Conheci, lá pelos idos dos anos 50, como Praça dos Voluntários. Separada da Cidade das Crianças por um prédio onde funcionou a sede da Prefeitura Municipal de Fortaleza. Muito próximo da Praça dos Leões – todas no Centro de Fortaleza.
Ali, lembro bem, numa das calçadas da Rua Padre Mororó, nos fins de tardes, dois ou três vendedores ambulantes vendiam peixes. A fiscalização da Prefeitura permitia a comercialização, mas proibia a limpeza dos peixes para evitar o mau cheiro deixado pelas vísceras.
Mas, o bom mesmo, era a sombra que as árvores antigas e desenvolvidas nos oferecia.
A sombra aprazível e o funcionamento da Prefeitura Municipal nos anos 50/60 o funcionamento da Secretaria de Segurança Pública garantiam o ir e vir das pessoas.
Foi quando chegou no local um Engraxate. Depois chegou mais um, em seguida mais outro, até que chegou o quarto Engraxate.
O zelo pelo trabalho que garantiria o pão na mesa da família, acabou sendo recompensado e a própria Prefeitura Municipal tratou de “legalizar” aquele trabalho. Mas, não esqueceu de por limite na quantidade dos “lustradores”.
Os engraxates procuraram retribuir o zelo da Prefeitura. Passaram a atender melhor os clientes, oferecendo cadeiras confortáveis, revistas novas e jornais do dia. Foi nesse tempo que se instalaram também, no local, as primeiras bancas de revistas e jornais.
A praça quase perdeu o nome oficial de Praça dos Voluntários
O engraxate
(homenagem aos que representaram o Brasil em Monte Castelo, na guerra mundial), para Praça dos Engraxates. A Prefeitura não aceitou, pois não ficaria bem esquecer o feito voluntário dos que lutaram por nós.
Da mesma forma que havia um número limitado de “profissionais lustradores”, havia, também, pessoas que preferiam “mandar engraxar” os calçados ali.
O freguês levava um ou dois pares de sapatos, quando iam para o trabalho e pegavam ao fim do expediente. Havia confiança mútua.
Aquela confiança acabou por se traduzir em amizade. A amizade premiava com flanelas novas, escovas, álcool e até latas de graxa Nugget, a preferida daqueles anos.
Os clientes com mais tempo disponível iam para engraxar os sapatos. A sombra das árvores e o carinho do atendimento acabavam propiciando uns breves cochilos.
A clientela cresceu tanto que a demanda de serviços gerava o bom atendimento. A confiança se “espalhou” pela cidade. Sapatos chegavam “precisando de limpeza e reparos” e o atendimento não custava nada além do valor cobrado pela limpeza.
O zelo do lustrador para atender bem
Foi quando Leão (o nome era Ivanildo dos Santos Góis – mas era conhecido pelo apelido de Leão, por ser um fanático torcedor do Fortaleza Esporte Clube) – teve a ideia de convidar dois profissionais “Sapateiros” para se juntar ao grupo de engraxates.
Deu certo.
Sapateiro fazendo pequenos reparos nos calçados
A clientela cresceu. A praça ficou mais famosa. Foi naquele tempo que o povo quis trocar o nome oficial de Praça dos Voluntários para Praça dos Engraxates, sem a intenção de desonrar os que nos representaram na Itália.
Faz tempo não visito Fortaleza, onde ainda tenho familiares (um irmão, com seus filhos, meus sobrinhos; e duas filhas cariocas geradas no meu primeiro casamento).
O calçado atual requer outro tipo de limpeza e “graxa”
A Praça dos Voluntários continua lá. Com suas sombras maravilhosas. Os engraxates já não mais quatro. São vários. As bancas de revistas e jornais desapareceram por falta de leitores, da mesma forma que estão fechando e desaparecendo as livrarias – em no máximo duas décadas, as bibliotecas serão verdadeiros museus. O telefone celular “acabou” com tudo.
Os ambulantes já não vendem mais os seus peixes.
Os dependentes de drogas quiseram instalar na praça, por conta das boas sombras, uma Cracolândia. Os engraxates não deixaram e dispersaram os viciados debaixo de porradas. A polícia ajudou na dispersão e pancadaria.
As pessoas são outras e com elas chegaram os novos calçados. Poucos são os serviços de lustração que aparecem. Mas a sombra continua lá. As cadeiras confortáveis dos engraxates, também.



