Há frases que soam arrogantes à primeira vista. Esta é uma delas: “A humanidade está perdendo a guerra contra a estupidez.” O leitor apressado já prepara a réplica. Imagina tratar-se de mais um lamento elitista, de mais um intelectual ressentido reclamando das massas, de mais uma manifestação de soberba travestida de análise. Nada disso. Na verdade, o problema é muito pior. Porque a estupidez que ameaça a civilização não é a falta de inteligência. Não é a falta de diplomas. Não é a falta de acesso à informação. Não é sequer a ignorância. A ignorância é antiga. É quase inocente.
Durante milhares de anos, os seres humanos ignoraram a existência das galáxias, dos microrganismos, da evolução biológica, da mecânica quântica e da expansão cósmica. E, apesar disso, construíram cidades, ergueram civilizações, produziram arte, filosofia e ciência. A ignorância nunca foi o verdadeiro inimigo. O inimigo sempre foi outra coisa. A estupidez. E a estupidez possui uma característica peculiar: ela não sabe que é estupidez. A ignorância pode aprender. A estupidez raramente deseja fazê-lo. A ignorância pergunta. A estupidez afirma. A ignorância duvida. A estupidez sentencia. A ignorância procura. A estupidez conclui. Eis a diferença.
O ignorante pode se tornar sábio. O estúpido acredita já ser. Nunca houve tanta informação disponível. Nunca houve tantos livros. Nunca houve tantas universidades. Nunca houve tantos cursos. Nunca houve tantos especialistas. Nunca houve tantos meios de acesso ao conhecimento. E, paradoxalmente, nunca foi tão fácil encontrar pessoas absolutamente convencidas de coisas que não compreendem. A humanidade produziu telescópios capazes de observar galáxias a bilhões de anos-luz de distância. Produziu aceleradores de partículas. Produziu computadores quânticos. Produziu inteligência artificial. Produziu modelos matemáticos capazes de descrever fenômenos que desafiam a imaginação. Mas também produziu um exército crescente de indivíduos que acreditam que uma pesquisa de cinco minutos os transforma em autoridades sobre qualquer assunto.
Vivemos a era da confiança sem competência. E talvez esta seja a definição mais elegante da estupidez moderna. Antigamente, para espalhar uma ideia absurda, era necessário esforço. Hoje basta uma conexão de internet. A tecnologia realizou um milagre extraordinário. Democratizou a palavra. Infelizmente, a sabedoria não acompanhou o mesmo ritmo. Pela primeira vez na história, bilhões de pessoas podem falar simultaneamente. Mas a capacidade de falar jamais foi prova de capacidade para pensar. O resultado é uma cacofonia global onde opiniões circulam com a mesma velocidade dos fatos, e frequentemente com muito mais sucesso. O conhecimento exige disciplina. A opinião exige apenas vontade. O conhecimento exige estudo. A opinião exige impulso. O conhecimento cobra humildade. A opinião recompensa o ego. E o ego, meus caros, é um dos maiores aliados da estupidez.
A história humana está repleta de indivíduos brilhantes que passaram a vida reconhecendo suas limitações. Sócrates admitia nada saber. Newton comparava-se a uma criança recolhendo conchas à beira do oceano da verdade. Einstein falava do mistério do cosmos com reverência quase religiosa. Os gigantes intelectuais costumam demonstrar uma estranha característica: humildade. Já os tolos frequentemente exibem uma confiança inabalável. Existe uma razão para isso. Quanto mais alguém aprende, mais percebe a vastidão do que desconhece. Quanto menos alguém sabe, mais simples o mundo parece. A estupidez prospera em territórios de simplicidade artificial. Ela odeia complexidade. Detesta nuances. Tem alergia à dúvida. Despreza a incerteza. Seu habitat natural é a certeza absoluta. Por isso ela floresce em tempos de ansiedade.
O ser humano cansado prefere respostas rápidas. Prefere culpados claros. Prefere narrativas fáceis. Prefere explicações compactas para problemas gigantescos. A realidade, porém, raramente coopera. O mundo é complicado. A sociedade é complicada. A economia é complicada. A natureza humana é complicada. O Universo é absurdamente complicado. Mas a estupidez oferece conforto. Ela promete que tudo pode ser reduzido a slogans. Que todo problema possui um único culpado.
Que toda questão complexa possui uma solução simples. E milhões de pessoas aceitam a oferta. Não porque sejam más. Mas porque a simplicidade seduz. A verdade exige esforço. A mentira frequentemente oferece descanso. A estupidez não destrói apenas o conhecimento. Ela destrói a curiosidade. E uma civilização que perde a curiosidade começa a envelhecer intelectualmente. Observe os grandes avanços da humanidade. Todos nasceram de perguntas. Jamais de certezas. A ciência não surgiu porque alguém declarou possuir todas as respostas. Surgiu porque alguém admitiu não possuí-las. A filosofia nasceu da dúvida. A ciência nasceu da dúvida. A investigação nasceu da dúvida. A descoberta nasceu da dúvida. A estupidez, porém, considera a dúvida uma fraqueza. Por isso ela jamais descobre. Apenas repete.
Mas existe uma ironia ainda mais perturbadora. A estupidez não está apenas entre os incultos. Ela também habita os instruídos. Habita os acadêmicos. Habita os especialistas. Habita os jornalistas. Habita os empresários. Habita os políticos. Habita os religiosos. Habita os ateus. Habita os conservadores. Habita os progressistas. Habita qualquer lugar onde a convicção se torne mais importante que a realidade. A estupidez não possui partido. Não possui religião. Não possui nacionalidade. Não possui classe social. Ela é democrática. Distribui-se com admirável imparcialidade. E talvez seja exatamente por isso que seja tão difícil combatê-la. Porque ela não mora apenas nos outros. Mora em todos nós.
Cada vez que rejeitamos um fato porque ele contradiz nossas crenças favoritas. Cada vez que preferimos aplausos à verdade. Cada vez que confundimos emoção com argumento. Cada vez que tratamos discordância como heresia. Cada vez que transformamos opiniões em identidade. A estupidez avança. Um centímetro de cada vez. A guerra contra a estupidez nunca foi uma guerra contra pessoas. É uma guerra contra impulsos humanos. Contra a preguiça intelectual. Contra a arrogância. Contra a vaidade. Contra a ilusão de que já compreendemos suficientemente a realidade. E essa guerra está longe de ser vencida. Na verdade, talvez esteja sendo perdida. Porque vivemos numa época em que a ignorância pode adquirir aparência de conhecimento. Em que a superficialidade pode adquirir aparência de profundidade. Em que a confiança pode adquirir aparência de competência. E em que a popularidade pode adquirir aparência de verdade.
Talvez a maior ameaça à civilização não seja a falta de inteligência. Talvez seja a abundância de certezas. Porque toda grande descoberta começou com alguém disposto a dizer: “Posso estar errado.” E toda grande estupidez começou com alguém convencido de que jamais poderia estar. A humanidade não está perdendo a guerra contra a estupidez porque existem pessoas ignorantes. Está perdendo porque cada vez mais pessoas transformam suas opiniões em fortalezas e suas certezas em divindades. E quando a dúvida desaparece, a inteligência não tarda a acompanhá-la. A partir daí, resta apenas o ruído. Muito ruído. E uma espécie que aprendeu a dividir o átomo, medir a idade das estrelas e sondar os limites do cosmos continua tropeçando no obstáculo mais antigo de todos:
A incapacidade de reconhecer a própria estupidez. Essa é, talvez, a forma mais perigosa de estupidez. Porque ela vem acompanhada da convicção de que pertence sempre aos outros.
Maurino, meu caro, seu texto (um primor, como de costume) obrigou-me a pegar o “busão lotado” e ir à Biblioteca Pública do Estado (Rua Riachuelo, 1190. Porto Alegre – RS ao encontro de Nelson Rodrigues, mais precisamente ao livro “O reacionário”, pág. 456). Lá escrito está:
[Até o século XIX,] o idiota era apenas o idiota e como tal se comportava. E o primeiro a saber-se idiota era o próprio idiota. Não tinha ilusões. Julgando-se um inepto nato e hereditário, jamais se atreveu a mover uma palha, ou tirar uma cadeira do lugar. Em 50, 100 ou 200 mil anos, nunca um idiota ousou questionar os valores da vida. Simplesmente, não pensava. Os ‘melhores’ pensavam por ele, sentiam por ele, decidiam por ele. Deve-se a Marx o formidável despertar dos idiotas. Estes descobriram que são em maior número e sentiram a embriaguez da onipotência numérica. E, então, aquele sujeito que, há 500 mil anos, limitava-se a babar na gravata, passou a existir socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente etc. Houve, em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas.
“A humanidade está perdendo a guerra contra a estupidez.” Euzinha já desconfiava faz tempo (desde Nelson Rodrigues: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”) o que, para o Maurino é uma certeza. O ignorante pode se tornar sábio. O estúpido acredita já ser. E a nada sábia Matilde (o pouco que sei aprendi com os luminares do JBF) concorda que a estupidez não mora apenas nos outros. Mora em todos nós.
Mas, venhamos e convenhamos que boa parcela da humanidade abusa da sorte e do direito de ser estúpido. Veja você, por exemplo, aquela parcela significativa da população que de dois em dois anos vai às urnas e vota em “janjo e/ou sua trupe ou assemelhados”.
Hoje Matilde (Bonitinha, mas Ordinária) está rodriguiana e mauriniana.
Minha cara Matilde, depois de saber que meu texto foi capaz de fazê-la enfrentar um ‘busão lotado’ rumo à Riachuelo, 1190, para reencontrar Nelson Rodrigues, confesso que fiquei dividido entre a vaidade e a responsabilidade. Vaidade, porque não é todos os dias que alguém leva um texto nosso até a Biblioteca Pública em busca de um diálogo com Nelson. Responsabilidade, porque, depois disso, qualquer coisa que eu escrever terá de respeitar o distinto público — e, sobretudo, o ônibus. 😂 Sua observação foi preciosa. O ignorante pode aprender justamente porque ainda sabe que não sabe; o estúpido, ao contrário, frequentemente transformou a própria ignorância numa fortaleza. E talvez seja esse o ponto mais assustador: a estupidez deixa de ser deficiência quando passa a ser convicção. Quanto à sua conclusão, minha cara Matilde, seja muito bem-vinda ao rodriguianismo mauriniano — embora eu deva adverti-la de que, por aqui, o ingresso é gratuito, mas a saída talvez não seja. Um grande abraço!