RODRIGO CONSTANTINO

Flávio tem eleição “nas mãos”, mas pode jogar fora, diz Ciro Nogueira

O presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira

O senador Ciro Nogueira (PI), presidente do PP, foi alvo de buscas nesta quinta-feira, em nova fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga um esquema bilionário de fraudes envolvendo o banco Master, de Daniel Vorcaro. O primo do ex-banqueiro, Felipe Vorcaro, foi preso na operação.

A ação da PF que tem Ciro Nogueira como alvo foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Na decisão, o magistrado aponta que o parlamentar é indicado pelos investigadores como “destinatário central” de vantagens indevidas pagas pelo dono do Master.

A representação policial descreve um contexto de vantagens indevidas entre o senador e Vorcaro, como a compra de participação em empresa por um valor abaixo do mercado, a identificação de pagamentos mensais recorrentes de R$ 300 mil à “estrutura vinculada ao senado”, o uso de um imóvel de Vorcaro como se fosse do próprio senador e custeio de viagens internacionais, hospedagens, restaurantes e voos privados.

A principal contrapartida, ao que tudo indica, foi um projeto de lei apresentado pelo senador para elevar em quatro vezes o valor coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito, que foi feito sob medida para beneficiar o esquema do Master. A “emenda Master” daria fôlego às vendas de CDBs do banco com retornos extraordinários, pois haveria uma enorme rede de proteção para investidores que alocassem até um milhão nesses títulos. O rombo, caso o projeto tivesse sido aprovado, seria quatro vezes maior e poderia quebrar o sistema financeiro brasileiro.

Kakay, advogado petista de Ciro Nogueira, diz em nota que a defesa “repudia qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”. Eu já tenho visão diferente: contratou o Kakay provavelmente porque está encalacrado mesmo, e precisa de proteção perante o Poder Judiciário.

A atividade de lobby não é permitida no Brasil, como é nos Estados Unidos, e isso talvez seja um erro. É natural da democracia que empresas apresentem suas demandas para melhorias dos setores, mas isso deve ser feito sempre de forma transparente. No Brasil, o que se vê é puro tráfico de influência, “investimento” em conexões políticas para projetos sob medida para privilegiar o empresário. É corrupção ativa e passiva mesmo, com trocas de “favores” que se traduzem em milhões transferidos para contas de políticos.

O caso de Ciro Nogueira gera reflexões interessantes. Primeiro sobre o duplo padrão: a mesada do senador seria de 300 mil reais. Sofreu busca e apreensão, está com tornozeleira eletrônica, passaporte confiscado. Lulinha recebia mesada da mesma quantia, 300 mil reais também, de lobista do INSS. Está na Espanha curtindo a vida com dinheiro desviado.

Isso para não falar de Alexandre de Moraes. O senador foi alvo por um montante total de R$ 18 milhões, mas o ministro supremo segue no cargo, sem uma apreensão de celular, mesmo com um contrato de R$ 129 milhões do mesmo banqueiro com o escritório da sua família, sendo que Vorcaro já teria admitido que essa montanha de dinheiro era para “se aproximar de Moraes”?

Outro ponto que merece reflexão. Ciro Nogueira foi ministro importante da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro, e foi nessa ocasião que Jair disse: “Eu sou centrão”. Ele admitiu à época estar entregando a “alma” de seu governo ao centrão. O problema de a direita fazer tantas concessões ao centrão fisiológico é que isso respinga feio no conservadorismo.

O caso vem bem a calhar para uma reflexão sobre escolhas do PL, com aval do Eduardo Bolsonaro, principalmente a de indicar André do Prado para o Senado por SP. Mello Araújo faria infinitamente mais sentido: sério e conservador. Mas é Valdemar, o mensaleiro do PT, quem manda. O mesmo Valdemar que chegou a afirmar que Ciro Nogueira, ele mesmo, seria um ótimo vice para Flávio Bolsonaro!

Quando ministros do PT são pegos com malas de dinheiro, como os 51 milhões de reais do Geddel Vieira, nós, da oposição, batemos no governo Lula com toda razão. São as alianças da esquerda com o centrão fisiológico corrupto, mas fazem parte do governo do PT. Não se vence ou se governa sem o “centro”, mas é preciso muito cuidado nas escolhas, pois claro que um ministro bolsonarista, ainda que centrão, mancha a reputação do governo quando é pego num escândalo desses.

Política não é convento, não dá para ser purista. Mas redobrar os cuidados e evitar claras armadilhas, cascas de banana evidentes, isso é o mínimo que se exige! E claro: quando alguém do “seu lado” é pego com batom na cueca, cabe à direita exigir punição sem melindres, justamente para mostrar a diferença em relação à esquerda.

Ciro Nogueira já disse que renunciaria ao mandato de senador se seu nome fosse citado no caso do Banco Master. Sendo assim, o povo aguarda a sua renúncia até o fim do dia! É o mínimo que se espera para evitar que esse caso desgaste ainda mais o bolsonarismo. Lembrando que Ciro não é um bolsonarista em si, mas sim alguém que já elogiou muito o próprio Lula enquanto chamava Bolsonaro de “fascista”.

Todos podem mudar de opinião, mas em se tratando de ícones do centrão, sabemos que a probabilidade maior é mudança de interesses apenas. O centrão do PL, comandado por Valdemar, quer diluir o bolsonarismo até se tornar nada mais do que um puxador de votos (e recursos) para seu partido, repleto de fisiológicos corruptos. E é exatamente isso que precisa ser combatido pela direita. A menos que os bolsonaristas queiram admitir logo aquilo que alguns já vêm repetindo por aí: não são de direita, mas sim… bolsonaristas! A direita agradece a distinção…

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