VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A árvore trepadeira que se chama vulgarmente Cipó matador tem, segundo assevera A. St’Hilaire (botânico francês), um tronco direito, porém delgado e fraco, necessitando do apoio de outras árvores mais robustas.

Segundo os botânicos, o surgimento das trepadeiras foi uma resposta evolutiva às plantas de caules frondosos, fortes e grossos. A disputa por radiação solar estava levando essas plantas a evoluírem, tornando-as cada vez mais altas, com copas cada vez mais frondosas e com crescimento cada vez mais rápido. As ancestrais das trepadeiras, por outro lado, não conseguiam concorrer com estas plantas e começaram a usar as mesmas como suporte para o seu desenvolvimento. Valendo-se de menos recursos energéticos, nutricionais e solares, as trepadeiras foram evoluindo, agarrando-se às árvores frondosas e alimentando-se da sua seiva, a ponto de cobri-las totalmente, abafando-as e matando-as.

Um advogado, que há anos morava no Amazonas, retornou a Natal e abriu um escritório de advocacia. Logo nos primeiros meses, os clientes foram aparecendo.

Dentro da seriedade que lhe era peculiar, Dr. Pedro, o causídico, tinha senso de humor e gostava de conversar. Contava fatos pitorescos, relacionados ao Amazonas, tema que fazia brilhar os seus olhos.

Dizia que o que mais agradava ao seu espírito de advogado era quando funcionava na defesa de um réu, perante o Tribunal do Júri. Para tanto, considerava-se um excelente orador e articulador. Gostava de comentar nas rodas de amigos e colegas, os inúmeros debates, já travados com advogados de renome.

Havia grande interesse dos seus amigos e colegas em vê-lo atuar no Júri, pois conheciam sua fama de grande tribuno. E sua estreia em Natal foi um sucesso. Entretanto, meses depois, começaram a notar que o causídico estava se tornando repetitivo nas suas teses de defesa. Criara um chavão e o repetia em todos os júris em que atuava.

Esse chavão consistia em comparar o sofrimento de um réu em julgamento, com o sofrimento de uma árvore hospedeira de uma trepadeira, tal qual o falado “cipó matador do Amazonas”.

Contava o advogado:

“No Amazonas, existe uma trepadeira, que se desenvolve como hóspede de uma grande árvore, servindo-se de sua seiva e arrochando-a de forma tão violenta, que a árvore não resiste e morre por asfixia.”

Para melhor entendimento dos jurados, comparava o Promotor de Justiça à trepadeira ou cipó matador, e a árvore, ao réu sendo atacado e morrendo pela dificuldade imposta pelo Promotor à sua defesa.

Esse chavão foi se tornando conhecido, a ponto de apelidarem o causídico de “cipó matador do Amazonas”, coisa que, se ele soubesse, jamais perdoaria ao autor dessa falta de respeito.

Sempre que o Dr. Pedro ia defender um réu no Tribunal do Júri, os adeptos de apostas se movimentavam. Uns apostavam na repetição do conhecido chavão. Outros apostavam que dessa vez, ele iria fazer uma defesa diferente, e não repetiria o chavão.

Feitas as apostas, ficavam todos aguardando o desenrolar do discurso do advogado de defesa. Alguns já se consideravam perdedores das apostas, quando, de repente, o discurso de Dr. Pedro era intercalado com o mesmo “recado”:

“Senhores jurados: estive vários anos na região Amazônica, lugar onde predominam as maiores árvores existentes na face da terra. A floresta amazônica é, sem dúvida, a mais exuberante floresta equatorial do mundo. Mesmo assim, de vez em quando, imensas árvores centenárias são sufocadas e mortas, por um tipo de planta trepadeira, também chamada de “cipó matador”, que se alimenta de sua seiva, e se trança de uma forma tão fechada sobre elas, que as leva à morte. Uma vez ou outra, há um grande relâmpago e cai um raio sobre a trepadeira, matando-a. É como se o relâmpago viesse em socorro da grande árvore que estava sendo sugada pela trepadeira. Daí por diante, aquela árvore que está sendo morta pelo sufoco, ressurge como um milagre da natureza e volta a florescer, exuberante como antes.

Estamos numa situação equivalente. De um lado, estou defendendo o meu constituinte, que coloco no lugar da árvore agonizante, sofrendo e resistindo à imensa violência de quem, aparentemente, não tinha condições de destruí-lo. Do outro lado, o ilustre Promotor de Justiça, que parece ser aquela insignificante planta, conhecida como “cipó matador”, apertando sempre o meu constituinte, já sufocado e sem chance de defesa.”

Essa argumentação desenvolvida por Dr. Pedro tornou-se uma constante, em todos os seus discursos nos Tribunais onde atuasse como advogado de defesa. Daí por diante, o defensor do réu apelava, cada vez mais, para o sentimentalismo dos Jurados, atento aos argumentos acusatórios do representante do Ministério Público.

No final, ganhava a aposta quem houvesse confiado na repetição do chavão da trepadeira, ou “cipó matador do Amazonas”.

Voltando aos dias atuais, ano de 2020, o ano gêmeo tão esperado, chego a pensar que algum “cipó-matador” abraçou o mundo e a ciência, agindo de forma traiçoeira, e jogando na humanidade o CORONAVÍRUS, que continua fazendo vítimas. Parou tudo por certo tempo, mas não parou o processo eleitoral, sendo o povo induzido a enfrentar as urnas, “sem correr risco de contaminação”. O Vírus, de conluio com os políticos, deu uma trégua aos brasileiros, durante o processo eleitoral, que ainda não terminou.

Como em alguns Estados, o povo aguarda o 2º turno das eleições municipais, as promessas e abraços continuam.

Convém alertar o eleitor que irá votar no 2º turno, que não aceite dos candidatos abraços apertados e demorados, pois eles podem absorver sua energia, chegando a sufocá-lo ou coisa pior, tal qual fazem as trepadeiras ou cipós- matadores com as grandes árvores.

Essas demonstrações de carinho dos candidatos, visando agradar o povo para chegar ao poder, podem ser maléficas. Eles podem estar utilizando o eleitor em benefício próprio, subindo nas suas costas e lhe dando migalhas.

Vale a pena evocar o pessimismo do imortal poeta Augusto dos Anjos:

“a mão que afaga é a mesma que apedreja”.

6 pensou em “A TREPADEIRA

  1. Violante,

    A crônica faz um paralelo entre o “cipó-matador” como hóspede da humanidade disseminando o CORONAVÍRUS. Seria lógico tomar as precauções devidas a fim de evitar o grande número de pessoas contaminadas e, consequentemente, os óbitos dessa pandemia. Entretanto, presenciamos a abertura do comércio, quando o lógico seria só ter condições de funcionar após o controle da Covid-19. A vida humana é prioridade e o foco das autoridades seria incentivar a quarentena, o uso de máscaras e a distância necessária a prevenir o contágio.
    Aproveito esse espaço democrático do Jornal da Besta Fubana para compartilhar uma sextilha do repentista e poeta Rubens do Valle com a prezada amiga:

    Tem gente na pandemia
    Caminhando distraída
    Se arriscando demais
    Sem ter rumo na partida
    Contaminando os demais
    Sem zelar à própria vida.

    Desejo um final de semana pleno de paz, saúde e alegria

    Aristeu

    • Obrigada pelo gratificante comentário, prezado Aristeu!

      Parece que as autoridades competentes estão mais preocupadas em disputar os holofotes, do que com a saúde do povo.
      Enquanto o Covid-19 continua fazendo suas vítimas, o jogo do “abre e fecha”, “pode e não pode”, “usa máscara ou não usa”, “mantem-se ou não o distanciamento social”, gera insegurança e incerteza ao povo, no que se refere ao dia de amanhã.

      Gostei muito da sextilha, inteligente e oportuna, do repentista e poeta Rubens do Valle, que você compartilhou comigo. É o retrato fiel da nossa realidade.

      Grande abraço e um feliz fim de semana!

      Violante

  2. Para os que não prestaram a devida atenção a este parágrafo, pinço-o do delicioso texto violantiano:

    Convém alertar o eleitor que irá votar no 2º turno, que não aceite dos candidatos abraços apertados e demorados, pois eles podem absorver sua energia, chegando a sufocá-lo ou coisa pior, tal qual fazem as trepadeiras ou cipós- matadores com as grandes árvores.

    E aqui deixo, sem sufocar, abraço sanchiano à belíssima Violante, presença garantida e apreciada por toddos, às quintas no cabaré e às sextas a encontramos traçando “cenas do caminho”. Caminho este onde a autora me tem como visitante habitual. Recorro aos árabes, pois “se tens um amigo, visita-o amiúde, pois as ervas e espinheiros crescem por CAMINHOS onde ninguém passa”.

    Um grande final de semana, genial musa fubância…

    • Obrigada pelo carinho do comentário, Sancho. É um orgulho para mim, saber que você passeia pelos caminhos das minhas “mal traçadas” cenas.
      Adorei o provérbio árabe citado por você:

      “se tens um amigo, visita-o amiúde, pois as ervas e espinheiros crescem por CAMINHOS onde ninguém passa”.

      Muito verdadeiro!

      Grande abraço e um feliz fim de semana!

  3. Entendo seu sentimento, Violante. A decepção política, as tribulações que aflige a humanidade.

    A magnifica exposição do texto e o contexto, também remete a preceitos bíblicos:

    1) demonstrações falsas de afeto, como o beijo de Judas (Lucas 22:47-48);
    2) falsos amigos (Miquéias 7:5)

    Como diz um grande amigo, Padre Aloisio Guerra: Oremos!

  4. Obrigada pela presença e pelo comentário sensato, prezado Marcos André!
    O simbolismo do cipó-matador cabe como uma luva no desespero que assola os políticos “profissionais” em época de campanha. O povo já está cansado de falsas promessas e abraços sufocantes.
    O pior cego é aquele que não quer ver. É o caso dos eleitores fanáticos.

    Uma ótima semana!

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