MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O assunto do momento no mundo é a demissão de Liz Truss, primeira-ministra da Grã-Bretanha que estabeleceu um novo recorde por lá: durou apenas 45 dias no cargo. Os jornais estão falando da crise, da inflação, das propostas e da queda da libra. Mas o que realmente está acontecendo?

O império britânico passou por todas as fases que os impérios passam: crescimento, hegemonia e decadência. O crescimento entre os séculos 17 e 19 se deu graças a uma política econômica que era a favor da liberdade de comércio, ao contrário dos concorrentes Espanha e Portugal que viam o comércio como algo ruim e perigoso (e pagaram o preço). Na passagem para o século 20, começaram a despontar os sinais de excesso de governo, que logo fez o que governos costumam fazer: colocou o país em uma guerra inútil e desnecessária, e usou esta guerra como desculpa para agigantar seu poder. Durante o século 20, a Grã-Bretanha estatizou a mineração, as ferrovias, as siderúrgicas, os bancos, as escolas, os hospitais, a fabricação de queijo e mais um monte de coisas. Aquilo que não foi estatizado foi “regulado”, isto é, entregue a um pequeno grupo de empresários amigos do governo. Houve outra guerra, e novos surtos de estatização. A história britânica do último século é uma história de longo empobrecimento, uma contínua liquidação da antiga riqueza acumulada.

Pode-se ter uma idéia desta decadência olhando para a libra, a moeda que já foi a mais forte do mundo. Em 1900 uma libra comprava cinco dólares. Hoje, compra apenas um dólar e doze centavos, e isso porque o dólar também desvalorizou um bocado nestes cento e vinte anos. Durante quase todo o século 19, uma libra valia 7,3 gramas de ouro, com cotação fixa. Uma libra de hoje vale apenas 0,021 gramas, ou 340 vezes menos.

A explicação para essa desvalorização é simples: a inexorável lei da oferta e da procura. Quanto maior a quantidade de um bem, menor será seu preço, e vice-versa. A quantidade de libras não para de aumentar, por isso seu valor não para de diminuir. É simples, mas por mais inacreditável que pareça, ninguém parece entender: políticos, jornalistas, economistas, a tal da “opinião pública” e o tal do “mercado” parecem achar normal que o Banco Central fabrique libras e mais libras para “estabilizar a economia”.

O Reino Unido hoje é um país com um sistema estatal de saúde que tem mais de um milhão e meio de funcionários e consome 10% do PIB. A previsão para os próximos anos é aumentar o custo em 3,5% ao ano, mas todos estão reclamando que é pouco. O governo distribui apartamentos para quem não tem onde morar, e dá dinheiro para quem não trabalha. Os políticos estão discutindo a reestatização das ferrovias, que já recebem 5 bilhões por ano em subsídios. A Renda Básica Universal ainda não é lei, mas é apoiada por metade da população e já consta do programa oficial de vários partidos. A única coisa que não é muito discutida é de onde vêm o dinheiro para pagar tudo isso.

Vêm de impostos, dívida e impressão de dinheiro, naturalmente. Entre salvar os bancos na crise de 2008 e distribuir dinheiro na crise do covid, o país acumulou uma dívida que já passou de 100% do PIB, e o déficit de 2022 estava em 30 bilhões até agosto (os dados de setembro ainda não saíram). Quando um país chega nessa situação, qualquer boato pode disparar uma corrida aos bancos para se livrar dos títulos e da moeda. Para evitar isso, ou tentar evitar, o governo anunciou um programa de recompra de títulos, com dinheiro fabricado: tão inútil quanto enxugar gelo.

No meio disso tudo, onde entra a ex-primeira-ministra Liz Truss? A coitadinha parecia, ao menos para mim, ter boas intenções: anunciou um programa que falava em redução de impostos e incentivo ao crescimento econômico. Se as intenções eram boas, a comunicação não era, e ela foi praticamente linchada pelos políticos, pela imprensa e pela maioria da opinião pública. De tudo que ela propôs, os políticos só ouviram “menos dinheiro”, os eleitores só ouviram “menos benefícios”, e a imprensa achou que o corte de impostos iria beneficiar os “ricos”, o que no mundo politicamente correto de hoje é uma blasfêmia imperdoável.

No mundo de hoje todos devem acreditar que os ricos são malvados, e que a culpa de todos os problemas é deles. Existe até quem diga que o governo deve agir como Robin Hood, tirando dos ricos para dar aos pobres. Quem diz isso mostra que nunca leu a história, porque Robin Hood não roubava dos ricos; roubava do governo. Mais especificamente, ele roubava o dinheiro que os coletores de impostos haviam tomado da população e o devolvia a seus donos. Nos dias de hoje, dizer que ele ajudava os pobres tirando do governo soa incompreensível para quem foi doutrinado desde criancinha a acreditar que o governo tem o monopólio da bondade.

Com a saída de Liz, parece certo que o Reino Unido voltará às idéias ortodoxas, ou seja, os mesmos dogmas irracionais e ilógicos que os economistas do governo vêm defendendo há décadas, e embora eles nunca funcionem, todo mundo confia cegamente que na próxima vez será diferente.

As idéias “ortodoxas” seguem um ciclo que se repete, com um roteiro mais ou menos assim:

1 – O governo fabrica dinheiro para que os políticos possam gastar mais. O aumento da quantidade de dinheiro estimula o crédito. As pessoas começam a se endividar para consumir além de suas possibilidades.

2 – O dinheiro fabricado causa um aumento generalizado de preços. Isso é chamado de inflação, mas na verdade é uma consequência da inflação. Inflação é quando a quantidade de dinheiro “infla”, isto é, aumenta.

3 – O governo diz que vai elevar os juros para conter a inflação. Na verdade, ele não tem escolha e é obrigado a subir os juros, porque precisa continuar vendendo títulos para pagar suas contas, e ninguém compraria seus títulos para perder dinheiro.

4 – Os juros altos desaceleram a economia, porque vale mais a pena aplicar o dinheiro em títulos do governo do que investir em atividades produtivas.

5 – Depois de algum tempo, as pessoas estão endividadas, o preço de tudo subiu e o desemprego aumentou. Não há mais espaço para os preços subirem. Como a imprensa obedece ao governo e olha apenas a variação de um mês para o outro, os jornalistas dizem “a inflação diminuiu”, quando na verdade ela apenas parou de aumentar. O governo se vangloria de ter “vencido a inflação”, sem dizer que foi ele mesmo quem a causou.

6 – Segue-se um período de recessão até que as coisas voltem a se ajustar. Em geral, assim que a situação volta a melhorar, o ciclo se reinicia, voltando ao número 1.

Alguns países não chegam no ítem 5, porque se recusam a parar de fabricar dinheiro. Aí a situação fica em “looping”: as pessoas ficam cada vez mais pobres por causa da inflação e o governo causa cada vez mais inflação fabricando dinheiro para tentar ajudar os pobres. Quando isso acontece, o resultado chama-se hiperinflação e não é nada bonito de ver.

A Grã-bretanha chegará nesse ponto? Difícil de dizer. Costumamos pensar que os países de primeiro mundo tem políticos um pouquinho mais responsáveis, e que sabem quando parar em suas bobagens. Mas nestes tempos de covid e guerra na Ucrânia, os políticos têm as desculpas perfeitas e o povo parece feliz em acreditar nelas, desde que ninguém questione que todo mundo têm o direito indiscutível de ganhar tudo do governo. Se o próximo primeiro-ministro continuar achando que é possível dar saúde, educação, moradia e transporte de graça e ainda distribuir dinheiro para todo mundo, a situação vai ficar bem feia, especialmente porque os eleitores lá estão muito mais mal-acostumados que os daqui. Como costumava dizer meu avô, quando mais alto o pinheiro, mais espetacular é a queda.

Um comentário em “A LIBRA CAIU, E A PRIMEIRA-MINISTRA TAMBÉM

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