço alterado,
Leve os contos que tiver
Que lá ninguém é roubado.

O velho disse consigo:
Esse assim vem me servir,
É atrás desse que eu ando
Para comer e dormir,
Só gastarei seis mil réis
Daqui para eu sair.

E saiu com o Cancão
Com o mesmo a conversar,
Cancão mostrou–lhe uma casa
Disse: é ali pode entrar,
Dê-me o dinheiro que volto
Ver outro pra hospedar.

O velho deu-lhe dinheiro
E Cancão saiu danado,
Não procurou mais ninguém
Foi logo para o mercado,
Dizendo com seus botões
– Eu hoje como deitado.

Gastou os cinco mil réis
Não ficou com um vintém,
Chegou em casa com tudo
E disse a mãe: aí tem,
Pode cuidar no almoço
Por hoje jantamos bem.

A velha olhou para ele
Com cara bastante feia,
Perguntou: foste comprar
Fiado na venda alheia?
Disse Cancão: foi um frete
Que eu levei para a cadeia.

A velha aí exclamou:
– Oh! bruto amaldiçoado,
Além de seres ladrão
És de mais até malvado,
Além de roubar o velho
Deixaste tão enrascado.

Lançando mão uma vara
Atacou ela a Cancão,
Cancão se fez na canela
E disse: na vara não,
Eu não hei de ser fiel
Obrigado a ser ladrão.

O velho chegou na casa
Julgando que fosse hotel,
Então logo quando entrou
Conheceu que era quartel,
Vieram ao encontro dele
O cabo e o coronel.

O furriel perguntou-lhe:
– O senhor vem se entregar?
É sem dúvida um criminoso
E vem do júri se livrar,
O velho ficou de forma
Que nem podia falar.

– Ladrão! Exclamou o velho
Traiçoeiro e desgraçado!
Disse–lhe o cabo se sente
Não precisa ter cuidado,
Porém só pode sair
Com ordem do delegado.

Então esse caso deu-se
No centro da capital,
E Cancão de Fogo disse:
– Se ficar aqui vou mal,
Eu posso correr o mundo
E não gasto o principal.

O tio dele sabendo
O que tinha se passado,
Foi na casa da mãe dele
Que ia desesperado,
Dizendo que do Cancão
Inda seria vingado.

Cancão ganhou a estrada
De Paraíba a Goiana,
Passando por um partido
Entrou chupou uma cana,
Disse: nessas condições
Eu viajo uma semana.

Largou-se de estrada a fora
Sem direção sem destino,
Quando chegou em Goiana
Embora que pequenino,
Foi procurar uma casa
Que empregasse menino.

Empregou-se numa casa
Para vender tabuleiro,
A doze mil réis por mês
Disse ele: é bom dinheiro,
Isso é quase um ordenado
Dum guarda livro caixeiro

Do serviço de Cancão
Tudo na casa gostava,
Muito fiel e esperto
Aquilo não se encostava,
E do tabuleiro dele
Um bolo não se roubava.

Ao cabo de sete meses
O Cancão tinha juntado,
Sessenta e quatro mil réis
Quase todo ordenado,
O dinheiro que ganhou
O tinha todo guardado.

Um dia disse consigo:
Minha mãe tem precisão,
Talvez não tenha mais roupa
E até lhe falte o pão,
Vou mandar-lhe esse dinheiro
Que ela agradeça ou não.

Enviou-o pelo correio
Mandou dizer onde estava,
E o emprego que tinha
A quantia que ganhava,
Então mandou lhe dizer
Que todo mês lhe mandava.

Assim mesmo pela velha
Tudo tinha se arrumado,
Ela pensou que Cancão
Tinha até melhorado,
Mas o tio quando soube
Ficou como um cão danado.

E era irmão da mãe dele
Essa fera inconsciente,
Só odiava a Cancão
Por ser ele inteligente,
E os filhos desse monstro
Brutos desgraçadamente.

Havia ali um mulato
Chamado José Vaqueiro,
Um indivíduo ladrão
Covarde e alcoviteiro,
Jurava o que nunca viu
Por diminuto dinheiro.

Esse tendo feito um roubo
O Cancão de Fogo viu,
Foi logo ao delegado
E o roubo descobriu,
Por isso o cabra foi preso
E a sentença se cumpriu.

O tio de Cancão de Fogo
Julgou ir muito acertado,
Mandou por José Vaqueiro
Vir o Cancão escoltado,
Dizendo com seus botões:
– Ele chega desgraçado.

Chamou o vaqueiro e disse:
– Dou–lhe parte de uma história,
Vá ver Cancão em Goiana
Está aqui a precatória,
Ele já lhe deve uma
Tem mais você esta glória.

A precatória que vai
Foi feita por escrivão,
O delegado assinou
O mandado de prisão,
A denúncia vai provando
Que o mesmo é ladrão.

Ele descobriu seu roubo
Você pode se vingar,
Ele fez você ir preso
E custou a se soltar,
Essa ocasião é própria
Para você se descontar.

O indivíduo saiu
Como uma fera tirana,
Levou chuva no caminho
Pôs-se a tomar muita cana,
Foi cair embriagado
Num dos ranchos de Goiana.

O Cancão ia passando
E achou ele deitado,
Disse aí dentro de si:
– Esse cabra vem danado,
O carcereiro amanhã
Terá mais esse apurado.

Meteu-lhe a mão na algibeira
E achou a precatória,
Era um protocolo enorme
De uma medonha história,
Disse Cancão: eu te arranjo
Um baile de palmatória,

Aonde Cancão dormia
Tinha chaves enferrujadas,
De portas de armazéns velhos
Por ali depositadas,
Cancão limpou-as dizendo:
– Hoje são aproveitadas.

Voltou encontrou o cabra
Inda na mesma soneira,
Cancão tomou-lhe chegada
Pôs a mão muito maneira,
Trazia as chaves num mólho
Botou-lhe na algibeira.

Saiu no mesmo instante
Foi dizer ao delegado,
Vi no rancho de tal parte
Um indivíduo deitado,
É ladrão e assassino
E três vezes processado.

Anda com chave que abre
Qualquer porta de armazém,
E na casa aonde vai
Não deixa nela um vintém,
Se não o prenderem logo
Não escapará ninguém.

Então foram lá no rancho
Inda estava ele deitado,
Cinco chaves na algibeira
Foi visto por um soldado,
– O indivíduo é ladrão
Disse o praça ao delegado.

O indivíduo acordou
Já debaixo de facão,
Falava, porém ali
Ninguém lhe dava atenção,
Ele ali calculou logo
Ser cilada de Cancão.

Daí a sessenta dias
Foi que veio justificar,
Levou sessenta e três surras
Quase morre de apanhar,
Por um milagre de Deus
Ainda pôde voltar.

Cancão disse consigo:
– Eu aqui sou descoberto,
Pedir as contas e sair
Este é o plano certo,
Eu não quero que a polícia
Me ache de peito aberto.

Devido a José Vaqueiro
Ter caído na prisão,
O comércio de Goiana
Fez um presente a Cancão,
Deu-lhe duzentos mil réis
Como gratificação.

Cancão antes de sair
Fez duas cartas primeiro,
Uma foi para a mãe dele
Lhe mandando mais dinheiro,
Outra ao tio dando lembrança
Que mandava Zé Vaqueiro.

Dizia a carta do tio:
– Seu mordomo excelente,
Eu apresentei-o aqui
Ao delegado somente,
Foi para a casa da câmara
Seguido por muita gente.

Está na casa do governo
Lá tem honra de sultão,
Soldados ali na porta
A sua disposição,
Se o senhor tivesse vindo
Era mais satisfação.

Cancão pediu ao patrão
Licença de uma semana,
Para visitar sua mãe
Que estava em Itabaiana,
Dizendo: ela não pode
Vir a pé até Goiana.

O patrão aí pagou-lhe
O resto do ordenado,
Disse: Cancão eu agora
Quero tomar mais cuidado,
Dormir pouco e andar muito
Viver mais acautelado.

O tio de Cancão de Fogo
Veio cá pessoalmente,
E provou com documentos
Que a prisão foi inocente,
Foram procurar Cancão
Há um mês estava ausente.

O tio de Cancão de Fogo
Disse: ao tal José Vaqueiro:
– Você siga daqui mesmo
Atrás daquele estradeiro,
– Disse o cabra eu não vou lá
Inda por todo dinheiro.

Quem sofreu do que sofri
Não vai atrás de Cancão,
No meu lombo não tem lixa
Para limpar-se facão,
Os dois meses de cadeia
Me serviram de lição.

Fui eu que quase morri
De facão e palmatória,
Os tormentos que passei
Me ficaram na memória,
Garanto que seu sobrinho
Foi quem ganhou a história.

Cancão embolsou o cobre
Disse: vou dar um passeio,
O mundo é mole eu sou duro
Vou furar de meio a meio,
Agora vou a Recife
Vou ver se é bonito ou feio.

Cancão saiu de Goiana
Antes de dar meio-dia,
Chegou em Igarassu
Ao tocar Ave-Maria,
Não quiseram dar-lhe rancho
Pois ninguém o conhecia.

A polícia o encontrou
Perguntou de onde vinha,
Disse ele: venho da casa
Da minha avó e madrinha,
Disse o subdelegado:
Você está bom pra marinha.

O Cancão dentro de si
Ficou bastante agitado,
Mas se mostrasse recusa
Ia dormir amarrado,
Disse consigo: eu arrumo
Esse subdelegado.

Este subdelegado
Era um alferes ambulante,
Sujeito metido a bom
Porém muito ignorante,
O Cancão disse consigo:
Este aqui cai num instante.

Disse Cancão: senhor tenente
Era atrás disso que eu vinha,
Porque até quando eu durmo
Eu sonho com a marinha,
Por isso já desgostei
A minha avó e madrinha.

O senhor faz uma carta
A quem eu hei de falar,
Me ensine a rua onde é
Que é fácil de se acertar,
Disse o alferes: eu mando
Um soldado lhe levar.

Inda é melhor para mim
Disse contente o Cancão,
Peço a vossa senhoria
Para me dar um cartão,
Porque já me arrumei bem
Com a sua proteção.

Foi Cancão a chefatura
Mas não se deu por achado,
No dito quartel dormia
O tal subdelegado,
Por fortuna nessa noite
Da força tinha um soldado.

O alferes confiado
Que ali estava garantido,
Armou a rede e deitou-se
Da roupa todo despido,
Ressonava como porco
Estava do mundo esquecido.

O soldado na tarimba
Da mesma forma dormiu,
O Cancão de Fogo disse:
– Este sono me serviu,
Tirou a roupa de todos
Abriu a porta e saiu.

Carregou as duas blusas
Do alferes e do soldado,
Calças, camisas e ceroulas
Tudo isso foi levado,
Só ficou com o relógio
O mais botou no valado.

Às seis horas da manhã
Encontrou ele um menino,
Um desses que vem ao mundo
Por capricho do destino,
E ao princípio da vida
Triste como a voz do sino.

Cancão perguntou a ele
O que tens que vem chorando,
Já vai te doendo os pés?
E te vejo suspirando!
Respondeu ele: eu devia
Viver só me lastimando.

Fui um menino enjeitado
Fui logo triste ao nascer,
Nem uma ave noturna
Tão triste não pode ser,
Eu sou igual ao deserto
Onde ninguém quer viver.

Esse homem que me cria
Me maltrata em tal altura,
Que nem um preso no cárcere
Sofrerá tanta amargura,
Não foi Deus é impossível
Que me deu tal desventura.

– E para onde é que vás?
O Cancão lhe perguntou:
– Eu vou daqui a dez léguas,
Que hoje ele me mandou,
E não me deu um vintém
Veja em condições que vou.

– Queres fazer como eu
Já ficará descansado,
E teu pai de criação
Talvez nem tenha cuidado,
Pois só se tem prejuízo
Se o objeto é comprado.

Eu também sou como tu
Só não fui foi enjeitado,
Mas até por minha mãe
Eu sou bastante odiado,
Porém este mundo é grande
Eu hei de viver folgado.

Como se chama você?
Respondeu: chamo-me Alfredo
– Eu sou o Cancão de Fogo
Meu nome digo sem medo,
Tendo precisão eu nego
Porque em tudo há segredo.

Quer ir comigo, acompanhe-me
Faço-lhe observação,
Não há de insultar a ninguém
E nem há de ser ladrão,
Ser esperto nos negócios
Isso é uma obrigação.

Só furtará uma coisa
Estando necessitado,
Se não quiserem lhe dar
Tem o direito sagrado,
Aí se rouba até Deus
Se achar Ele descuidado.

Se um ladrão vir nos roubar
Devemos procurar jeito,
De roubar primeiro ele
Porém roubá-lo direito,
Que depois dele roubado
Todos digam: foi bem feito.

Disse o Alfredo: pois vamos
Porém eu quero saber,
Nós ainda tão pequenos
De que podemos viver?
Disse Cancão: ora essa
Vivemos do que comer.

Agora vamos saber
Como o Alferes ficou,
Às sete horas do dia
Foi quando se levantou,
Gritou: acorda soldado
O menino me roubou.

O soldado deu um grito
Que o Alferes se assustou,
E perguntou: o que foi?
O soldado suspirou,
Dizendo: tudo que eu tinha
Aquele infeliz roubou.

Que faço? disse: o alferes
Nuzinho sem poder sair,
Se o governo souber disso
Pode até me demitir,
Só não deserto hoje mesmo
Por não ter o que vestir.

Ás quatro horas da tarde
Ainda estava despido,
E o chefe da polícia
Já tinha disso sabido,
Mandou ver preso o alferes
E foi logo demitido.

Cancão chegou em Recife
Cismado do que houve lá,
Soube que ia um vapor
Com destino ao Pará,
Disse em voz baixa: Alfredo
Vamos até ao Ceará.

Entremos que ninguém veja
Chegando a ocasião,
Que nos veja sem passagem
Você diz que é meu irmão,
O resto é por minha conta
Eu desenrolo a questão.

Entraram pelo rebordo
Sem a ninguém dizer nada,
Já perto do Ceará
Foram então fazer chamada,
Cancão disse a Alfredo
– Não conte história furada.

Perguntou o comissário:
– Meninos vocês quem são?
– Nós somos dois passageiros
Respondeu sério Cancão,
– Passageiros sem bilhetes
Para onde vocês vão?

Papai comprou as passagens
E mandou nos trazer cá,
– Em que vapor mandou ele?
Diz Cancão: no Ceará,
Ele mora no Recife
Mamãe mora no Pará.

– Este vapor é o Olinda
O Ceará lá ficou,
Cancão exclamou de forma
Que o comissário chorou,
Disse: maninho a nossa roupa
Ai meu Deus! que jeito eu dou!

Perguntou o comandante:
– Menino seu pai quem é?
Disse Cancão: é fiscal
No Recife, em São José,
Minha mãe é professora
E se chama Salomé.

Perguntou o comandante:
– Como o senhor é chamado?
O Cancão de Fogo disse:
O meu nome é Romualdo,
– O nome de seu irmão?
Disse Cancão: é Reinaldo.

Então disse o comandante
– Quando chegar em Belém,
Mando chamar sua mãe
E o delegado também,
Lá é que posso saber
O erro de onde vem.

O comandante fiado
Que eles eram do Pará,
Não os privou que saltassem
No porto do Ceará,
O Cancão de Fogo disse:
– Um burro é que volta lá.

Naquele mesmo vapor
A precatória seguiu,
Denunciando o Cancão
Quando no quartel dormiu,
Porém ia no correio
O comandante não viu.

Saltaram no Ceará
Cancão ia descuidado,
Andando casualmente
Na porta do delegado,
Este disse: esteja preso
Você foi denunciado.

Você é Cancão de Fogo
Da Paraíba do Norte,
Você lá só falta ser
Cúmplice em pena de morte,
Cancão sorriu e disse:
– Meu senhor, só sendo sorte.

– Sorte por quê? Perguntou
O homem impressionado,
Disse Cancão: já ali
Por um subdelegado,
Nós dois já não fomos presos
Por papai ser empregado.

– E você tem pai aqui
Disse Cancão: tem acolá,
Diz o delegado então:
– Chame o seu irmão e vá,
Diga a seu pai que o chamo
E seu irmão fique lá.

Então disse o delegado:
– Espere um pouquinho aí,
Deu a bengala a Cancão
E disse: leve isso ali,
Diga ao subdelegado
Que traga seu pai aqui.

O Cancão saiu sorrindo
E disse: estou arrumado,
Chegou onde estava o moço
E deu o seguinte recado,
Está aqui esta bengala
Que mandou lhe o delegado.

Ele me ordena que eu
Diga a vossa senhoria,
Que lhe mande cem mil réis
Que ele já aparecia,
E mandou essa bengala
Que o senhor já conhecia.

O moço deu-lhe o dinheiro
Cancão de Fogo voltou,
Disse a Alfredo eu agora
Pensarei por onde vou,
A bomba demora pouco
Se ainda não estourou.

Saímos da capital
Ganhamos a capoeira,
Não havemos de passar
Em lugar que tenha feira,
Perder cem mil réis assim
Não é boa a brincadeira.

E voltou com a bengala
Que tinha lindos anéis,
Disse Cancão: isso aqui
Vale quatrocentos mil réis,
Porém não me custou nada
Eu vendo até por dez.

Quando o delegado soube
Disso que tinha se dado,
E que a bengala dele
O Cancão tinha levado,
De raiva que teve ali
Quase morre asfixiado.

Dava duzentos mil réis
A quem trouxesse Cancão,
Dava o valor da bengala
Como gratificação,
Chorava como criança
E rolava pelo chão.

Disse Cancão: procuremos
Um mato muito fechado,
Então só devemos ir
Por onde tenha roçado,
Onde tenha milho verde
Que a noite se coma assado.

O Alfredo tinha um jeito
Para os olhos revirar,
E representava um cego
Que podia se jurar,
Até um médico oculista
Era fácil se enganar.

E dava um jeito na boca
Que parecia aleijado,
O Cancão de Fogo disse:
– Agora tome cuidado,
Você vai para a cidade
Para ver o que é passado.

Alfredo foi a cidade
E lá viu os movimentos,
Parecia um aleijado
E cego dos mais nojentos,
Soube de tudo que havia
Trouxe três mil e trezentos.

Cancão disse a Alfredo:
– Amanhã vá preparado,
Converse com o vigário
Mas assim como aleijado,
Pregue-lhe uma das minhas
E peça-lhe um atestado.

Você diz: senhor vigário
Eu venho aqui lhe consultar,
Minha mãe antes da morte
Me pediu para pagar,
Uma promessa que fez
Para um santo festejar.

Pedir pelo mundo esmola
Exposto a todo rigor,
Para São Sebastião
E entregar ao senhor,
Vossa mercê não estando
Eu desse o outro pastor.

Se ele der o atestado
Já vê que aí não há nada,
Você peça lhe uma coroa
E a tolha emprestada,
Nós com esses documentos
Faremos boa jornada.

O Alfredo arrumou tudo
Quando o Cancão o esperava,
Disse o vigário consigo:
– Atrás de ti eu andava,
Um conto de réis de esmola
O vigário projetava.

Então deu-lhe o atestado
Escrito com perfeição,
Com carimbo da igreja
Feito por Tabelião,
De forma que só estava
De acordo com Cancão.

Mandou-lhe fazer três vestes
De lutos para ele andar,
E lhe disse: das esmolas
Você não pode tirar,
Um vintém dela não tire
Sob pena de pecar.

E quando Alfredo chegou
Cancão ficou satisfeito,
Deu-lhe um abraço dizendo:
És um menino direito,
Presta atenção aos mandados
Tudo que faz é bem feito.

Meia-noite eles saíram
Quando o dia amanheceu,
Dizia Cancão: neste mundo
Não há mestre como eu,
Disse: nem o diabo pode
Escapar dum laço meu.

Com seis dias de viagem
Começaram a esmolar,
Cancão aonde pedia
Fazia gente chorar,
A fim de dar uma esmola
Era capaz de furtar.

A graça era quando eles
Chegava num povoado,
O Cancão com uma coroa
Ia pedindo de um lado,
Então Alfredo pedia
Como cego e aleijado.

No Ceará não ficou
Uma só povoação,
Que não fosse explorada
Por Alfredo e por Cancão,
E nunca chegou o dia
Que gastasse um tostão.

Sou forçado aqui leitores
A partir as aventuras,
Desse quengo inteligente
Esse rei das travessuras,
Que já foi classificado
Como o rei das diabruras.

Leia o segundo volume
Desse livro apreciado,
E veja o que fez Cancão
Depois de tudo arranjado,
Com o dinheiro das esmolas
Deixando o padre danado.

FIM

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