JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Paulo, mas muito mais conhecido como “Paulim” era marisqueiro. Optou pela profissão, depois de ter enfrentado problemas de saúde por ter vivido anos “pegando caranguejos” para sustentar a família, e ter contraído uma bactéria que se reproduz no mangue, provavelmente trazida pela maré cheia.

Essa atividade, requer acurado conhecimento da movimentação do mar e, pasmem, até das fases lunares. É parte da pesca artesanal. O trabalho é intenso e exige conhecimento sobre as marés, os locais de coleta e os tipos de mariscos, além de habilidades específicas para a catação e o beneficiamento dos animais.

Diferentemente da pesca de peixes e outras espécies em alto mar, o “marisqueiro” utiliza ferramentas apropriadas, mas simples, como facas e ganchos para a coleta, além de objetos como colheres de pedreiro, baldes e ciscadores.

A mariscagem é uma fonte de sustento para muitas famílias, garantindo a renda e a alimentação.

“Paulim” tinha freguesia certa e exigente, e fazia questão do bom atendimento, pois era do resultado disso que dependia o sustento da família. Pescava sarnambi, sururu, tarioba e era esse último marisco que faturava um pouco mais, por atender sob encomenda especial para o Restaurante Xico Noca.

Mas, era vendendo ostra que esperava um dia ter atendidas suas orações e formar uma boa reserva financeira para se estabelecer comercialmente no ramo dos mariscos. É uma atividade lucrativa, porque considerada exótica na culinária brasileira.

Paulim “catando” ostras na maré baixa

Ostra é o nome comum de grupo diferente de molusco que cresce, em sua maioria, em águas marinhas ou salobras.

Atualmente, com atuação na piscicultura, a EMBRAPA desenvolve pesquisa e tem relevante atuação na orientação para implantação de viveiros de criação e produção de ostras – inclusive para atender a exportação.

As ostras pertencem à ordem Ostreoida, família Ostreidae. As ostras têm um corpo mole, protegido dentro de uma concha altamente calcificada, fechada por fortes músculos adutores. As brânquias filtram o plâncton da água que lhe servem como alimentação.

A ostra tem uma forma curiosa de defesa. Quando um parasita invade seu corpo, ela libera uma substância chamada madrepérola, que se cristaliza sobre o invasor impedindo-o de se reproduzir. Depois de cerca de três anos esse material vira uma pérola. Sua forma depende do formato do invasor e sua cor varia de acordo com a saúde da ostra.

Conchas de ostras

“Paulim” iniciava o dia de trabalho na madrugada. Precisava catar sururu, sarnambi e tarioba para atender as encomendas da freguesia.

Morando cerca de 800 metros da praia, “Paulim”, com o auxílio da mulher e da filha mais velha, após a captura do sururu, sarnambi e tarioba, fazia a limpeza dos mariscos escaldados e limpos para atender a freguesia.

Cumprida essa etapa, pedalava uma bicicleta velha por cerca de 9 Km até o Anil, onde embarcava no “Bonde Cara Dura” (a maioria dos passageiros transportava caranguejos, mangas, verduras e até galinhas caipiras para serem vendidas na feira livre do João Paulo). Entregava as encomendas e voltava no primeiro bonde até o ponto de partida, e, depois, voltava pedalando a bicicleta velha até em casa. Era quando preparava as ostras para vender na orla marítima, cruas, com sal e limão. Há quem goste de adicionar pimenta malagueta.

A ostra não era apenas o principal marisco tirado e vendido por “Paulim”. Era, também, a esperança de um dia encontrar um banco de ostras (que passaria a ser só do seu conhecimento e posse) que contivesse “pérola”.

Mas, enquanto isso não acontecia, “Paulim” se contentava em acordar diariamente na madruga, tirar sururu, sarnambi, tarioba e ostras para atender a uma seleta freguesia. Inclusive restaurantes.

Ostras gratinadas

Sem pretender ser algum dia Chef de restaurante, por experiência “Paulim” até se atrevia a observar nas cozinhas a preparação da “ostra gratinada”, item de alta preferência da freguesia e de alto custo.

Modo de preparo: Afervente as ostras até que as cascas abram; Refogue a cebola na manteiga e, quando dourar, junte o vinho, deixando-o evaporar; Acrescente a farinha, o creme de leite e a água, mexendo sempre, até deixar o creme liso. Finalize com o sal e a pimenta; Coloque uma colher deste creme em cada ostra e salpique com queijo parmesão; Leve ao forno para gratinar.

Ostra com pérola

O valor comercial da pérola de ostra no Brasil varia, dependendo de vários fatores. Pérolas de água doce podem custar entre R$ 50 e R$ 250, enquanto pérolas marinhas podem chegar a custar milhares de reais, com preços entre R$ 250 e R$ 25.000 ou mais. O valor depende de tamanho, forma, brilho e tipo de pérola (água doce ou marinha), além de sua procedência e raridade, segundo a Amorzin Store e Mega Curioso.

Pérolas grandes são evidentemente mais caras. A perfeição da pérola redonda é mais valorizada que as de formato irregular.

As pérolas com brilho intenso e reflexos sutis são mais procuradas. As pérolas marinhas (Akoya, South Sea, etc.) geralmente são mais caras que as pérolas de água doce. As pérolas roxas são muito raras, e, assim, têm valor muito alto, chegando a milhões de reais em alguns casos.

Eis que, num mês de junho já bem distante – quando a cidade recebe fluxo de turistas muito grande -, depois de atender aos fregueses de sururu, sarnambi e tarioba, “Paulim” preferiu esperar a maré baixar mais, para que seu canteiro de ostras ficasse mais trafegável. E foi assim.

“Paulim” percebeu uma ostra de tamanho fora do comum. Catou. Mais na frente, catou mais outra e percebeu que algo estranho estava acontecendo. Mais uma ostra diferente, mais outra e mais outra. Era um banco de ostras.

O tamanho chamou a atenção de “Paulim”. Pegou a faquinha e abriu aquela ostra de tamanho desproporcional – e ali encontrou a ostra que sonhara encontrar durante anos para alavancar seu empreendimento e garantir o sustento da família.

A ostra continha uma pérola enorme. “Paulim” não coube em si de tanta alegria. Foi em frente e catou mais ostras, essas de tamanhos menores, mas com pérolas.

2 pensou em “A OSTRA

  1. Prezado ZéRamos, como sempre, você descreveu tão bem a vida do marisqueiro PAULIM, que não mais barganharei no preço do marisco em feiras/mercados sabendo o quanto é difícil esta pesca e que o elo mais fraco desta cadeia é justamente o pescador. Obrigado pelo conhecimento e tenha um excelente domingo.

    • Marcos, a vida é difícil para todos. Mas, os marisqueiros e marisqueiras nunca tomam café da manhã, e, às vezes não comem o que retiram do mar para o sustento da família.

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