JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Cajueiro que “deixamos” nascer e crescer

Estávamos em julho de 1953. Férias escolares do meio do ano. Naquele tempo eu ainda cursava o “primário”. E, nas férias, sem condições financeiras para conhecer a Disney ou outros lugares proibidos aos sem-dinheiro, o paraíso distava uns 90 Km de Fortaleza. Era a minha querida e encantada Queimadas.

As férias proporcionavam armar arapucas com iscas de melão São Caetano; caçar rolinhas e tomar banho nu no açude.

Mas, a lista de atividades no gozo das férias não era isso tudo. As crianças, mesmo de férias, tinham suas tarefas diárias catalogadas por dona Raimunda Buretama, a Vovó. Entre essas obrigações, “dois caminhos d´água” para encher a terrina de madeira e os potes da casa.

Cumpridas essas tarefas – lembro bem que Vovó, “passada nas casca do alho” recomendava (e aquela recomendação significava uma ordem) sempre que, para buscar os caminhos d´água, eu fosse montado no jumento.

Hoje, lembro bem, desconfio o porque daqueles dois caminhos d´água não podiam ser feitos na jumentinha Preciosa. Pois bem. Menino, na idade dos 11, 12 e 13 anos, é a imagem do cão. É nessa faixa etária que começa despertar para conhecer a “Maria Cinco Dedos”, e, às vezes, cabras e até galinhas.

Os meninos de hoje, não pensam nisso e nem se masturbam mais. Mas, esse não é o assunto.

Vovô João passava o dia na roça. Encontrava sempre algo para fazer e só voltava para casa na “boquinha da noite”, quando as andorinhas faziam malabarismos no ar e com o primeiro cântico do Vem-Vem.

Vovô levava para a roça: a enxada, a foice, uma faca peixeira de 12 polegadas que mantinha sempre na bainha e na cintura para picar fumo (era o que ele dizia) – e uma cabaça com água.

Num dia daquele ano, após o cumprimento das tarefas domésticas, fui ajudar Vovô. Fui fazer as coivaras do mato capinado para bater até moer e fazer o que chamam hoje de adubo orgânico. E foi nesse varrer o mato que encontrei uma castanha de caju nascendo em broto.

Vovô recomendou para que eu protegesse aquele broto pois, com certeza, nascendo, cresceria até servir de sombra para alguém, onde se pudesse pegar o “dicumê” e pousar a cabaça d´água para esfriar na sombra. Fiz o que ele recomendou.

Vieram as férias de 1954 e as de 1955.

Nas férias escolares de 1956, atingindo a adolescência e notando o surgimento dos primeiros pelos pubianos, nova ida para a minha Queimadas. A mesma rotina dos anos anteriores. Dois caminhos d´água – sempre usando o jumento como montaria, pois, usar Preciosa, seria iniciar a saga da longa prática sexual.

Mais uma vez cumpridas as tarefas domésticas, a visita para ajudar Vovô na roça. Dessa vez Vovó mandou levar o “dicumê” e um bom pedaço de rapadura para a sobremesa.

Vovô já esperava a comida. Mas, agora, o cenário era outro. Debaixo de um sol causticante Vovô esperava na sombra do cajueiro que, em julho iniciara a floração.

– Conhece esta sombra? Perguntou.

Antes que eu respondesse, ele mesmo o fez: essa maravilha é aquele broto de cajueiro que sugeri para você não varrer. Agora está nos servindo!

A boa sombra do cajueiro

Os tempos passaram. Concluí o primário e ingressei no Liceu do Ceará, onde concluí do ginasial e o científico. Ingressei na Universidade – e, confesso, ali não aprendi nada além do que meus avós me ensinavam durante as férias escolares.

Eles eram mestres do viver com graduação adquirida no dia a dia. Na enxada, nas benzeduras com galhos de arruda, nas missas dominicais e, principalmente, no ouvir outros iguais – é isso que forma a gente e faz de nós filhos de Deus, capacitados para transmitir o bom para as gerações seguintes.

Se eu tivesse varrido o broto do cajueiro, jogando-o na coivara, não teríamos usufruído da sombra anos depois.

O cajueiro nascido do broto continua servindo como sombra

Anos depois, já morando no Rio de Janeiro, voltei a Fortaleza. Sozinho visitei Queimadas. Agora não é mais Queimadas e foi agregado ao recém-criado município de Horizonte, Região Metropolitana de Fortaleza.

Não encontrei mais a casa que outrora fora dos meus avós, e de onde saí várias vezes, nas férias escolares, para transportar dois caminhos de água num jumento – encher a terrina e os potes da casa. Não vi mais sinal da jumenta, salva das minhas iniciações sexuais.

Onde um dia foi a roça do Vovô, agora é um parque arborizado onde famílias usufruem com suas crianças nos domingos e feriados.

Visitei o lugar e voltei ao tempo de adolescente: levei comigo a cabaça onde transportava água para Vovô, que ainda estava ali, mantida pelos cuidadores em respeito ao passado.

Era a única lembrança material que ainda me ligava aquele lugar onde aprendi tudo que sei hoje.

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