Mais (duas) histórias do passado que passou. Na transição (1985), entre a ditadura e a Democracia que vinha.
1. Teatro Casa-Grande (Rio), lotado. Ato para celebrar o fim da censura. Naquele dia, liberamos os últimos livros ainda proibidos: Aracelli meu amor, de José Louzeiro; Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva, autor do premiado Ainda estou aqui; e Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, hoje confrade na ABL. Além de um caminhão de músicas de duplo sentido, quase todas feitas para o público do Nordeste brasileiro. Depois de 20 anos de governos autoritários, afinal, o ministério da Justiça se limitava a indicar a faixa etária dos filmes. Sem mais censurar músicas, peças teatrais ou livros.
O público recebeu todos os discursos com palmas. Chegou a vez do ministro Lyra. Foi ele falar no presidente Sarney e se ouvir a primeira vaia. Grande. Injusta, no meu olhar. Por star conduzindo bem sua missão principal – a de operar sem traumas, numa quadra histórica complicada, a transição. Da ditadura para uma Democracia florescente. As manifestações eram ainda reflexo do tempo em que foi presidente da Arena e, depois, do PDS. Lyra começou a defender Sarney:
– Minha gente, vocês não o conhecem. Ele é do Maranhão, verdade, mas tem uma boa visão do mundo. Esteve junto aos militares, também verdade, mas agora está conosco.
E o público indócil. Fernando aumentou a voz:
– Ele foi da Banda de Música da UDN. Sei que a UDN é o atraso. Mas Sarney tem consciência do futuro e está muito à frente disso tudo. É a Vanguarda do Atraso.
O teatro veio abaixo, com aplausos ensurdecedores. A fala era um elogio. Para dizer que Sarney seria um avanço, em relação ao passado. Mas acabou recebida como crítica. E, até o fim do seu governo, virou mantra ‒ A Vanguarda do Atraso.
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2. Na morte de Tancredo, Fafá de Belém cantou nas tvs o Hino Nacional sem nenhum instrumento acompanhando. Com muita emoção. E queria fazer o mesmo num disco. Ocorre que não podia, segundo a gravadora, a partir de interpretação equivocada para a Lei 5.700/71. Dei parecer autorizando. Porque a exigência de “andamento metronômico de uma semínima igual a 120, em tonalidade si bemol” (art. 24) era só para “Sessões Cívicas” (art. 25). E o disco saiu, dedicado a mim, beijos Maria de Fátima.
Fevereiro de 1986, transmissão do cargo de ministro da Justiça. Tomaria posse Paulo Brossard, para Brizola um “Rui Barbosa em compota”. Lyra gostava daquela gravação e deu ordem:
– Na hora da posse, bota o disco de Fafá.
Entrei na conversa:
– Perdão, ministro. Mas seu último ato, no ministério, não pode ser uma ilegalidade, que a transmissão do cargo é uma Sessão Cívica.
– Lá vem você, de novo, botando gosto ruim.
– Desculpe.
– Mas Sarney e Brossard vão ficar putos.
– Será ruim, para você.
Pensou um pouco e disse:
– Deixe comigo.
– Fernando…
– Confie.
Todos em seus lugares, o locutor convocou autoridades para a mesa: presidente da República, ministro que sai, ministro que entra, outros ministros, Procurador Geral da República. Só então anunciou:
– Formada a mesa, e ANTES de se iniciar esta Sessão Cívica, vamos ouvir o Hino Nacional cantado por Fafá de Belém.
Todos de pé. Ouve-se o Hino, em disco, e o povo chorando. Em seguida:
– Começa, AGORA, a Sessão Cívica da transmissão de posse. E Lyra, rindo,
– Viu como é?
Não posso perder a piada: Alcione, sem ter culpa e motivada por um lapso do som, promoveu a ‘atraso da vanguarda’. Abraço, Xico