JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Você deixaria de plantar pião roxo e plantaria “cheiro verde” no vaso desocupado que tem em casa?

Mas… se acha com o direito de reclamar do preço desse tempero cobrado por quem planta e rega e prepara para vender!

Se você plantar, qualquer coisa (principalmente a maldade), vai nascer!

Por isso, aprendi com minha Avó que, “quem não plantar o que comer, vai viver de favores – e os favores são as sementes oferecidas pelos corruptores”. E ela nem precisou estudar para virar doutora e saber disso. Longe dela, nos dias atuais, tem que vire doutor, mas não planta nem sabe porra nenhuma.

Minha Avó era fogo! Usava esse fogo para acender o fumo do cachimbo!

Relembradas e ditas essas bobagens que dirigiram nossas vidas ao passar do tempo, e com as mãos benfeitoras e fortes de Deus-Pai nos conduziram até aqui, vamos para a “roça da necessidade”, o caminho mais próximo para tentar enganar a fome que ainda assola boa parte da humanidade – aqui, e alhures.

Pois, naquele lugarejo onde nasci e vivi alguns anos, tinha, mas não tinha, as coisas “dicumê”.

Saíamos caçando o que comer, como os predadores que espreitam suas presas para a sobrevivência, numa verdadeira luta pela vida.

Macaúba

Alguns desses itens aos quais recorríamos para enganar a fome “azul escuro” que nos espreitava, tal qual onça pintada, nunca plantávamos. Provavelmente Deus encarregava os anjos – chamando-os de Natureza – de plantá-las e, melhor ainda, nos apontava os caminhos para que as encontrássemos durante a “caçada”.

Macaúba (Acrocomia aculeata) era uma dessas “frutas”. Não tem muito o que comer, mas consegue espantar ou matar a fome. Principalmente se essa fome for da cor azulada. Além da polpa, existe um coquinho que não tínhamos como quebrar para comer.

Na cidade grande, alguns usavam canivetes ou lâminas de giletes para retirar a polpa. Pacientemente, comíamos uma de cada vez.

Outra “fruta” que adorávamos, pela facilidade de encontrar em determinadas épocas da safra, era o Coco Catolé (Syagrus smithii ou Syagrus cearensis), entre os cearenses também conhecida como “Coco-babão” que, inevitavelmente, produz um tipo de “baba” ao ser comida.

Além do fruto “baboso”, produz um mini-coco que os sobreviventes das necessidades vendem nas feiras livres e mercados em forma de rosários religiosos. Muito e sempre apreciados pelas crianças. Como qualquer fome, tem cor e um atrativo cheiro de quero mais.

Coco catolé ou coco babão

E neste momento chega a necessidade de mudar a cor e o cheiro da fome. Chegamos ao Melão-de-São Caetano (Momordica charantia), que encontrávamos espraiados nas cercas, e usávamos para matar a fome amarela, e para colocar em armadilhas de arapucas onde pegávamos sabiás e outros pássaros – acreditávamos que, tudo era por conta da cor amarelecida (quando madura) e das sementes vermelhas e adocicadas.

“De origem asiática a espécie possui propriedades nas folhas e nos frutos e pode ser utilizada como um remédio natural para tratar diabetes e colesterol. Popularmente conhecido também como melãozinho, é considerado ainda anti-viral e fonte de substâncias antioxidantes capazes de evitar o envelhecimento. A dica é consumir como chá, ou empanado e salada. Para cada receita utiliza-se partes diferentes da planta”.

Algumas mulheres conseguiam usar as folhas e ramos como se fossem sabão. Usavam para lavar roupas, nas águas correntes dos rios e igarapés. Esfregada insistentemente, a clorofila produz sim, um tipo de espuma de odor duvidoso, tanto quanto o cheiro da fome.

Não éramos sabiás, mas o sabor adocicado das sementes maduras nos atraía.

Melão São Caetano

“Você quer ingá?
Pois ingá tá aqui!”

Diálogo do falar cearense que, com cacofonia, gera duplo sentido.

Essa fruta é uma das últimas e desesperadas opções que tínhamos pata espantar para muito longe a cor e o cheiro da fome (os idiotas paulofreirianos dizem que, “a fome não existe. É produto da imaginação dos negacionistas”). Há muito pouco ou quase nada para comer, no Ingá (Inga feuillei).

A fruta da região amazônica Ingá, é comum ser encontrada em lugares nas margens de rios e lagos. O gênero Ingá possui cerca de 381 espécies reconhecidas e o centro da diversidade dos inúmeros tipos do fruto é a floresta amazônica, mas também pode ser encontrado no México, Antilhas e em toda a América do Sul.

Ingá pequeno

Sem dúvida, o ingá é uma excelente fonte de sais minerais, cujas propriedades são indispensáveis para um funcionamento saudável e ideal do organismo. Além disso, a casca da vagem é utilizada para cicatrizar machucados e feridas em geral.

Um xarope derivado da fruta do ingazeiro também é usado para tratar a bronquite.

Ao contrário da maioria dos frutos, o ingá não está presente na culinária típica da Amazônia ou de qualquer outro território brasileiro. De fato, o consumo do fruto é dado unicamente na forma in natura, afinal, sua polpa não é adequada para fins gastronômicos. Apesar disso, as vagens do ingazeiro podem ser facilmente encontradas em feiras e mercados do norte do país.

Guabiraba amarela

Eis que chegamos à Guabiraba (Campomanesia xanthocarpa), a minha preferida. Doce, a ponto de espantar quaisquer tons da fome que mata tanta gente.

A Guabiraba é uma arvoreta nativa do Brasil, encontrada principalmente na região amazônica.

Devido ao fato de ela suportar diversos tipos de clima e solo, ela se adapta bem em todo o território nacional.

Por ser produtiva e de pequeno porte, pode ser facilmente cultivada em vasos, desde que tenha boa incidência diária de sol.

Os frutos são amarelo-vibrantes quando maduros, com polpa suculenta, firme e de sabor doce-acidulado. São maiores que as demais gabirobas.

2 pensou em “A FOME TEM COR E CHEIRO – PARA OS QUE NADA PRODUZEM

  1. Não sabia, ou não lembro bem da cor da fome, mas me lembro muito bem do gosto de algumas dessas “frutinhas” abençoadas, como o melão de São Caetano e o coco babão, que era mais conhecido como ouricuru, aqui na região. Quando maduro, cozido, era uma iguaria. Também fazia parte do cardápio o juá e o trapiá. Abração, Mestre.

  2. Beni, grato por sua generosidade. Não sabia que alguém prefere cozinhar o “catolé”. Sei, sim, que “pupunha” cozida é uma maravilha e servida no café da manhã em Belém/PA.

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