(A Bourbon e Meneses)
Tenho pena de tudo quanto lida
Neste mundo, de tudo quanto sente,
Daquele a quem mentiram, de quem mente,
Dos que andam pés descalços pela vida,
Da rocha altiva, sobre o monte erguida,
Olhando os céus ignotos frente a frente,
Dos que não são iguais à outra gente,
E dos que se ensanguentam na subida!
Tenho pena de mim… pena de ti…
De não beijar o riso duma estrela…
Pena dessa má hora em que nasci…
De não ter asas para ir ver o céu…
De não ser Esta… a Outra… e mais Aquela…
De ter vivido e não ter sido Eu…

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)
Florbela diz nestes versos que tem pena dos que sofrem.
“Dos que andam pés descalços pela vida”
Estaria ela expondo uma preocupação social?
Seu soneto vai muito mais além, pois a pena que ela expõe é a de não sermos aquilo que queremos.
Mas o que queremos mesmo?