MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Trump anunciou que vai mudar o nome do Departamento de Defesa dos EUA para Departamento da Guerra, como era até 1947. Guerra nunca é boa notícia, mas pelo menos é uma hipocrisia que deixa de existir.

Guerras sempre existiram, parece ser uma “falha de projeto” do ser humano. Ao longo do tempo, a guerra tornou-se algo burocratizado, como tudo que envolve o governo. Exige uma declaração formal e é sujeita a regras e convenções. Mas o desejo humano de brigar fala mais forte, e então o mundo moderno inventou uma novidade: fazer guerra sem dizer que é guerra. De preferência, no país dos outros.

Isso é muito vantajoso para os políticos, especialmente quando se trata de controlar um fator cada vez mais importante: a opinião pública. Governo e mídia convencem o telespectador a acreditar na sua narrativa, e consequentemente acreditar que o governo está sempre do lado da verdade, da justiça, da paz, das criancinhas e dos ursinhos carinhosos. Na prática, a propaganda de guerra consegue eliminar dos telespectadores os princípios éticos, e transformá-los em criaturas animalescas que comemoram a morte de seres humanos como quem comemora um gol do seu time. E não é preciso dizer que essa irracionalidade continuará na hora de votar.

Vamos pegar apenas um exemplo: Estados Unidos, o país mais poderoso e influente do mundo moderno. Desde a Segunda Guerra Mundial, que foi uma guerra devidamente formalizada com todos os carimbos e assinaturas necessárias, não houve um único ano na história em que os EUA não estivessem envolvidos em algum conflito em algum lugar do mundo. Mas nenhum desses conflitos foi formalizado como “guerra”. Falamos em “Guerra da Coréia”, “Guerra do Vietnam”, “Guerra do Golfo” e “Guerra da Ucrânia”, mas em nenhuma delas a burocracia foi cumprida. Houve apenas o discurso apontando alguém como “inimigo”, e pronto: mais uma guerra que não é guerra.

O mais antigo dos “inimigos” provavelmente é o Irã. Entrou para a lista em 1951 com a eleição de Mohammad Mossadegh para primeiro-ministro. Mossadegh prejudicou os interesses das empresas de petróleo e por isso foi derrubado em 1953, em um golpe organizado e pago pela CIA (os arquivos secretos da época já foram liberados para o público após o prazo de sigilo). O golpe transformou o rei Reza Pahlevi, aliado dos EUA, em ditador absoluto, situação que perdurou até 1979 quando Pahlevi, muito doente, abandonou o país. O Irã transformou-se em uma ditadura islâmica, cujo primeiro líder foi o Aiatolah Khomeini. Disposto a não permitir o fortalecimento do Irã, os EUA incitaram uma guerra com o Iraque, então governado por Saddam Hussein. A guerra durou quase toda a década de 1980 e terminou sem vencedor, mas com altos lucros para as indústrias bélicas dos Estados Unidos.

Desde o fim da guerra com o Iraque, o Irã nunca mais atacou ninguém, o que não o salvou de ser atacado várias vezes por EUA e Israel. A alegação tende a ser sempre a mesma: o país estaria a “poucas semanas” ou “poucos dias” de enriquecer urânio em quantidade suficiente para construir bombas atômicas. Sob essa alegação, instalações de pesquisa, laboratórios e prédios do governo foram bombardeados, e pessoas, muitas delas civis, foram mortas.

Uma informação curiosa para os telespectadores que recebem e aceitam sem questionar a questão do urânio enriquecido: nenhum país constrói bombas atômicas com urânio desde os anos 1950. Embora tenha sido usada em Hiroshima, bombas de urânio são consideradas primitivas em comparação com as de plutônio, como a usada em Nagasaki. Um dos motivos é justamente o enriquecimento do urânio, que é caro e demorado. Bombas de plutônio não necessitam de processos de enriquecimento. Então, ou os cientistas iranianos são tão burros que decidiram construir bombas atômicas de pior qualidade e mais difíceis de produzir, ou todo o argumento justificando os ataques ao Irã é falso.

Outro exemplo é o Afeganistão. O país foi ocupado pela União Soviética em 1980, e os EUA forneceram armas para grupos de oposição, como mostrado no filme Rambo III. Houve mais de um milhão de mortes nesta década. Após o fim da URSS, estes grupos tomaram o poder sob o nome Taliban. Após o 11 de setembro, os Estados Unidos ocuparam o Afeganistão e lá permaneceram por vinte anos. Depois de outro milhão de mortes e mais de um trilhão de dólares de gasto, os EUA e a OTAN se retiraram completamente em 2021. Quem passou a mandar no Afeganistão? O Taliban.

Após o 11 de setembro, os EUA também atacaram o Iraque sob a alegação de que o país protegia a Al-Qaeda, embora até os camelos soubessem que isso era mentira. Em 2003 Saddam foi deposto e o Iraque mergulhou na anarquia, o que permitiu à Al-Qaeda se instalar no norte do país e criar o Estado Islâmico em 2013, que durante cinco anos assassinou e destruiu tudo que pôde dentro de seus domínios.

Também há a Síria. Suas fronteiras foram desenhadas pelas empresas de petróleo depois da Primeira Guerra Mundial e do fim do Império Otomano. Formalmente independente desde 1936, viveu em tumulto até 1970, quando os militares liderados por Hafez Al-Assad impuseram um regime ditatorial que aos poucos pacificou o país. Hafez foi sucedido por seu filho Bashar, e no início deste século a situação parecia estar se normalizando, especialmente porque Bashar Al-Assad havia conseguido diminuir a influência do radicalismo religioso muçulmano, em especial a Al-Qaeda.

Mas, por algum motivo, o ocidente decidiu que era necessário derrubar Assad. Por anos, os noticiários ocidentais falaram em “grupos moderados” que se “opunham” ao regime. Na verdade, os tais moderados eram radicais sunitas da Al-Qaeda e sua derivada Al-Nusra, que recebiam dinheiro e armas do ocidente em grande quantidade. A guerra ficou um tempo em banho-maria até que, aproveitando que os telespectadores estavam prestando atenção na Ucrânia, um golpe final derrubou Assad. Abu Mohammad al-Jolani, conhecido líder da Al-Nusra, de um dia para outro trocou a roupa de guerrilheiro por um elegante terno, cortou a barba, colocou no pulso um relógio Patek Philippe de US$ 90.000 e se declarou presidente.

O nome de Al-Jolani ainda estava em várias listas de terroristas procurados pelo mundo (até mesmo na embaixada dos EUA em Damasco) quando o presidente Trump o chamou de “um cara durão, um lutador, com um histórico muito forte. Ele tem muito potencial, ele é um verdadeiro líder.” Ou seja, o governo da Síria, que era inimigo da Al-Qaeda, foi derrubado com o pretexto de combater a Al-Qaeda, e substituído por um aliado da Al-Qaeda. Os jornalistas e os telespectadores ocidentais se emocionaram com a volta à Síria da “democracia”. O número de mortos é estimado em meio milhão nos últimos quinze anos, e as perseguições religiosas têm aumentado.

Para contar a história completa do Oriente Médio, seria necessário falar do aliado local dos EUA, Israel, outro especialista em atacar os outros sem declarar guerra. Mas o pitaco já está bastante longo, então fica para outro dia. Boa noite aos telespectadores.

10 pensou em “A GUERRA QUE NÃO É GUERRA

  1. Caro Marcelo, vamos pelo princípio; “Guerras sempre existiram, parece ser uma “falha de projeto” do ser humano.”. Para quem não acredita em Deus é uma lógica determinística.

    Para quem acredita sabe que o homem foi criado à Sua imagem e semelhança e que o pecado original veio da vontade do homem de ser igual a Deus o que o levou a ser expulso do paraíso.

    O mais interessante é ver em sua análise enviesada da história do último século envolvendo o Oriente Médio não haver uma única menção à Rússia de Putin. Seriam eles irrelevantes nestes cenários?

    “O Irã jamais atacou ninguém desde o fim da guerra com o Iraque”. Falso; Hamas, Hesbolah, Houtis, Irmandade Muçulmana (todos representados na famosa foto ao lado do Alckmin) são grupos pacíficos que se mantém sozinhos.

    O Irã não tem tecnologia para enriquecer urânio. Falso, Eles próprios já reconheceram que 400 kg de urânio enriquecido ficaram sob os escombros do complexo Natan, bombardeado pelos EUA.

    No mais, foi uma boa narrativa.

    • Olá, João (ou deveria dizer ˜caro telespectador˜?) Como sempre, confesso-me admirado pela sua capacidade de ler aquilo que não está escrito.

      1 – Obviamente não vou discutir religião com vc aqui. Apenas escrevi que o ser humano, infelizmente ao meu ver, gosta muito de guerras. Acho que concordamos nisso. Acho que também concordamos que as religiões também gostam muito de guerras, e isso está bem claro em seus livros sagrados. O porquê disso fica por conta de cada um.

      2 – Se vc considera que eu fiz uma “análise do último século”, peço que leia de novo o início do terceiro parágrafo. Vou copiar para facilitar: ”Vamos pegar apenas um exemplo”. Uma “análise” não caberia neste espaço, e o exemplo dos EUA é válido porque, como disse, é indiscutivelmente a maior potência mundial, e, justamente por isso, é usuário frequente desse tipo de tática. Quanto ao Putin, ele nada teve a ver com a deposição do Mossadegh, nem com a invasão do Afeganistão, nem com a guerra Irã-Iraque. Como eu disse, o artigo é focado nos EUA, não no Putin ou no Macron ou no Dalai Lama.

      A propósito, essa tática de contestar um argumento cobrando que se fale de outro assunto, conhecida em inglês como “whataboutism”, precisa muito de uma boa tradução para o português. Já se sugeriu “entãosismo” e “eaquilismo”, mas não é a mesma coisa.

      3 – Você realmente tem dificuldade em captar o sentido de um texto. A afirmação (factual, aliás) de que o Irã não atacou ninguém desde o fim da guerra com o Iraque mostra justamente a idéia central do artigo: Países agindo sem admitir que o fazem, e usando alegações sobre o adversário como justificativa para a suas próprias ações, mas sem admitir um estado de guerra.

      Vou tentar ser mais específico: O apoio do Irã a grupos estrangeiros é uma alegação, provavelmente verdadeira mas não formalmente provada (até porque não é interessante para ninguém se aprofundar muito nessas coisas). Por outro lado, alvos civis no Irã foram várias vezes atacados por Israel e Estados Unidos em ações militares. Formalmente, um país atacar outro sem uma declaração de guerra é algo condenável no direito internacional. Esse é o ponto do artigo.

      4 – Aí vc misturou tudo. O Irã possui usinas nucleares em Bushehr e Arak. Para uso em usinas nucleares, o urânio natural, que possui um teor de 0,7% de U235 necessita ser enriquecido até aproximadamente 20%. Quase todos os países que usam energia nuclear para fins pacíficos enriquecem urânio, incluindo o Brasil e o Irã. Para construir bombas, porém, o urânio precisa ser enriquecido até 80%, o que é difícil e demorado. Por outro lado, usinas nucleares produzem plutônio, e esse plutônio pode ser usado para construir bombas melhores e mais poderosas do que as feitas de urânio.

      O Irã está/estava tentando enriquecer urânio a 80% para construir bombas? Eu não sei, você não sabe, a rede Globo não sabe. É. Uma questão de escolher um lado para acreditar e acreditar que este lado não esteja mentindo.

      Por outro lado, o que eu disse foi: nenhum país fabrica bombas de urânio desde os anos 50. Isso é um fato, e tem uma explicação bem simples: é mais fácil e mais produtivo construir bombas de plutônio.

      5 – Que bom que você gostou da “narrativa”. Ela foi construída com fatos, embora não sejam os fatos que você gosta.

  2. Caro Marcelo, sugiro que v. leia este artigo da Pan, que vou colocar um pouco depois;

    https://jovempan.com.br/noticias/mundo/ira-diz-que-seu-material-nuclear-se-encontra-sob-escombros-em-instalacoes-atacadas-por-israel.html

    “O Irã afirmou na noite de quinta-feira (11) que seu material nuclear altamente enriquecido se encontra sob os escombros das instalações atômicas bombardeadas por Israel e Estados Unidos durante a guerra de 12 dias. “Todo o nosso material nuclear está sob os escombros provocados pelos ataques às instalações bombardeadas”, disse o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araqchi, em uma entrevista à televisão estatal. “A Organização de Energia Atômica do Irã está avaliando se esses materiais são acessíveis ou não, e seu estado”, acrescentou. O paradeiro do material nuclear iraniano, especialmente de 440 quilos de urânio enriquecido a 60%, é uma das incógnitas e fonte de tensões com o Ocidente após a guerra de 12 dias, diante das suspeitas de que foi transferido antes dos bombardeios de Israel e Estados Unidos contra as instalações nucleares iranianas.”

    Era este material nuclear que os EUA e Israel estavam atrás.

    Com esta quantidade de URÂNIO enriquecido o Irã poderia fazer cerca de 10 bombas nucleares.

    De resto siga com sua narrativa baseada em FATOS.

    • É uma técnica de redação bastante interessante:

      A citação do Irã:

      “Todo o nosso material nuclear está sob os escombros…” – nenhuma palavra sobre o grau de enriquecimento.

      A paráfrase do jornalista:

      “O Irã afirmou na noite de quinta-feira (11) que seu material nuclear altamente enriquecido…”- a descrição apareceu!

      De qualquer forma, isso não tem nada a ver com o artigo, como de costume. Eu simplesmente afirmei que nenhum país fabrica bombas de urânio há sete décadas – isso é um fato facilmente verificável – e que isso permite questionar se a narrativa de que o Irã pretende construir uma é verdadeira (ou se o tal urânio enriquecido está junto com as armas de destruição em massa do Saddam Hussein) . Só isso.

    • Pois é, João.
      Alguns preferem pensar por si mesmos.
      Outros preferem acreditar no que o Pravda disse que a AIEA disse para a Reuters.

      Qual é mesmo a importância disso, tirando o fato de que vc quer a todo custo acreditar que “achou um erro” no que eu disse?

  3. Prezado João Francisco. Turning point in JBF too? Sabemos , glorificamos e defenderemos sempre a linha do admirável Editor desta escrota gazeta. Até mesmo sua tolerância com os divergentes – linha chamada democracia. Nem ousaria considerar o Case Charlie Kirk o ponto de virada, porquanto, assíduo (bi-diário) devorador dessa gazeta há muitos anos, sempre identifiquei os cheiros fétidos vindos de lá – chamemos, do leste, apesar de geopoliticamente isso NADA signifique. Quanto a esse míope (eu também era antes da cirurgia – recomendo ao italiano Bertoluci) – que indiscutivelmente tem conhecimentos muito superiores aos meus, raras vezes me trouxe idéias agradáveis, ao contrário. Prossiga-se a campanha

    • Caro Fernando, como diz o nosso grande editor Berto, aqui nesta Gazeta há de tudo e mais um pouco.

      Todos são livres para expor suas ideias e convicções, desde os mais à esquerda, como o colunista Xico o fez no dia 15 com sua crônica; como também um “isentista” juramentado como o titular deste espaço.

      Eles escrevem e eu venho ocupar os comentários para tentar explorar contradições de suas explanações. Tento ser o mais respeitoso, dentro de minhas limitações.

      É por isso que frequento a sei lá quantos anos esta Gazeta Escrota mais democrática da Internet.

      Abraço

    • Prezado Fernando. Do que consegui entender de seu comentário, vc parece estranhar a presença de divergências (divergindo do quê, mesmo?) aqui no JBF.

      De minha parte, digo que elas sempre estiveram aqui. Digo mais: se um dia o JBF deixar de ser plural e cheio de divergências e passar a ser mais um desses jornalecos que glorificam o pensamento único, você não verá mais meus pitacos aqui.

  4. Pingback: GAZETA DEMOCRÁTICA | JORNAL DA BESTA FUBANA

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