MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

“A história é escrita pelos vencedores” é uma realidade tão antiga como o mundo. Mas a última década trouxe uma “overdose” de informação sem precedentes na história, e com isso a disseminação de mentiras tomou uma intensidade e velocidade também sem precedentes. Coisas completamente falsas, mentiras sem pé nem cabeça tornam-se dogmas incontestáveis literalmente do dia para a noite.

Uma destas “fake news” que têm se espalhado como fogo morro acima é a suposta ausência de saúde pública nos EUA. Com base no argumento “todo mundo sabe disso”, as redes sociais se enchem de histórias contando que lá apenas os ricos podem ficar doentes, porque os pobres morrem aos milhões pela rua sem assistência, enquanto outros milhões perdem tudo que têm por causa de uma unha encravada. Tudo mentira.

Começando pelo básico: o sistema de saúde pública dos EUA é dividido em vários programas, sendo o mais importante conhecido como Medicaid. Existem programas específicos para idosos (Medicare), crianças (CHIP), militares (MHS), ex-militares (VHA), índios (IHS) e funcionários do governo (FEHBP), isso considerando apenas o âmbito federal.

A militância no Brasil repete sem parar “mais verbas” e “mais investimento” como se fossem palavras mágicas. Bem, só o Medicaid recebe do governo federal e dos estados a quantia de 600 BILHÕES DE DÒLARES por ano. Ao câmbio de hoje, isso corresponde a 3,3 TRILHÕES de reais, aproximadamente 30 vezes mais do que o nosso orçamento federal reserva para a saúde.

Se “mais verba” resolve tudo e a verba deles é tão grande, deve ser um sistema ótimo, certo? Errado. O atendimento do Medicaid é quase tão ruim quanto o do nosso SUS. Por quê? Na minha opinião, é porque sistemas pagos e gerenciados pelo governo tendem a ser (com raras exceções) ineficientes, burocráticos, esbanjadores, e mais preocupados com seus próprios interesses do que com os dos seus usuários.

Visto como um todo, o sistema de saúde dos EUA padece de vários problemas similares aos do Brasil, e todos eles têm algo em comum: acontecem porque o sistema deixa de lado o objetivo fundamental, que é a relação entre um fornecedor (o médico ou o hospital) e um cliente (o paciente) visando atender a uma necessidade. Ao invés disso, a preocupação passa a ser com procedimentos, regulamentações e metas estabelecidas por burocratas que não têm nenhuma ligação com os problemas do paciente, mas apenas com totais e sub-totais em uma planilha.

O primeiro problema é o enorme e insensato controle do governo sobre os planos de saúde privados, tanto lá como cá. Embora o tal controle alegue as melhores intenções, ele restringe a concorrência, cria burocracias inúteis e faz os preços subirem. No Brasil, existe ainda a insegurança jurídica, já que o governo, através da ANS, modifica os contratos existentes sempre que sente vontade. Quanto mais caros os planos de saúde privados, mais gente fica sem poder pagá-los e passa a depender do governo, menos eficiente.

Um segundo problema, mais grave lá que aqui, é a chamada “judicialização”. Processar médicos e hospitais pedindo indenizações milionárias é quase um esporte nacional por lá. Existem estimativas que, em determinadas áreas da medicina, metade daquilo que o usuário paga vai para seguros de responsabilidade civil. Nenhum médico se atreve a atender um paciente sem pagar esse tipo de seguro.

Isso gera um terceiro problema. Para tentar reduzir os riscos, as seguradoras exigem que os médicos sigam à risca as normas e protocolos elaborados pelos seus departamentos jurídicos, tentando não deixar brechas para reclamações. O resultado é que o médico atende um paciente com prisão de ventre, e ao invés de receitar um leite de magnésia, é obrigado a pedir uma dúzia de exames completamente desnecessários, mas que são exigidos pelos advogados da seguradora.

Se o médico é obrigado a pedir os exames, e o plano de saúde é obrigado a pagar, surge o quarto problema: que incentivo os fornecedores de exame têm para cobrar pouco? Nenhum, é claro. Nos EUA, o setor de exames é considerado o mais lucrativo de todo o sistema de saúde, exatamente porque sabe que seu faturamento é garantido, e portanto se sente à vontade para cobrar quanto quiser.

Um quinto problema: os burocratas estão constantemente tentando “otimizar” o sistema através de regras obtidas a partir de estatísticas, o que significa querer que os problemas se adaptem às soluções, e não o contrário. (uma velha expressão se aplica aqui: para quem só tem martelo, todo problema é prego). Em resposta a isso, os médicos passam a buscar formas de burlar as regras para conseguir resultados. Vou citar um exemplo: uma vez, em certo local, um burocrata queria reduzir os custos com internamentos, e determinou que os exames de pacientes internados deveriam ter prioridade em relação aos outros. Os médicos rapidamente perceberam que os exames de pacientes não-internados começaram a demorar mais, e passaram a internar todo mundo como forma de conseguir que os exames fossem feitos mais rapidamente. O resultado, óbvio, foi que os custos, ao invés de diminuir, dispararam. Pode parecer ridículo, mas idéias “geniais” como essa surgem o tempo todo, em todos os lugares.

E a história das pessoas que perdem até a casa onde moram por causa de uma doença? Sim, existem, embora longe de ser os “milhões” que muitos brasileiros repetem. O problema é que o Medicaid só atende pessoas que estão dentro de uma determinada faixa de renda, e esta faixa de renda é determinada pelos políticos, estado por estado. Nos discursos, políticos sempre amam o povo e fazem tudo por ele, mas no dia-a-dia das decisões a coisa é diferente. O cobertor sempre é curto para tanta despesa, e alguns estados forçam a barra ao estipular o tal limite. O resultado é que algumas pessoas acabam ficando no meio do caminho: são “ricas demais” para ser atendidas pelo governo, mas pobres demais para conseguir pagar um bom plano de saúde. Aliás, a classe média é sempre a maior vítima das trapalhadas do governo: os ricos sempre garantem seus interesses, e os pobres são vistos pelo governo como votos baratos para comprar. E também existem casos de gente que teria direito ao Medicare, mas prefere pagar um hospital particular do que correr o risco de morrer na fila.

Em resumo, o sistema de saúde dos EUA não serve de exemplo para nós em quase nada. O setor privado é tolhido e burocratizado pelo governo, como aqui; o setor público é ineficiente como o nosso, com o agravante de ser muito mais caro. Mas cantar louvores ao SUS acreditando na fantasia do “inferno capitalista onde os pobres morrem na porta do hospital” continua sendo uma grande burrice.

Se estamos procurando modelos, eles estão em países como Suíça e Holanda, totalmente privados e considerados os melhores da Europa. Mas aí já é assunto para outro dia.

5 pensou em “A SAÚDE, LÁ E AQUI

  1. Prezado Marcelo:
    Como morador do Estados Unidos há 21 anos e hoje também cidadão americano, compartilho em gênero, número e grau com sua brilhante exposição.
    Em um resumo bem resumido, posso afiançar-lhe que os médicos americanos estão muito mais preocupados com os advogados do que com os pacientes.
    Até em um país desenvolvido como os Estados Unidos qualquer coisa que dependa do Governo é de uma ineficiência gritante.
    E tem gente no Brasil que acha que governo é a solução para tudo.
    Um grande abraço e uma feliz Páscoa.
    Magnovaldo

  2. Prezados Marcelo,

    Muito obrigado, mais uma vez, pela brilhante exposição.

    É raríssimo de se ver uma explanação tão enriquecedora quanto esta, em meio ao festival de imbecilidades dos nossos meios de estupidificação da população.

  3. Adônico e Magno Marcelo,
    Temos ótimas notícias e vou espalhando como fogo morro acima: A notícia é tão boa que a REPITO aqui depois de copiar do Ciço, o nosso Cícero Tavares: A meta de vacinar um milhão por dia, estabelecida pelo ministro Marcelo Queiroga (Saúde), batida na quarta (31) e elevada ontem (1º), mostrou o potencial do Plano Nacional de Imunização (PNI). Só faltavam as doses.

    Uma “overdose” de pilantras e velhacos…

    Quanto ao SUS, o gigantismo geográfico e o gigantesco número de picaretas em postos chave em governos a nível federal, estadual e municipal explicam em muito a ineficiência e a roubalheira…

    A gigantesca verba do cofrão do Ministério da Saúde sempre foi um atrativo, que coloca a muitos feito saúva em pé de alface… eita tentação gigantesca para botar a boca em tanta verba disponível… Eles não resistem… parecem velhos tarados em porta de bordel de primeira… e lá está cobiçadíssimo COFRÃO escancarado para pilantras de todas as roupagens e pelugens…

    Insolúvel problema, pois os viciados em roubar nunca largarão o vício… E é gigantesco o número de lobos a tomar conta dos galinheiros desde que o primeiro cofre público foi introduzido no seio da humanidade…

    Abração sanchiano e ótimo final de semana.

  4. Magnovaldo e Adônis, agradeço os carinhosos elogios.

    Sancho, vou escarafunchar um pouco essa sua expressão “insolúvel problema”. Será que os desvios, roubos e corrupções de nosso país são um problema ou são apenas as consequências inevitáveis das opções que fazemos? Como você mesmo diz, o cofrão é imenso e cobiçado. Se nós (eu não, me inclua fora dessa!) como sociedade optamos por essa centralização absurda, esse estado mastodôntico, não deveríamos chamar as consequências negativas de “problemas” como se não tivéssemos nada a ver com isso.

    “qui cum canibus concumbunt cum pulicibus surgent”, diz a sabedoria antiga. Ou, nas palavras da intelectual e filósofa Nair Belo, “quem mexe com criança acaba mijado”.

    Bom fim de semana a todos.

    • “insolúvel problema”
      Assim chamei em virtude de estar tão consolidado na realidade da legislação vigente, que a eles beneficia (por exemplo os tais fundo eleitoral e o fundo partidário que sai de nosso bolso sem que nada possamos fazer). Foram tantos os artifícios criados para que os cofres públicos sejam saqueados “dentro da lei” que só uma medida à la Adônis impediria (não sou partidário de medidas drásticas).

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