PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

E dizer-se que não tens nervos, ó nervosa,
ó vibrátil, sutil, minúscula formiga!
Dizer que não tens alma! E haverá quem o diga,
se o teu exemplo toda gente o imita e glosa?!

Tão pequenina és tu, e, astuta e laboriosa,
arrastas uma folha – e a arrastada te abriga…
E o requinte que pões em roer o grão da espiga?
E a perícia em bordar as pétalas da rosa?

Passas, eu me pergunto onde o melhor motivo:
se – Atlas – erguer nas mãos e nos ombros a Esfera,
se – formiga – arrastar um ramo nutritivo;

Ou – sonhador que a própria angústia retempera –
dia e noite viver, qual dia e noite vivo,
ao peso imaterial de uma triste quimera…

Hermes Fontes, Boquim-SE, (1888-1930)

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