MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Você conhece Roberto Mangabeira Unger? É um sujeito que fala esquisito, e que já foi considerado um “intelectual” em outros tempos. Em novembro de 2005, ele publicou um artigo com o título “Pôr fim ao governo Lula”, que continha frases como “Afirmo que o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional” e “o presidente, avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, mostrou-se inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou”. Qualquer militante lulista, ao ouvir o nome Mangabeira Unger, ficava imediatamente com os olhos vermelhos e a boca espumando de ódio.

Menos de dois anos depois, Lula colocou Mangabeira no governo em um cargo criado especialmente para ele: a “Secretaria de Ações de Longo Prazo” (que foi maldosamente abreviada pelos jornalistas para “SEALOPRA”). Os militantes ficaram sem ar, meio zonzos, mas logo se recuperaram e passaram a desmentir tudo que tinham dito antes, reconhecendo que Mangabeira era muito gente boa e que Lula tinha toda razão em dar a ele uma boquinha.

Do outro lado, a história se repete como em um espelho. Os militantes pró-Bolsonaro falavam com orgulho de seu ministério, repleto de nomes célebres e de reputação ilibada. Até que um dia Sérgio Moro chamou a imprensa para avisar que estava saindo, o que o transformou instantaneamente em um traidor abjeto, merecedor dos piores xingamentos – exatamente como Mangabeira Unger para os lulistas. E, da mesma forma, o mundo girou e agora o militante que xingou Moro precisa parecer contente ao vê-lo abraçado com Flávio Bolsonaro, se apresentando como pré-candidato ao governo do Paraná.

É que vida de militante no Brasil é dura mesmo. As reviravoltas podem vir a qualquer momento e de onde menos se espera – até mesmo dentro da própria família que o militante idoliza, como mostrou o recente affair entre o sucessor ungido do clã Bolsonaro e sua madrasta.

O fato é que políticos, especialmente no Brasil, tendem a ser iguais, e a repetir os mesmos comportamentos. Apenas os militantes acreditam que o “seu” político é completamente diferente dos demais, e para isso se agarra em qualquer frase de efeito, raciocínio ilógico ou apelo emocional que apareça. No fundo, é uma espécie de “futebolização” da política: o militante não pensa em termos de idéias, propostas ou mesmo ideologias, pensa apenas em termos de “nós contra eles”, e dá a impressão de dedicar mais esforço em odiar os adversários do que em apoiar seu escolhido. Não é injusto dizer que o comportamento do militante tem muito de infantil.

Para quem alimenta esperanças na democracia, fica a triste constatação de que o voto do militante vale tanto quanto os outros.

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