A HISTÓRIA DO DINHEIRO

“Se as pessoas um dia entenderem como funciona o sistema financeiro, no mesmo dia a revolução estará em todas as ruas” – Henry Ford

Nos primórdios da civilização, o homem inventou o dinheiro. Infelizmente, mais ou menos na mesma época, também foi inventado o governo, e desde então os dois sempre estiveram juntos.

Ter mais dinheiro é algo que todo mundo quer. Para as pessoas comuns, a forma de obter dinheiro é trabalhando, isto é, produzindo algo que tenha valor para alguém. Mas o governo funciona em uma lógica diferente: ele oferece serviços pelos quais todos são obrigados a pagar, concordem ou não, queiram ou não. Por causa desta falta de parâmetros, tudo que o governo faz costuma ser caro e ineficiente. A consequência é que o governo sempre está em busca de mais dinheiro.

Entre os serviços que o governo costuma oferecer (e obriga todos a aceitar) está justamente fabricar dinheiro. Ao fazer isso, o governo também costuma desvirtuar a sua função básica, que é a de ser uma referência de valor. É que para quem têm nas mãos o poder de fabricar dinheiro, é quase impossível resistir à tentação de fabricar mais e mais.

No início da história, muitos objetos foram usados como dinheiro: pedras, conchas, dentes de animais. Logo se percebeu a vantagem dos metais, e dentre eles o ouro: é fácil de guardar e de transportar, não quebra, não apodrece nem enferruja, pode ser dividido em pedaços menores ou unido em um pedaço maior. E, principalmente, não pode ser falsificado (mas, para isso, o governo logo deu um jeito).

Inicialmente o ouro (ou a prata) era medido pelo seu peso. Mas andar carregando balanças é incômodo, então alguém teve a idéia de fabricar pequenos objetos chamados moedas, com um peso constante e conhecido, gravado nela. Não era mais necessário pesar: todo mundo sabia que a moeda X tinha tantas gramas de ouro, e a moeda Y, tantas gramas de prata. Este sistema funcionou por séculos, embora a sociedade sempre tenha convivido com um problema: a fabricação de moedas era quase sempre monopólio do governo. Em tempos de crise, era comum que a moeda que deveria ter dez gramas de ouro tivesse na verdade oito de ouro e dois de prata, ou sete de ouro e três de cobre, ou qualquer outra mistura que dependia da cara-de-pau e da necessidade de cada governo. E como a moeda tinha o símbolo do rei, duvidar da quantidade de ouro da moeda era duvidar do rei, e isso era crime. Aliás, quando se chama um governante de mentiroso, ele ficará tão mais ofendido quanto mais verdadeira for a acusação.

Quando se aumenta a quantidade de dinheiro (misturando metais ou de qualquer outro jeito) acontece uma coisa chamada inflação. É um princípio da economia, tão fundamental quanto a lei da gravidade. Os efeitos da inflação podem ser adiados em certas circunstâncias, mas não evitados, a não ser que se tomem outras medidas dolorosas. Existem centenas de casos na história de governantes que lançaram seu país na miséria ao abusar do poder de inventar dinheiro, mas de modo geral a humanidade ainda não aprendeu, e a todo momento vemos em algum lugar as pessoas garantindo que desta vez vai dar certo (tudo bem aí, Argentina?).

Na Idade Média, surgiu outro tipo de dinheiro. Foi inventado pelos banqueiros, que eram pessoas que mexiam com dinheiro para facilitar os negócios, principalmente nas cidades que realizavam feiras, eventos onde todo mundo ia para comprar e vender. Quando um comerciante de uma cidade fazia um negócio em outra cidade, enviar o pagamento em moedas de ouro era complicado e perigoso. Aí entrava o banqueiro: se um comerciante queria mandar dinheiro da cidade A para a cidade B e outro queria mandar dinheiro da cidade B para a cidade A, nenhum dinheiro precisava viajar: o banqueiro anotava os valores, mantinha uma “conta” de cada um e transferia CRÉDITOS (esta palavra é importante). Para comprar em uma cidade distante, o comerciante não levava ouro: levava um papel assinado pelo banqueiro que dizia “este papel vale X moedas de ouro”. Para o vendedor que recebia o papel, era o mesmo que receber as moedas (ou até melhor), tanto que a maioria não se dava ao trabalho de procurar o banqueiro para trocar o papel pelas moedas: simplesmente repassava o papel para outro. O papel acabava funcionando como dinheiro.

Logo os banqueiros perceberam que, como era improvável que todo mundo pedisse para trocar os papéis de uma vez só, ele não precisava assinar papéis apenas para as moedas que existiam: eles também podiam criar dinheiro “virtual”, prometendo a troca por moedas que na verdade não existiam. Melhor dizendo, as moedas que o banqueiro tinha eram apenas uma fração dos papéis que ele emitiu. Por isso, este processo é até hoje chamado de “reservas fracionárias”.

Mas qual a vantagem de “inventar” um papel, se eventualmente ele terá que ser pago? Ora, enquanto não for pago, ele pode ser emprestado – e com juros. Com isso, os banqueiros deixaram de ser apenas “guardadores” e “trocadores” de dinheiro e passaram a ser emprestadores. Como seus papéis tinham a confiança de todos, eles podiam criar crédito (olha a palavra aí) do nada, e cobrar por ele. Na prática: um sujeito precisava de dinheiro. O banqueiro não tinha dinheiro, mas mesmo assim entregava para o sujeito um papel escrito “vale cem moedas de ouro”. Este papel passaria de mão em mão, como se fossem moedas. Algum dia, alguém iria ao banqueiro e pediria para trocar o papel pelas moedas, mas até lá o primeiro sujeito já teria pago sua dívida – e teria devolvido ao banqueiro não cem moedas, mas sim cento e vinte. O banqueiro estava o tempo todo emitindo novos papéis e resgatando papéis antigos, teoricamente tendo lucro em todos eles. Eventualmente ele levaria um calote, e o banqueiro teria que arcar com o prejuízo. Porquê? Porque os papéis que o banqueiro emitia só tinham valor em função da confiança que as pessoas tinham de que aquele papel realmente poderia ser trocado por moedas de ouro a qualquer momento. Se por algum motivo surgisse o boato de que um banqueiro não tinha condições de honrar os papéis que assinou, todo mundo corria para trocar seus papéis por moeda – e essas moedas não existiam. O resultado era o que se chama “quebrar a banca”, e muita gente perdia dinheiro. O banqueiro perdia tudo e às vezes até a própria vida.

Muitas pessoas acham que pedir dinheiro emprestado de banco não é bom negócio. Já as pessoas que fazem parte do governo acham que emprestar dinheiro do banco é um ótimo negócio, por um motivo bem simples: não são eles que vão pagar. Por isso, governos sempre foram os maiores clientes dos banqueiros. Sem banqueiros, existe um limite para a velocidade com que o governo pode tomar o dinheiro das pessoas. Com o banqueiro, o governo pode gastar agora o dinheiro que ele irá tomar das pessoas no futuro – naturalmente, ele terá que tomar um pouco mais para pagar os juros para o banco.

Governos mandam em tudo, e naturalmente passaram a mandar nos bancos. Mandar é uma maneira de dizer: foram criadas normas e regulamentações que fazem com que o processo seja bom para ambos, e ao mesmo tempo permite que os políticos posem de bonzinhos junto ao povo que paga a conta. Um exemplo bem bobo: o governo diz ao banqueiro “Preciso de dinheiro. Quanto você quer de juro?” “Dez”, responde o banqueiro. “Nada disso”, diz o político. “Você vai cobrar trinta, mas eu vou te cobrar quinze de imposto. Você fica com quinze e me ajuda na próxima eleição, onde eu vou fazer o povo acreditar que os outros quinze sairam do seu bolso, e não do bolso deles”.

O sistema financeiro atual foi desenhado após a Primeira Guerra Mundial (que aliás mudou o mundo de forma muito mais profunda que a segunda, que é muito mais falada). Os governos já haviam descoberto que simplesmente emitir moeda não funciona: a inflação acaba saindo de controle. Apenas acumular dívida também não funciona, porque os juros começam a subir muito e também saem de controle. Então, ao longo do século 20 foi sendo montado o sistema que existe hoje, que não é fácil de entender. Na verdade, acho não é exagero dizer que boa parte da complexidade do sistema é exatamente para que as pessoas não consigam entendê-lo.

De forma muito resumida, o sistema monetário brasileiro funciona assim: existe um órgão do governo chamado Tesouro Federal que pede dinheiro emprestado aos bancos, em troca de papéis que chamaremos genericamente de “títulos do governo”. Os bancos “compram” estes títulos, mas não se usam mais moedas de ouro nem papéis assinados. Os bancos simplesmente digitam alguns números em seus computadores e criam, do nada, créditos (olha a palavra aí de novo) na conta do governo. Os diversos órgãos do governo acessam os computadores dos bancos e transferem estes créditos (que não são moedas, nem notas, nem ouro, nem dólares, nem coisa nenhuma – são apenas bytes nos computadores) da conta do governo para a conta das empreiteiras, dos fornecedores, dos funcionários, dos aposentados, enfim, de todos aqueles que dizem, metaforicamente, que “recebem dinheiro” do governo, mas na verdade recebem créditos via transferências bancárias. (Você já viu alguém entrar em um prédio do governo e sair de lá com dinheiro no bolso? Não, não estou falando do Rodriguinho Rocha Loures).

As pessoas que receberam do governo estes créditos eletrônicos em suas contas também vão transferir estes créditos (para a Oi, Visa, Casas Bahia, Unimed, etc.) E estas empresas vão transferir estes créditos para seus fornecedores e funcionários, e assim por diante, numa ciranda sem fim. Sem fim? Há dois pontos importantes aí. Primeiro: um banco sempre precisa estar atento para não “passar do limite” ao criar créditos, porque as pessoas que recebem os créditos podem transferí-los para outros bancos, e aí podemos ter uma quebra de banca, que nos tempos modernos é muito mais complicada que na Idade Média, mas é feia do mesmo jeito. No Brasil o risco é baixo porque os créditos nunca vão muito longe, já que mais de 90% do mercado pertence a cinco bancos que você sabe bem quais são. Segundo: todo mundo que recebe estes créditos acaba repassando uma parte deles para o governo para pagar impostos. E o governo repassa uma parte deste crédito para os bancos para pagar os juros dos empréstimos anteriores, porque, como disse um ex-ministro, “dívida não se paga, dívida se rola”. Claro, ele estava falando das dívidas que são pagas com o nosso dinheiro, não o dele.

Para completar a salada: estes créditos que os bancos criaram não são tecnicamente dinheiro. E o Tesouro não cria dinheiro, apenas pega emprestado. Então de onde vêm o dinheiro? De outro órgão do governo, que teoricamente não tem nada a ver com o Tesouro: o Banco Central. O Banco Central, de acordo com a constituição, tem a função de criar dinheiro, mas apenas em troca de títulos do governo que estejam em poder dos bancos. Ou seja: o Tesouro pede dinheiro emprestado do banco em troca de um papel; o banco entrega o papel para o BC e recebe em troca dinheiro que o BC criou do nada. E tem mais: os títulos do governo, incluíndo os que estão em poder do BC, rendem juros. Então o governo paga juros para o BC, e com isso o BC tem um lucro, que é repassado… para o governo! Meio maluco, mas você pode apostar que um bocado de gente recebe salário apenas para preencher e carimbar papéis que documentam o governo pagando para o BC para o BC pagar para o governo.

Outra questão importante: em função destes detalhes técnicos, sempre que nosso governo fizer o que governos fazem, que é criar dinheiro do nada e com isso desvalorizar o dinheiro que você suou para conseguir, os bancos estarão ganhando. Quem “cria” dinheiro não é o governo, é o BC, e este dinheiro só pode “nascer” através dos bancos, em troca dos títulos que o tesouro emitiu. Trocando em miúdos: o governo vai dar coronavoucher para o povo com dinheiro que não têm: o Bradesco vai ganhar dinheiro com isso. O governo vai pagar aposentadorias nababescas para o Judiciário com dinheiro que não tem: o Itaú fica no lucro. O governo distribui dinheiro que não tem para os prefeitos e governadores comprarem respiradores superfaturados: Lucro para o Santander.

Muita gente acha que o governo deve não apenas cobrar bastante imposto, mas também deve gastar mais do que têm. Seria bom que estas pessoas soubessem que para cada tostão que o governo gasta sem ter, elas (e todos nós) perdemos três vezes: a primeira, porque o nosso dinheiro desvaloriza; a segunda, porque pagaremos os juros desta despesa; a terceira, porque cada vez que o governo se endivida, isso é feito através dos bancos, que ganham dinheiro pelo serviço. Mas elas não sabem, e não saberão. Isso o governo já aprendeu, desde o tempo em que Otto von Bismarck disse “é melhor que o povo não saiba como são feitas as leis e as salsichas”.

6 pensou em “A HISTÓRIA DO DINHEIRO

  1. Marcelo.

    Fantástico, soberbo, magistral!

    Traduziu na boa e velha “Inculta e Bela” aquilo que os embromadores da economia falam. Mas, eu fiquei com uma séria dúvida depois de ler o seu texto. Com o uso de todo aquele palavreado tosco e sem sentido, tanto os economistas do governo, quanto os bancos estão gozando com nossa cara, ou nos chamando de otários? Alguém poderia me responder?

  2. Deixo aqui uma pergunta: Em que estágio de desenvolvimento estaria a humanidade se não houvesse o sistema financeiro tão criticado?
    Marcelo se atem ao lado que considera perverso do sistema financeiro, sem considerar o beneficio que a moeda, os bancos e em certa medida os governos trouxeram para o desenvolvimento da humanidade. Uma boa ideia sem financiamento não prospera. O sistema aproxima e alavanca trabalho e capital promovendo desenvolvimento.

    No pain no gain.

    • Eduardo, se meu texto dá a entender que eu sou contra os bancos ou a moeda, então peço desculpas por não me expressar bem. Sou totalmente a favor da existência dos bancos e das suas atividades.

      O que considero perverso é o governo conceder a apenas alguns o privilégio de criar dinheiro e cobrar juros. Se eu emprestar mil reais ao meu vizinho com 2% de juro ao mês e o governo descobrir, eu vou preso por agiotagem. O Bradesco cobra 12% no cheque especial e não é agiota. Além disso, estes poucos privilegiados tem garantias escritas e não-escritas de que serão socorridos pelo governo caso façam bobagem, coisa que nenhum outro setor privado tem.

      O sistema financeiro é importante e fundamental para o desenvolvimento, mas seria melhor se funcionasse em um regime de concorrência, não como um oligopólio protegido pelo governo às nossas custas.

      • Concordo que a concentração é a grande ameaça ao capitalismo. Tenho comentado aqui que as grandes corporações acabam replicando a ineficiência dos governos, além de reduzir a competição que é a alma do modelo.
        A perfeição não existe e a ambição é da natureza humana.
        Seus textos são sempre muito bem fundamentados o que estimula a leitura e debate em bom nível.
        “seria melhor se funcionasse em um regime de concorrência, não como um oligopólio protegido pelo governo às nossas custas”
        Perfeito, parabéns!
        “Tamo junto”

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