VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

Antigamente, a melhor maneira de se promover um produto era o tradicional “boca-a-boca”. Os próprios consumidores elogiavam para amigos, vizinhos e parentes os artigos de que haviam gostado.

A história da propaganda no Brasil começou em 1808, quando nasceu a Gazeta do Rio de Janeiro. Esse periódico publicou o primeiro anúncio de que se tem notícia:

”Quem quiser comprar uma morada de casas de sobrado com frente para Santa Rita, fale com Joaquina da Silva, que mora nas mesmas casas.”

A partir daí, pequenos textos sem ilustração, alguns sem título, do tipo “classificados”, começaram a oferecer serviços: professores de línguas, casas à venda ou para alugar, oferta de escravos, recompensas para quem encontrasse algum negro fugido etc.

Por volta de 1860, começaram a aparecer os primeiros painéis de rua, bulas de remédios e panfletos de propaganda.

Quinze anos depois, em 1875, os jornais Mequetrefe e O Mosquito inauguravam os reclames ilustrados. Desenhos, litogravuras e logotipos passaram a ocupar um espaço cada vez maior, sobretudo depois de 1898, quando surgiu O Mercúrio, jornal de propaganda comercial. Impresso em duas cores, esse periódico contava com ilustradores famosos, como Julião Machado, Bambino e Belmiro de Almeida. Os grandes anunciantes eram, então, os hotéis, as lojas de confecções e os fabricantes de remédios.

Os anos 30 deram à propaganda um novo e importante veículo: o rádio, que transmitia comerciais na voz dos grandes astros das emissoras.

A Agência Ayer foi pioneira no patrocínio de programas de rádio em cadeia (1933/1934), transmitindo as vozes de Francisco Alves, Carmen Miranda, e outros.

Em 1936, a Unilever (resultado da junção da empresa holandesa Margarine Unie e a Lever Brothers, da Inglaterra) se esforçaria em conquistar o mercado brasileiro. Os jingles serviriam como uma estratégia, não somente da Lever, mas também de outras empresas internacionais, para conquistar um mercado urbano brasileiro que começava a assumir uma postura consumista.

Lançada pela Unilever, no Brasil, a campanha do sabonete Lifebuoy começou a ser veiculada em 1937, nas rádios brasileiras, com o jingle:

“ESTE É O TAL QUE NÃO USA LIFEBUOY”, de autoria do publicitário Rodolfo Lima Martensen, responsável também pela criação do termo “C.C” (cheiro de corpo), que ainda hoje é usado no mesmo sentido.

Surgiram outras propagandas, como:

“Evite o “C.C”. (cheiro de corpo)! Use Lifebuoy!”

“Use sabonete Lifebuoy! Só ele contém o elemento purificador especial que de fato evita o “C.C”.

“Lifebuoy livra você do “C.C.”

“Nada de “C.C” comigo! Uso Lifebuoy!”

O odor da transpiração afastava os amigos e as mulheres, e transformava o ‘tal’ que não usava Lifebuoy, num renegado e marginalizado pelo próprio corpo.

Presente em mais de 40 países, Lifebuoy tornou-se marca líder, no segmento de sabonetes antibacterianos, no mundo.

Exalar o cheiro do corpo ou o cheiro de suor, seria algo inaceitável, num período de aglomeração nas cidades. Essa luta pelo bom cheiro do corpo sempre existiu.
O olfato se transformou num bem material, em forma de sabonetes, desodorantes, perfumes, pastas ou enxaguatórios bucais. O mau cheiro deveria ser banido e o bom cheiro deveria ser comprado.

O alerta servia a todos, sem exceção de cor, raça ou classe social.

O sabonete Lifebuoy e a sua campanha publicitária contra o “C.C.” foram considerados o que melhor representava o anseio de se livrar dos maus odores corporais.

O termo “C.C.” acabou sendo incorporado à norma culta da Língua Portuguesa na década de 1980, como “cê-cê” – cheiro de corpo.

A prova de que a preocupação com os odores naturais do corpo se faz presente na vida das pessoas, é que a campanha do “Lifebuoy” ganhou a atenção dos potenciais consumidores e foi um sucesso.

Nos anos 50, com o aparecimento da televisão, ampliou-se largamente o campo publicitário. O grande sucesso da década eram as “garotas-propaganda”, que ganhavam a simpatia e cumplicidade do telespectador para o produto.

As fotos de modelos provinham dos Estados Unidos: mulheres lindas, mas quase todas louras.

Percebendo a necessidade de gente morena para vender os produtos brasileiros, Charles Dulley , da Agência Ayer, colocou um anúncio nos classificados de “O Estado de São Paulo”: “Jovens bonitas, morenas, para trabalho fácil e bem pago.” No dia seguinte, dois “secretas” (policiais) foram à agência averiguar que tipo de “trabalho fácil” era aquele.

Os executivos da Unilever, no Brasil, identificaram um ponto que deveria ser revisto na propaganda do sabonete Lifeboy:

Em 1937, o desodorante ainda não era um produto acessível a todos. Naquela época, não havia no Brasil poder aquisitivo para justificar o uso cotidiano de desodorantes. Portanto, um sabonete que oferecesse as vantagens de um desodorante e dramatizasse essa qualidade junto ao consumidor, através de um forte cheiro, teria grande aceitação.

A utilização de figuras como a miss Brasil Marta Rocha ou a atriz Grace Kelly ajudava a compor o denominado “mundo da fantasia”, criado pela indústria cinematográfica de Hollywood.

11 pensou em “A PROPAGANDA

  1. Violante,

    A sua crônica está excelente. O texto sobre a história da propaganda que pouquíssima gente conhece. Aproveito para dar um depoimento sobre uma propaganda que marcou época na capital pernambucana..
    A mais marcante propaganda da televisão que tenho lembrança é um comercial de uma rede especializada na venda de óculos de grau em Recife, chamada Casa Lux Ótica.
    Tudo começava num palco iluminado de um teatro vazio. Nele, homem sentado numa cadeira, sozinho, olhando fixamente para um ponto da platéia, dizia: “Tem gente que precisa usar óculos de grau, mas não usa. Diz que é feio, que incomoda, que envelhece e que machuca. A visão é uma coisa mais importante do que muita gente pensa. Veja bem, óculos apropriados podem até dar charme e distinção… Procure o seu oculista, e leve sua receita numa casa séria, que trate do seu problema profissionalmente. Eu, por exemplo, não preciso usar óculos de grau. Mas gostaria muito de poder usá-los…”.
    Então, o aquele homem saía, tateando a cadeira, alcança uma bengala e levantando sai de cena fazendo toc-toc com a bengala… Ele era cego!
    Essa frase: “Quando a gente não quer, qualquer desculpa serve”, ficou tão popular, que se tornou um axioma, algo muito falado pelo povo. Esta expressão apresenta uma verdade ética incontestável: quando nós não queremos algo, uma situação de continuidade, um compromisso, uma tarefa, uma mudança, então qualquer desculpa que possamos usar, irá servir de pretexto. Corremos o risco de transformarmos pretextos em argumentos.

    Desejo tudo de bom no final de semana,

    Aristeu

    • Obrigada pelo excelente comentário, prezado Aristeu.

      Gostei muito de conhecer a propaganda de óculos encenada por um cego. Muita criatividade e inteligência do autor. Chega a ser emocionante.

      É impressionante o talento dos caricaturístas e desenhistas de antigamente, com suas propagandas respeitosas e inteligentes..

      Bom final de semana, com saúde, alegria e Paz! .

  2. Dona Violante:

    Interessante.

    A expressão “boca-à-boca” (com “a” craseado) – pelo menos aqui para os meus lados – tem o significado de “beijo”e não de “conversa-ao-pé-do-ouvido”, como p. ex.:

    “Eles estavam num(a ‘boca-à-boca’, sem parar.”

    Ou, então, em um ato de salvar alguém – que parou de respirar, por qualquer razão, como p. ex.:

    “Salvaram o afogado, graças a uma imediata e eficaz respiração ‘boca-à-boca'”.

    Para nós, essa comunicação oral-auditiva é ou uma “conversa-ao-pé-do-ouvido” ou, simplesmente, um(a “boca-ao-ouvido”.

    Por favor, não tome este meu comentário como uma censura lingüística ou qualquer coisa semelhante a “quem-tá-certo-ou-errado”.

    É apenas uma curiosidade lingüística, pois sou seu “fã-de-carteirinha”, desde que tive o imenso prazer (já de início!!!) de ler os seus maravilhosos escritos, graças ao JBF.

    Respeitosamente,

    Um baita abração,

    Desde o Alegrete – RS,

    Adail.

  3. Prezado Adai+Augusto+Agostini,
    boa noite!:

    Obrigada pelo comentário valioso, que me fez reler a minha postagem e rever algumas regras de Português.
    Antes de qualquer coisa, de acordo com o Novo Acordo Ortográfico da Lingua Portuguesa, que entrou em vigor em 2016,. o “hífen” foi abolido em muitos casos.
    “Boca a boca”. não cabe hífen nem crase, por se tratar de uma expressão com palavras repetidas.

    Achei interessante o fato de você dizer que, aí para vocês, “essa comunicação oral-auditiva é ou uma “conversa-ao-pé-do-ouvido” ou, simplesmente, um(a “boca-ao-ouvido”.

    No final, a propaganda “boca a boca” tem esse mesmo significado.

    A comunicação “boca a boca” ocorre durante as conversas. Transforma os consumidores em influenciadores de uma marca. São os próprios consumidores que fazem a propaganda de forma espontânea, de acordo com o que vivenciaram com seus produtos.

    Grande abraço e um excelente final de semana!..

  4. Querida Violante Pimentel

    Interessante quando a propaganda é criativa, às vezes o produto é comum e o vendedor é simples mas dá resultado positivo.

    A atividade propagandeira depende de sorte e latento.

    Certa vez, em Carpina, uns ciganos invadiram as margens da Avenida Santo Antonio e criaram uma espécie de favela de tenda. Um vendedor de mandioca que passava por aí com seu carro de mãe ficou impressionado com a quantidade de gente pedindo sua macaxeira e, no momento de aflição, passando por entre as pessoas, criou os seguintes versos que serviram de propaganda para vender sua macaxeira:

    Olha a MACAXEIRA
    Quem não come cheira
    Tô dentro da invasão
    Levando poeira
    Já falei com o prefeito
    Para ver se dar um jeito
    Pelo jeito que tô vendo
    Não tem jeito não

    E esse “Olhe a MACAXEIRA”, além de ter caído no gosto popular, serviu como mote para venda do seu produto de Carpina ao Recife.

    Ótimo final de semana, querida, e obrigado pela maravilhosa crônica.

  5. Obrigada pelo comentário gentil, querido cronista Cicero Tavares!

    A propaganda é a alma do negócio. Você tem razão, quando diz que “a atividade propagandeira depende de sorte e talento.”

    Esse caso do homem que vendia macaxeira em um carro de mão, é um exemplo.
    A sorte e o talento o ajudaram.

    A sorte o ajudou a cair na graça do povo e conquistar a freguesia do acampamento cigano, para vender seu produto. E o talento o inspirou a criar uma propaganda em versos, cujo mote atraía os fregueses por onde passava:

    “Olha a MACAXEIRA
    Quem não come cheira
    Tô dentro da invasão
    Levando poeira
    Já falei com o prefeito
    Para ver se dar um jeito
    Pelo jeito que tô vendo
    Não tem jeito não”

    Repetindo suas palavras:

    “E esse “Olhe a MACAXEIRA”, além de ter caído no gosto popular, serviu como mote para venda do seu produto de Carpina ao Recife”..

    Grande abraço e um ótimo final de semana!

    • Querida Violante Pimentel, bom dia!

      Já assistiu ao filme THE HURRICANE, com extraordinária trilha sonora do gênio de Bob Dylan, que acusou todos os fascistas na letra da música que prenderam o pugilista por racismo e ganhou todos os processos!

      Se lhe convier, gostaria que a nobre cronista tecesse um comentário sobre esse a temática desse extraordinário filme, que toca no racismo sem politicagem.

      Abraçaço!

      • Querido Cícero Tavares:
        boa noite!:

        Gostei muito da sua postagem sobre o filme THE HURRICANE.

        Acabei de postar um comentário na sua postagem.

        Grande abraço..

  6. Belíssima abordagem do tema propaganda, Violante.

    Principalmente as dos primórdios do seu uso. Era puro romantismo.

    Longe de mim procurar definir o que seja propaganda, publicidade e marketing. Isso Fica para os expert.
    Gosto da boa propaganda. Impressiona-me a genialidade dos seus criadores. Basta ver as inúmeras categorias de premiações que existem no mercado interno e externo..
    Como era de se esperar, com a competitividade e o lucro, vieram os abusos e propagandas enganosas. Medidas foram tomadas. Houve por bem regulamentá-lo. Para isso foi criado em 1980, o CONAR, que é um conselho de autorregulamentação. Dez anos depois, veio a criação do CDC – Código de Defesa do Consumidor, proibindo toda publicidade enganosa ou abusiva. É bem claro o que diz o artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor: “é enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades…

    As técnicas de Publicidade hoje, são tão bem elaboradas que até mesmo psicólogos são consultados para auxiliar na produção de material de comunicação, conforme a tendência cultural e estilo de vida do publico alvo a ser impactado.
    Por conta das inteligentes e férteis criatividades dos publicitários, todos nós guardamos sempre uma boa lembrança de alguma propaganda que nos marcou.
    Uma das que me marcaram, foi a propaganda do fusca, da Volkswagen.
    Por sua longevidade (1938/2003) e ser considerado um carro robusto, econômico, com designe bem diferenciado e levar um certo status ao consumidor, a agencia de publicidade responsável fez o seguinte anúncio com a frase: VOLKSWAGEN FUSCA – Uma ideia quando é boa, é para sempre. E logo abaixo, 4 ilustrações seqüenciadas: um anzol, um parafuso, um clips, e um fusca. Magnifica propaganda.

    A querida dama do JBF, desejo um bom fim de semana

    E que Deus a abençoe.

  7. Obrigada pelo excelente comentário, prezado cronista Marcos André!

    Gostei de você ter abordado a publicidade, até os dias atuais, destacando o CONAR, órgão criado em 1980, e o CDC (Código de Defesa do Consumidor) ,criado dez anos depois, “proibindo toda publicidade enganosa ou abusiva.”, como dispõe seu art. 37.
    Atualmente, as técnicas de Publicidade são fantásticas e abrangentes..

    Como disse você, “por conta das inteligentes e férteis criatividades dos publicitários, todos nós guardamos sempre uma boa lembrança de alguma propaganda que nos marcou”.

    Além da propaganda do WOLKSWAGEN FUSCA, outras propagandas também me marcaram, como a da VARIG, a da MARGARINA BEM-TE-VI e a do PIRULITO K-BOM.
    .
    Grande abraço e um feliz fim de semana para você também!

Deixe um comentário para Violante Pimentel Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *