JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

“Maior que a alegria de sentir saudades do rincão, é a felicidade de saber que, um dia, descalço, se teve contato com o chão”. (JOR)

Vivem falando que, passear na roça, de férias ou não, é muito bom. Com certeza não é melhor que, nascer, crescer, viver e ser feliz na roça. Descalço, pisar no chão, tendo contato com a terra.

Raimunda Buretama, minha falecida Avó materna, que nunca passou sequer na porta de uma escola, mas teve a inteligência que Deus lhe deu, tinha a “audácia” de dizer que, “a gente precisa pisar no chão, para pegar as bactérias que nos defenderão de males maiores”.

Hoje, muitos anos depois do vaticínio de Vovó, eu tenho certeza disso. Pisando no chão, recebemos e transmitimos a áurea da liberdade, da existência e do contato físico, e, em troca recebemos a vida.

A cidade grande, asfaltada, com regras esdrúxulas que limitam a convivência e a liberdade pelas quais você tanto lutou, jamais te proporcionará o prazer de partir uma lata grande de querosene, fazendo dela um tacho para assar castanhas de caju. Jamais terás o prazer de sentar com uma pedrinha, quebrar e comer essas castanhas – terás que ir a um supermercado ou loja apropriada.

Assando castanhas de caju

Criança, de férias escolares ou não, passeando na roça terão apenas alguns dias de diversão e prazer que é o “pegar uma baladeira (ou estilingue) e um bornal com pedrinhas, e sair para caçar passarinhos – eu fiz isso, por pura necessidade de completar a comida diária”. Tinha até a alternativa de escolher as aves a serem abatidas. “Essa não. Aquela outra, também não”. Rolinhas e avoantes, sim. Eram as preferidas por serem bastantes “carnudas”.

Até aprendi, o cântico da rolinha “caldo-de-feijão” (fooogo-pagoou, fooogo-pagoou!), ou da conhecida rolinha “cascavel” por conta de ter as penas mariscadas feito a cobra.

Menino “caçando” de baladeira

Mas, a vida da criança e do adolescente nascido, criado e vivido na roça não se resume a esses “prazeres”. Além da convivência familiar e com a natureza, existem as amizades que, via de regra, continuarão até a eternidade. As “arengas” (ou rixas e ainda desentendimentos) fazem parte da convivência e, na maioria das vezes, das próprias brincadeiras.

Mas, nisso, existe um alto grau de felicidade construída no respeito mútuo e na humildade e hombridade da aproximação para as desculpas de ambos os lados. E isso, queiramos nós ou não, é parte da construção individual das pessoas.

Rolimã improvisado em pedaços de tábuas faz a alegria de cinco crianças

As peraltices são partes do contexto da vida infantil. Criança que não é peralta vai ter a doença moderna da depressão. É equívoco imaginar que, na roça, as crianças não fazem nada além de brincar. Elas têm suas obrigações individuais, sim. E aquele que não as cumpre, sabe que vai ser castigado, sim senhor. Não vai ser beneficiada com um novo celular nem com uma viagem para a Disneylândia. Vai, sim, passar uma semana de castigo, saindo só para buscar água no açude.

E desde sempre, é assim que avós bons ou maus constroem suas famílias: no bom caminho do respeito e da retidão nas atitudes. Sem concessão e sem mimimis.

Vovó dizia que, “o perdão a uma malinagem fora de hora, acostuma mal, gera desobediência e desrespeito aos mais velhos”.

A foto anexada a seguir, mostra um verdadeiro “pé de meninos”. São doze. Contei meticulosamente. Observei todos descalços, sem tatuagens e sem celulares – mas com sorrisos mais largos que a boca. É uma felicidade contagiante, tanto quanto o voar das aves em liberdade.

Árvore “pé-de-menino”

O botar o pé no chão é a “senha” da felicidade e a chave para usufruir da liberdade. O machucado possível, é na carne, e não na alma, ou no status quo. É, para os que ali moram, “formatar a concavidade dos pés” tão necessária para evitar problemas ortopédicos. Vai além do contrair bactérias, e ainda movimenta de forma lúdica e necessária as panturrilhas, o nosso segundo coração.
E o que dizer do banho nu no açude?

Alguns dirão: mas em muitos (nem todos) banhos os corpos estão nus. Banhar nu no açude é uma terapia diferenciada. Aparentemente privilégio da infância, mas, se entrarmos no arquivo fotográfico das nossas memórias, encontraremos as figuras das nossas mães, nossas avós, e, até mesmo das nossas futuras e pretensas namoradas banhando de vestidos. Aqueles vestidos, molhados, acabam aderindo aos corpos e se tornam transparentes desnudando as mais belas virtudes corporais femininas.

Foto 5 – As peraltices do banho nu no açude

8 pensou em “A DOR DA SAUDADE E A ALEGRIA DE TER SIDO FELIZ

  1. Eita, que saudade! Hoje tenho certeza de que fui feliz em minha infância.
    Sou de São Paulo, capital, mas nasci e cresci em uma região onde haviam muitas chácaras. Uma delas, a nossa.

    Com exceção das castanhas, todas as outras peraltices fizeram parte de minha infância. Hoje as chácaras não existem mais, foram transformadas em condomínios.

    Talvez isso explique as altíssimas taxas de doenças, depressão e violência entre a molecada de hoje. Não têm nem uma cicatriz de joelho ralado, mas possuem a alma fragil e deformada.

    • Pablo, bom dia e agradecido. Mas essa meninada contrai a perigosíssima doença da depressão, embora aos 6, 7 e 8 anos já reúnam condições de decidir o que pretendem ser, no futuro. Coisa de gente imbecil. Cada um segue o destino que Deus determinou. Duvido que alguma menina que nasceu pobre e no nordeste, queira ser algum dia rainha da Inglaterra, e consiga!

  2. Zé você tem o dom de me conduzir à infância uma vez mais. E é tão bom VOLTAR a ser menino de novo, novamente e outra vez. Como éramos RICOS sem termos dinheiro algum, felizes sem atentar para a tal felicidade e fazíamos real a máxima de Drummond: Que seja eterno enquanto dure…

    Menino Zé, vc faz feliz o velho Sancho, ao trazer de volta o menino que fui e que vive nas maravilhosas lembranças de minha Jururubimbinha e arredores, lá no Sul Fluminense.

    Brigaduuuuuuuuuuuuuuuuu, Zé Ramos!!!!!!!

    • Sancho, fomos felizes, sim senhor. E ficávamos mais felizes ainda, quando procurávamos os nossos moinhos de ventos, e encontrávamos. Sua reflexão vinda de Jururubimbinha merece trocentos arre éguas!

  3. Caro José Ramos, quantas saudades, juntava as castanhas, botava pra secarem, torrava em casa, um monte de areia pronta pra jogar e não assar demais. Abraços!

    • Luiz, durante anos, a castanha do caju foi o nosso principal alimento. Juntávamos com “mocororó” (o suco do caju in natura e sem industrialização) e nos fartávamos.
      Como dizia minha Avó, para termos o que comer: “o dicumê a gente derruba com a vara”!

  4. Já escrevi aqui várias vezes, que nosso querido ZéRamos é o cabra que mais me impressiona nessa gazeta escrota com seus textos belíssimos e lúdicos, sempre volto no meu tempo de “minino”, baladeira no pescoço, pés descalços, sempre em bandos e ríamos até de fratura exposta. Hoje, são apenas lembranças, mas nada como um coração lotado de boas lembranças. Mais uma vez obrigado Zé!

    • Marcos, baladeira feita da borracha da Câmara de pneus de carros ou de bicicletas. A “funda” tinha que ser de couro de boi. As pedras a gente pegava nas beiradas dos açudes. Quebrando castanhas assadas, por conta do óleo que espirrava e pela quantidade que ficava nas cascas, era comum aparecerem as pulgas – e agente pegava bicho-de-pé que só a mulesta, nera não?!

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