Há uma semana do primeiro turno das eleições de 2026, marcado para 4 de outubro, o debate político brasileiro entra em sua fase decisiva. O Tribunal Superior Eleitoral registra atualmente 13 candidaturas à Presidência da República, com programas de governo formalmente apresentados e disponíveis para consulta pública. Mais do que as disputas políticas tradicionais, a economia aparece novamente como um dos principais campos de diferenciação entre os candidatos.
O cenário econômico que chega às urnas é relativamente complexo. O desemprego estava em 5,4% no segundo trimestre de 2026, enquanto a inflação acumulada em doze meses até agosto alcançava 4,22%. Ao mesmo tempo, o PIB acumulado em quatro trimestres cresceu 1,9%. A política monetária continua restritiva: em setembro, o Banco Central reduziu a taxa Selic para 13,75% ao ano, mas manteve a indicação de cautela diante das expectativas de inflação ainda acima da meta.
Há, portanto, uma combinação pouco simples para o próximo governo. De um lado, o mercado de trabalho permanece relativamente aquecido, apesar dos questionamentos sobre as métricas de Pochmann, da enorme quantidade de empresas em regime judicial, do rombo nas estatais e do comprometimento da dívida pública como fração do PIB. Um país cheio de santos deve contar com os milagres por que as teorias econômicas apontam numa direção e os indicadores apontam para outra. Com a taxa de juros elevada, apesar da redução de 0,5 pontos percentuais, crescimento moderado e dificuldades fiscais limitam o espaço para expansão de despesas. A própria Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda reduziu, em setembro, sua previsão de crescimento do PIB de 2026 de 2,3% para 2,0%.
A questão fiscal talvez seja o ponto de maior convergência temática — embora não necessariamente de soluções — entre os programas. As propostas apresentadas ao TSE mostram que praticamente todos os principais candidatos tratam de dívida, equilíbrio das contas públicas, eficiência do gasto ou reforma do Estado. A diferença está principalmente na intensidade e nos instrumentos utilizados.
No programa do presidente atual, a orientação econômica está associada à continuidade do atual arcabouço fiscal, à reforma tributária, à política de valorização do salário-mínimo e à ampliação dos investimentos vinculados ao Novo PAC e à Nova Indústria Brasil. O programa também destaca crédito para pequenas e médias empresas, renegociação de dívidas e uma política de transformação ecológica vinculada à indústria e à inovação. Coisas que são prometidas desde 2002 quando ele assumiu o governo pela primeira vez. Todos sabem que não há um instrumento econômico sério que o governo possa mostrar.
O governo se apoia, fortemente, na agenda do trabalho, com a inclusão do fim da escala 6×1 e da redução da jornada para 40 horas semanais, além da regulamentação do trabalho por aplicativos. A outra questão mais importante que o governo fez foi dar aumento de 15% para os beneficiários do Bolsa Família e faz isso, puramente e simplesmente, sem interesse nenhum, faz sem querer influenciar o eleitor, não é mesmo?
Na candidatura de Flávio Bolsonaro, o programa econômico enfatiza redução de impostos, reformulação das regras fiscais, redução do custo do trabalho e maior espaço para negociação entre empresas e trabalhadores. Também aparecem propostas de estímulo ao primeiro emprego, crédito para empreendedores, abertura comercial e medidas destinadas a manter a inflação no centro da meta. Quem tem interesse ouça Daniela Marques que foi presidente da CEF e agora é a coordenadora da proposta econômica de Flávio Bolsonaro. Ela fala com naturalidade e trata das questões apontando soluções.
Outro eixo desse programa é a tentativa de ampliar a participação empresarial na geração de emprego. A proposta menciona iniciativas específicas para a primeira empresa, para trabalhadores com mais de 50 anos e para redução dos encargos relacionados à contratação. Dessa forma, o debate trabalhista aparece nas eleições por duas perspectivas diferentes: enquanto alguns programas propõem redução da jornada, outros enfatizam flexibilização das relações de trabalho e redução dos custos de contratação.
Romeu Zema apresenta uma agenda econômica centrada em um ajuste fiscal mais amplo. Seu plano propõe estabilizar a relação entre dívida pública e PIB, realizar reforma administrativa, promover nova reforma da Previdência e reduzir gradualmente o Imposto de Renda das empresas. O documento também prevê privatização das empresas estatais e redução dos encargos sobre a folha de pagamento.
Uma proposta particularmente distinta nessa candidatura é a criação de uma alternativa mais flexível à contratação pela CLT. Trata-se de uma discussão que poderá ganhar espaço justamente porque o mercado de trabalho brasileiro vem sofrendo transformações associadas ao trabalho por plataformas, prestação autônoma de serviços e novas tecnologias.
Ronaldo Caiado, por sua vez, apresenta uma agenda denominada Estratégia Brasil 2040, associando crescimento econômico a uma agenda nacional de produtividade. Seu programa propõe estabilização fiscal, controle das despesas obrigatórias, revisão de subsídios e benefícios tributários e ampliação dos investimentos públicos e privados. Infraestrutura, logística, indústria e mineração estratégica também aparecem como instrumentos de crescimento.
O programa de Caiado introduz ainda a expressão “Orçamento da Verdade”, relacionada à tentativa de tornar mais explícitas as restrições fiscais enfrentadas pelo governo. A preocupação com subsídios e benefícios tributários é relevante porque desloca parte do debate fiscal da simples redução das despesas para a discussão sobre receitas que o Estado deixa de arrecadar.
Entre as propostas menos convencionais aparece também o programa de Renan Santos. Ele prevê desindexação de despesas públicas, mudanças nos pisos constitucionais, reforma do funcionalismo e revisão de renúncias fiscais. Uma das propostas é substituir o Bolsa Família pelas chamadas “Frentes Cidadãs”, nas quais haveria trabalho remunerado em atividades voltadas à comunidade. Seguramente, é uma experiência fadada ao insucesso por diversas razões, entres eles a falta de credibilidade do candidato.
Augusto Cury também incorpora alguns elementos diferentes ao debate econômico tradicional. Seu programa estabelece como objetivos aproximar o déficit público de zero, reduzir gradualmente a dívida e criar um Banco do Empreendedor. A proposta menciona ainda a intenção de estimular a criação de milhões de novos empreendedores e desenvolver Zonas de Processamento de Exportação e corredores econômicos estratégicos. O problema é que não deixar claro como fazer. Papel aguenta tudo.
Talvez uma das novidades mais características da eleição de 2026 seja justamente a presença explícita da inteligência artificial nas propostas econômicas. O programa de Cury, por exemplo, fala em prevenção ao “desemprego estrutural” decorrente da era da inteligência artificial. Independentemente da solução proposta, o aparecimento do tema mostra que a transformação tecnológica passou a ser tratada também como questão de emprego e política econômica. O desemprego estrutural é aquele gerado por problemas macroeconômicos, geralmente associados a riscos sistêmicos, como o caso da pandemia.
As contas públicas, entretanto, continuarão impondo limites às promessas apresentadas. O Prisma Fiscal de setembro registrou mediana de projeções do mercado de déficit primário de R$ 52,3 bilhões para o Governo Central em 2026 e dívida bruta estimada em 83,2% do PIB. Qualquer programa que envolva novas despesas, redução de tributos ou ampliação de investimentos terá, portanto, de enfrentar a discussão sobre seu financiamento.
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes para observar nesta reta final: não apenas o que cada candidato promete fazer, mas como pretende financiar suas propostas. Reduzir impostos e ampliar gastos simultaneamente, por exemplo, exige indicar compensações. Da mesma forma, cortes de despesas precisam esclarecer quais programas, benefícios ou estruturas administrativas serão atingidos. Aqui, eu não deixo de reproduzir o que disse Daniela Marques: cortar ministérios. Ela disse mais: “Bolsonaro cortou 20 mil cargos e o PT criou 22.500 porque cada emprego representa 10% para o partido”.
A eleição de 2026 chega, assim, a seus últimos dias com propostas econômicas que misturam questões antigas e novas. Equilíbrio fiscal, impostos, crescimento e emprego continuam presentes, mas agora dividem espaço com inteligência artificial, economia verde, minerais estratégicos, plataformas digitais, novas jornadas de trabalho e mudanças mais profundas na organização do Estado.
No dia 4 de outubro, o eleitor não decidirá apenas quem ocupará a Presidência pelos próximos quatro anos. Entre os temas submetidos ao debate político está também qual combinação de Estado, mercado, proteção social, política industrial, responsabilidade fiscal e transformação tecnológica deverá orientar a economia brasileira a partir de 2027.
Parabéns ao professor Maurino Assuero, pelo brilhante texto sobre, economia na reta final das eleições. Cabra bom da peste.
Parabéns nobre Assuero, radiografia perfeita de quem entende do traçado. Tenho dito que, para não manter esse desastre que aí se encontra aboletado na cadeira de presidente, voto em um risco no chão, chega de exemplos de malversação com a grana do pagador de impostos. Deus tenha piedade de todos nós. Abraços!