JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Homem protegido da chuva – chapéu, capa plástica e galocha

Quando nasci, dois irmãos já haviam chegado antes de mim. Meu pai já tinha mais de 40 anos. Era um homem amadurecido, vindo de ultrapassagens de empecilhos difíceis. Foi professor, naquela época, de Aritmética, trabalho para o município. Ali conseguiu ultrapassar o primeiro grande empecilho: foi demitido, mas saiu ileso e garantiu sua dignidade.

Os muitos amigos que havia feito ajudaram na caminhada. Se soubesse dirigir veículos, teria sido motorista de ônibus intermunicipal. Como não era habilitado, foi trabalhar como Cobrador de ônibus na empresa intermunicipal de um antigo amigo.

Iniciou preparação para um concurso público. Fez e foi aprovado. Foi a partir de então que se transformou em Fiscal Fazendário do Estado.

Foi a partir daí que conheci meu velho Pai. Até onde sei, antes de assumir a família, um verdadeiro boêmio. Notívago, gosto pelas serestas e pelas coisas fáceis da noite. Depois que conheceu minha mãe e constituiu família, um santo homem. Mudou de vida completamente, professor que era, e precisava dar exemplos. Bons exemplos, diga-se.

Andarilho por natureza, meu pai tinha paixão por “andar”. Andar, no sentido físico da coisa, sem que isso tivesse alguma ligação com a necessidade esportiva do andar, do caminhar. Andava por que gostava. E o tempo não era problema para ele. Andava com o sol à pino ou com aquela chuva que molhava tudo. Até a alma!

Guarda chuva uma das “armas” do meu pai

Hoje, anos depois da partida e do encantamento do meu velho pai, lembrei uma imagem que tenho gravada: após caminhar por cerca de 10 ou mais quilômetros debaixo de uma chuva torrencial (com bastante dinheiro no bolso para viajar de ônibus e ficar livre daquela chuvarada), meu pai entrando em casa completamente encharcado. Molhado do pés à cabeça e, pasmem, com um guarda-chuva, com uma capa e com uma galocha. Não adiantava falar nada. Aquilo, aquele banho lhe dava prazer.

O guarda-chuva do meu pai, abandonado

Meu pai foi homem metódico. Tudo que precisava cumprir como pagamento ao início de cada mês, era devidamente anotado. Aquela anotação era “riscada” quando era paga. Aprendi muito com ele e hoje repito algumas daquelas coisas que ele fazia. Sou extremamente organizado com minhas coisas do dia a dia, em casa. Parece chato. Mas sou assim e não vejo necessidade de mudar.

E aí talvez eu não esteja conseguindo me fazer entender. O que o Zé Ramos está querendo dizer, falando algo da vida dele com o pai, numa postagem textual onde ninguém tem qualquer tipo de interesse com o Alfredo Ramos (meu pai)?

E aí eu respondo: meu pai, além de ser meu pai, biologicamente falando, me inspirou, meu fez ver o mundo com os olhos da simplicidade e da verdade e, foi a primeira pessoa que me disse que, “o Brasil é um problema sem solução”!

Um país que tem a gente que tem, que tem os políticos que tem, que tem a educação que tem, que tem o judiciário que tem, que tem o sistema educacional que tem, e que tem, ‘PRINCIPALMENTE’ as escolhas e opções políticas que tem, jamais conseguirá chegar em algum lugar.

Quem que estudou, que tem mais de 60 anos de vida, que algum dia imaginou que aceitaria ouvir dizer que a única solução para este Brasil é a intervenção militar?

Quem está satisfeito com a situação político-administrativa do Rio de Janeiro, e acha que algo diferente de uma intervenção vai resolver alguma coisa?

Quem acha que os políticos que compõem a Câmara e o Senado alguma dia vão resolver “essa merda que está aí”? Fui! Meu pai, acho, estava certo.

EM TEMPO: Se alguém que lê essas maltraçadas linhas não entendeu o que pretendi dizer (principalmente) nas entrelinhas, eu tô é fudido e desisto de tudo!

10 pensou em “A CHUVA QUE MOLHA A ALMA

  1. Belo exemplo de seu sábio pai. Quanto ao texto, penso como você noque concerne ao desmantelo político-social em que estamos metidos. E digo como vc diz: se alguém que lê meu mal traçado comentário não entendeu o que pretendi dizer (principalmente) nas entrelinhas, eu tô é fodido e desisto de tudo!

    • Xico, os pais bons ou ruins serão sempre os inspiradores para encontrar o bom ou o mau caminho. A chuva que molhava até a alma do meu pai, nunca lhe tirou o raciocínio e a boa intenção. Viera de um função “esclarecedora” (professor) para ser Tr4ocador de ônibus por alguns poucos anos. Esteve em cima e veio em baixo. Não mudou, nem a chuva conseguiu fazer isso molhando as entranhas e a alma.

  2. Escreve o magnífico ZE RAMOS: Um país que tem a gente que tem, que tem os políticos que tem, que tem a educação que tem, que tem o judiciário que tem, que tem o sistema educacional que tem, e que tem, ‘PRINCIPALMENTE’ as escolhas e opções políticas que tem, jamais conseguirá chegar em algum lugar.

    Escreve o magnífico ADÔNIS: Para mim, toda a diferença está no tipo de liderança do grupo. Quem dá o ritmo da passada de qualquer grupamento humano é a liderança! Líderes imbecis, que adoram infantilizar cada vez mais a população, levando-os todos a permanecerem sempre comendo na sua mão e sendo manipulados ao seu bel prazer, formam sempre e cada vez mais populações de imbecis! O Diabo é que este é um processo de causação circular e tautológica: Populações de imbecis escolhem sempre líderes imbecis e canalhas. Como consequência, tornam-se cada vez mais imbecis e elegem líderes mais imbecis e canalhas ainda.

    Combinaram?
    ZéRamos e Adônis combinaram suas crônicas deste domingão de feriado da Independência?
    Dois textos de arrasar quarteirão, de fazer brasileiro botar a mão na consciência e dar cada um grito próprio de INDEPENDÊNCIA para livrar o Brasil da mesmice dos mesmos canalhas que fizeram o gigante verde-amerelo curvar-se à MEDIOCRIDADE.

    O que posso falar a ambos?
    Resta pedir MAIS TEXTOS contundentes para abrir os olhos de nossos leitores/eleitores espalhados por este BRASIL.

    Estamos em ano eleitoral e cabe ao leitor falar alto e em bom som para o candidato que vier bater á porta que CHEGA de corrupção e safadeza. HORA de dizer aos políticos que forem em busca de voto no corpo a corpo da campanha, que votará nele, mas (ameaçador mas), que COBRARÁ boa gestão municipal, pois prefeitos e vereadores são funcionários,nossos funcionários, funcionários do público, daí o nome FUNCIONÁRIO PÚBLICO. Se não houver bons nomes para votar, que se vote no menos ruim, que de menos ruim em menos ruim, acabamos encontrando um bom candidato.
    E, por últmo, que não vote nosso eleitorado em partidos que sempre estão do lado errado, CONTRA O BRASIL.. não se deixe enganar, pois QUEM VOTA NAS COXAS acaba tomando na bunda…

    • Pança, todo filho feito nas coxas acaba sendo malformado. Imbecil por inteiro, vindo de um espermatozoide que se destruiu à procura do óvulo. Se tivesse sido gerado pelo ânus, não teria diferença. Seria um “cagalhão” a mais. Arre égua, arre égua e mais dois arre éguas: arre égua e arre égua.

  3. Reminiscência fantástica, Zé Ramos.

    Texto enxuto como o bom exemplo do Seu Alfredo Ramos.

    Um filho decente se orgulha do pai decente.

    • Cícero, meu pai era “letrado”. Sonhava também. Mas tinha consciência e sempre soube nos transmitir que, ninguém muda tudo sozinho. Deus também sempre soube disso. Foi por pensar assim que “ajudou” a constituir tantas famílias. A família é a base, o grupo é a base, a comunidade é a base e o povo também é a base. Querer fazer tudo sozinho, é ir contra tudo isso.

  4. Bem colocadas as metáforas, mestre Ramos.

    A família estruturada pela ética e moral é como uma célula sadia que ajuda na formação do tecido “biológico” da sociedade. Neste tecido social vamos encontrar inúmeras células “doentes” que procurarão interferir (de forma negativa) no bom funcionamento do organismo e danificá-lo.

    Sr. Alfredo deixou um inexorável legado de vida,transmitido as suas células recem formadas, que por sua vez vieram dos seus antepassados e, dessa forma,dá continuidade ao que se denomina eternidade. .

    A nossa jovem nação funciona como um perverso e desorganizado laboratório social. O exame final levará algum tempo para o resultado.

    O texto também nos leva a viajar na mainese do tempo. Remete ao filme Cantando na Chuva, onde Gene Kelly passa pela cena dançando, transbordando de alegria, o personagem comemora o plano para o trabalho e, consequentemente, é retribuído no amor.

    Não se turbe. O velho Alfredo era daqueles se comprazia com o aguaceiro que lhe escorria no corpo como um divino e sacrosanto batismo de vida.
    Pois, como bem se diz por aí: “Uns sentem a chuva, outros apenas se molham.

    • Marcos André: e nós, os filhos mais argutos, percebíamos que ele não se molhava por dentro. A roupa a gente troca toda hora, né não? O âmago apenas se fortalece.

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