A humanidade gosta de atribuir nobreza às próprias guerras. Sempre gostou. As guerras são travadas pela liberdade. As disputas são travadas pela justiça. Os debates são travados pela verdade. Os conflitos são travados por princípios. As rupturas são travadas pela moral. As revoluções são travadas pelo bem comum. Pelo menos é isso que gostamos de contar. Mas a História possui o desagradável hábito de aproximar o rosto da narrativa e examinar suas rachaduras. E, quando isso acontece, algo desconfortável aparece.
Por trás de muitas bandeiras tremulando ao vento existe apenas um ego vestido para a cerimônia. O ego é o mais antigo dos governantes invisíveis. Ele não possui exército próprio. Não possui constituição. Não possui território. Não possui capital. Ainda assim, influencia mais decisões humanas do que muitos parlamentos. O ego não quer necessariamente riqueza. Quer reconhecimento. Não quer necessariamente poder. Quer importância. Não quer necessariamente vencer. Quer ter razão. E é justamente aí que começa a tragédia. A maioria das pessoas acredita que seus conflitos surgem porque pensa profundamente. Frequentemente ocorre o contrário. Elas brigam porque não suportam a possibilidade de estarem erradas.
Existe uma diferença colossal entre buscar a verdade e defender uma identidade. A verdade aceita revisão. A identidade exige proteção. Quando uma opinião se transforma em identidade, o pensamento termina. A partir desse momento, toda crítica passa a ser percebida como agressão. Toda discordância torna-se ameaça. Todo debate converte-se em batalha. E toda batalha precisa de vencedores. Observe as discussões políticas. Observe as discussões religiosas. Observe as discussões acadêmicas. Observe as discussões familiares. Em quantas delas existe uma busca sincera pela compreensão? E em quantas existe apenas uma disputa pela última palavra?
A espécie que descobriu galáxias distantes ainda é incapaz de aceitar um simples: “Você tem razão.” Há algo quase cômico nisso. O ser humano consegue calcular a massa de estrelas mortas a milhares de anos-luz de distância. Mas frequentemente não consegue admitir um erro cometido na semana passada. Talvez porque estrelas não ferem o orgulho. Pessoas ferem. O ego é um escultor de ilusões. Ele convence indivíduos comuns de que são protagonistas indispensáveis de dramas cósmicos. Transforma opiniões em trincheiras. Transforma preferências em princípios. Transforma vaidades em cruzadas. Transforma ressentimentos em causas. Transforma caprichos em ideologias.
O ego possui uma habilidade extraordinária: Ele consegue vestir-se de virtude. Aliás, suas fantasias favoritas são justamente as mais respeitáveis. Muitas vezes ele aparece disfarçado de moralidade. Outras vezes aparece disfarçado de patriotismo. Em certos momentos veste a roupa da religião. Em outros, a roupa da ciência. Às vezes usa a máscara da humildade. Essa é a fantasia mais sofisticada de todas. Porque nada alimenta mais certos egos do que a convicção de serem humildes. A História está repleta de pessoas convencidas de que estavam salvando o mundo. Poucas suspeitavam estar alimentando a própria importância. Reis fizeram isso. Imperadores fizeram isso. Revolucionários fizeram isso. Profetas fizeram isso. Presidentes fizeram isso. Intelectuais fizeram isso. Influenciadores fazem isso diariamente.
O ego não escolhe partidos. Ele escolhe hospedeiros. Talvez por isso seja tão difícil combatê-lo. Ele não habita apenas aqueles de quem discordamos. Habita também aqueles com quem concordamos. E, para nossa infelicidade, habita igualmente a nós mesmos. Existe uma pergunta raramente feita porque sua resposta costuma ser devastadora. Quantas das nossas convicções nasceram de investigação honesta? E quantas nasceram da necessidade emocional de pertencer a um grupo? A maioria das pessoas não suporta permanecer sozinha diante da incerteza. Por isso adota bandeiras. Adota tribos. Adota narrativas. Adota identidades prontas. A dúvida exige coragem. O pertencimento exige apenas adesão.
E assim seguimos. Não pensando. Não investigando. Não compreendendo. Mas defendendo. Sempre defendendo. Defendendo ideias que herdamos. Defendendo certezas que nunca examinamos. Defendendo posições que jamais submetemos ao escrutínio. Defendendo versões idealizadas de nós mesmos. Enquanto isso, o ego sorri. Porque nada o alimenta mais do que a necessidade de estar certo. Talvez seja por isso que tantas discussões terminem sem produzir sabedoria. Os participantes não estavam procurando a verdade. Estavam procurando vitória. E a vitória é uma amante exigente. Ela frequentemente sacrifica a lucidez para preservar o orgulho. A verdade pergunta. O ego proclama. A verdade investiga. O ego conclui. A verdade aceita complexidade. O ego prefere slogans. A verdade tolera incertezas. O ego exige certezas absolutas.
E as certezas absolutas sempre foram um terreno fértil para catástrofes. As maiores tragédias humanas raramente começaram com pessoas dizendo: “Posso estar enganado.” Começaram com pessoas dizendo: “Não posso estar enganado.” Existe uma diferença gigantesca entre convicção e arrogância. Mas o ego trabalha incansavelmente para apagar essa fronteira. Ele sussurra ao ouvido dos indivíduos. Convence-os de que são mais lúcidos. Mais virtuosos. Mais esclarecidos. Mais conscientes. Mais importantes. Até que finalmente produz sua obra-prima: A incapacidade de ouvir. E uma humanidade incapaz de ouvir torna-se uma humanidade incapaz de aprender. Talvez o verdadeiro problema não seja a maldade. Nem a ignorância. Nem a falta de inteligência. Talvez o verdadeiro problema seja algo muito mais banal. Muito mais comum. Muito mais disseminado. O desejo incessante de transformar cada conversa em um julgamento da própria importância.
Enquanto isso, a Terra continua girando. O Sol continua queimando hidrogênio. As galáxias continuam colidindo em silêncio. Buracos negros continuam devorando estrelas. O Universo segue indiferente aos nossos pequenos tribunais de vaidade. E talvez exista uma ironia magnífica nisso. Uma espécie vivendo sobre um grão de poeira cósmica, orbitando uma estrela comum numa periferia galáctica esquecida, passa seus dias disputando quem possui a opinião mais importante. É quase uma forma de humor involuntário. Talvez a maioria dos conflitos humanos não nasça do ódio. Nem da escassez. Nem da ideologia. Nem da religião. Nem da política. Talvez nasça de algo muito mais simples.
Muito mais antigo. Muito mais humano. A incapacidade de aceitar que não somos o centro do mundo. Nem da História. Nem da verdade. Nem mesmo da vida das pessoas ao nosso redor. E enquanto não aprendermos essa lição elementar, continuaremos fazendo o que nossa espécie faz há milênios: Transformar diferenças em guerras, discordâncias em hostilidade e opiniões em altares. Tudo para proteger uma entidade invisível, insaciável e absurdamente frágil. O ego. Esse pequeno tirano que cabe dentro de uma única cabeça e, ainda assim, consegue incendiar civilizações inteiras.
O que dizer do texto? Perfeito!
O Ego está nu !!
Muito bom !!
Deus impôs sentenças específicas de punição e trabalho a Adão e Eva antes de expulsá-los do Jardim do Éden.
Para Adão, Deus declarou que a terra seria maldita por sua causa, produzindo espinhos e cardos, e que ele deveria trabalhar com suor para obter seu pão até que retornasse ao pó, pois era mortal (Gênesis 3:17-19).
Para Eva, Deus afirmou que ela sofreria dores na gestação e que ficaria sob a autoridade de seu marido (Gênesis 3:16).
O Diabo lhes deu de presente o ego. Este já causou o primeiro assassinato, quando houve discórdia entre seus filhos e Caim matou Abel.
“Quo usque tandem”, gripe fiadaputa!!!! A MetSul alerta, hoje, para o avanço de uma nova frente fria pelo Sul, o que inclui o meu RS. Tá frio, Maurino. Fii bagarai aqui em POA… Com avaliação em baixa, Má a Tilde, a beata está doente em casa. “Hoy ya no hay nada que celebrar. Muy triste”…
O papa espirrou no Vaticano e euzinha Beatilde, peguei gripe num evento cultural em POA. Maltrata Matilde a incapacidade de aceitar não ser o centro do mundo, nem da História, nem da verdade, nem mesmo da vida das pessoas ao nosso redor. Só o vírus da gripe me quer. Tanto NEM que me deixou nem-nem…
Se a velhota estiver 100%, comparecerá à 33ª edição do Porto Alegre em Cena. A programação completa da 33ª edição do Porto Alegre em Cena foi anunciada: evento de 10 a 20/9, o Festival Internacional de Artes Cênicas ocupará 13 palcos da capital gaúcha, com mais de 45 espetáculos (teatro, circo, dança e música) que vêm da Argentina, do Canadá e de diferentes Estados brasileiros, como SP, RJ, PR, PE, BA, CE, RN, Goiás e as Minas Gerais, além do Rio Grande do Sul. Ingressos começaram a ser vendidos de 12, às 17h, pelo site, com preços a partir de R$ 25.
Hoje Matilde, além de gripada, está ególatra. Ah, o texto está magnífico, o que não é nenhuma novidade…
Meu agradecimento a todos vocês que compartilharam suas impressões acerca desse texto. Em tempos de respostas rápidas e reflexões escassas, encontrar pessoas dispostas a pensar, dialogar e contribuir com suas idieas é um privilégio raro.
Obrigado a todos vocês, sinceramente, por tirarem um tempo para meus textos.
Matilde, minha querida, estimo melhoras. Seu comentário está impagável.
Saudações a todos.
Belo texto, análise profunda e literária sobre o Eu, dono do Ego.
Parabéns e grato pelo texto
abs.
Brito
Eu que agradeço a gentileza de suas palavras.
O maior perigo à civilização não é a força da ignorância, mas a fragilidade invisível do ego, que destruiria o mundo apenas para não admitir que está errado.
No micro exemplo, é o cara que sai do supermercado com o bolso e o carrinho vazios e sabe o porquê, mas continua votando em “canhotos” só para não dar o braço a torcer.
Foi o que aprendi hoje – Obrigado MJ.
Esse ano teremos todas as possibilidades de uma mudança para melhor.
A menos que o escritório do crime, cuja alcunha é stf, interfira e mude o resultado das eleições; e o tse também.
Grato pelas suas palavras.