ACÁCIO SABUGUEIRO - MIOLO DE POTE

Domingo passado, 10, tava quase na hora do jogo da seleção brasileira de futebol, quando, já de posse do meu “kit jogo” (bacia de torresmo, farinha e uma Bohemia) escutei alguém batendo palmas no portão. Aborrecido, levantei e fui olhar quem era o infeliz que sequer sabia que a “canarinho” jogaria dentro de instantes. E eu queria ver a volta do Neymar, com aquele cabelo cortado à moicano, pintado de ouro.

Era Ribamar Boca de Sapo, também conhecido entre os amigos, como “Sapo Costurado”. Sujeito legal, mais feio que uma batida de dois aviões em pleno voo. Mas, simpático.

Sapo Costurado era desempregado. Nunca trabalhou. Frequentava o ambiente onde todos bebericavam cervejas em torno de duas mesas – preferia beber cachaça, porque essa, sempre encontrava quem pagasse. Era, por assim dizer, o gaiato da turma. Divertia a todos contando piadas. Algumas repetidas e sem graça. Não perturbava ninguém e era uma boa alma.

Ninguém sabia onde Sapo Costurado morava. Quando bêbado, havia sempre quem se oferecesse para leva-lo em casa. Era a senha para descobrir onde ele se escondia.

– Eita “Sapinho”, quer falar comigo? Perguntei.

– Não! Quero falar com Deus! Respondeu ele, com ares de gozador.

Tentei despacha-lo, pois, o som vindo da televisão me trazia os acordes do Hino Nacional Brasileiro.

– Então….. se é com Deus, você veio no lugar errado!

– Se acalme Acácio, eu quero falar com Deus, mas é mandando uma cartinha pra Ele!

– Sapinho, e eu por acaso trabalho nos Correios?! Perguntei.

– Não Seu Acácio, é prumode você “descrever”!

– “Escrever”, Sapinho! “Escrever”!

– É. É isso! Concordou Sapo Costurado.

– E que carta é essa Sapinho?! Dei trela e perguntei.

– É pra minha netinha, que tá morando no mesmo endereço dele. Explicou Sapinho.

– Tá certo, Sapinho. E o que você quer que eu diga na carta?

– Ó Seu Acácio, é pra o senhor dizer para ela que, no Dia da Criança, ela já pode brincar com a boneca que ela tanto queria. Eu ajuntei o dinheiro que Bolsonaro deu pra nós e, ao invés de gastar com cachaça, ajuntei e comprei a boneca pra ela, um bambolê, uma tiara com florzinhas e dois bombons de chocolate. Seu Acácio, diga pra ela também, que vou guardar tudo. É tudo dela, inté quando ela vier me buscar.

3 pensou em “A CARTA

  1. PQP, terminei de ler esta texto com duas lágrimas disputando a primazia de descer dos meus olhos. Vais ser poético assim na PQP. Acácio, você e phodda. assim mesmo com ph de pharmacia e dois dd de Toddy.

  2. Lindo e emocionante texto. Parabéns, prezado Acácio Sabugueiro!

    A saudade de quem partiu aviva lembranças, de coisas passadas, que não puderam ser feitas a tempo.

    Lembrei-me da composição de Nelson Cavaquinho, “Quando eu me chamar Saudade”..

    Paz e Bem!

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