CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

Nos anos de chumbo quando havia uma guerra no Brasil e ninguém sabia, era censurada nos jornais e televisão. Quando o baiano Carlos Mariguella, guerrilheiro, comunista, marxista, leninista, organizou a luta armada contra a ditadura, fundando a Ação Libertadora Nacional (ALN), organização revolucionário com a finalidade de implantar a ditadura proletariado no Brasil. Com a proliferação de assaltos a bancos arrecadando dinheiro e assaltando quartéis roubando armas para a Revolução do Proletariado, os quartéis do Exército dobraram a vigilância, as visitas eram revistadas, dentro dos quartéis tornou-se uma neura.

Nessa época dois colegas de minha turma da Academia Militar das Agulhas Negras, eram capitães. O Rocha servia na Fábrica de Material Bélico na cidade de Piquete e o Wanderley servia no 5º Regimento de Infantaria de Lorena, cidades vizinhas, bem próximas. Vários ataques terroristas a quartéis do Exército e o caso do Capitão Lamarca, nosso contemporâneo na AMAN acabava de acontecer, o terrorismo em São Paulo era constante

Rocha depois de uma viagem de férias ao Jati no Ceará, como sempre, trouxe deliciosas rapaduras para o amigo Wanderley que adorava as iguarias nordestinas.

Era um dia de quarta-feira à tarde, não havia expediente no 5º RI. O capitão Rocha, um tanto apressado, parou o carro em frente ao quartel, chamou o soldado sentinela e entregou um pacote de rapaduras embrulhadas, envolta em papel de jornal, pediu para entregar ao Capitão Wanderley.

Nesse momento o tenente, oficial de dia, que observava de sua janela, viu quando alguém entregou um embrulho à sentinela logo depois deu partida e acelerou o carro. Imediatamente, o jovem tenente saiu da sala correndo, ordenou ao soldado sentinela colocar o embrulho no chão, no meio do pátio. Mandou tocar alarme geral; desesperado o tenente gritava: Cuidado é uma bomba!! É uma bomba!!!!!!

Os soldados que estavam no quartel, bem treinados, tomaram logo suas posições estratégicas, sob o comando de sargentos e cabos, entrincheirados, atrás de colunas e paredes. Ficaram a vigiar ao longe a “bomba”, imóvel, soberba e inatingível no centro do pátio.

O quarteirão foi interditado, o trânsito desviado para outras ruas e impedindo qualquer pessoa de se aproximar do quartel. Enquanto isso, o embrulho, no meio do pátio, solitário, fazia temor a toda população, que espreitava das varandas dos prédios da vizinhança.

Logo a mídia tomou conhecimento, estavam na expectativa todos jornais da região. As TVs de São Paulo a caminho. Jornalistas e fotógrafos se penduravam em prédios vizinhos. Era aguardado a qualquer momento um sargento sapador especialista em desarmar bombas vindo de São Paulo.

Foi nesse clima que o Capitão Wanderley, voltando calmamente de uma pescaria, sentiu o movimento estranho, dirigiu-se ao quartel.

Os soldados que faziam o controle do trânsito, contaram o caso da bomba, deixando o capitão passar. Wanderley foi se chegando, quando percebeu a bomba mais de perto, emocionado, reconheceu os abençoados inúmeros pacotes que ganhava do amigo Rocha. Wanderley procurou o tenente, contou sua versão sobre o pacote, nessa altura, o tenente não admitia outra hipótese, era uma bomba. Os soldados continuaram abrigados no maior anseio, e ficaram apavorados quando Wanderley, com água na boca, pensando na deliciosa rapadura, aproximou-se do embrulho. A expectativa e o silêncio tomavam conta da multidão, dentro e fora do quartel, que acompanhava a insensatez, o “maluco” do capitão.

Num gesto contínuo, Wanderley ficou de cócoras, apanhou o pacote e foi abrindo pelos lados, tirando o papel espesso, as palhas de bananeiras até aparecer uma bonita barra dourada de rapadura, ouro nordestino. Com os dedos, indicador e mindinho, quebrou um pedaço, levou-o a boca, deu uma bela dentada, colocou o pacote nas axilas e saiu andando devagar, calmo como ele próprio. Mastigava carinhosamente a rapadura, lambendo os beiços diante de uma enorme plateia pasmada, incrédula no que via acontecer, todos boquiabertos soltaram um uníssono e exclamativo, Oh!!!!!!!

Foi um alívio geral, a paranoia daqueles tempos era contagiante.

4 pensou em “A BOMBA”

  1. Morador de Lorena atualmente, para dar apoio ao neto que está concluindo o curso de Engenharia Bioquímica na Faculdade de Engenharia de Lorena-USP, informo a quem interessar possa que o velho quartel de Lorena, onde meu irmão recentemente falecido serviu, continua do mesmo jeitinho, branco com janelas verdes, bem conservado e atrapalhando o fluxo do trânsito do município, já que interrompe uma longa via da avenida para uso exclusivo do historicamente conhecido como 5º RI, Regimento Itororó, hoje Batalhão de Infantaria Aeromóvel (5º BIAMV).

  2. Que legal, Mauro, Eu estive em Lorena, gostei da cidade. Fui ao lançamento de um livro do meu amigo, Coronel Wanderley ( da história real que contei) . Ele escreveu sobre a Revolução Constitucionalista de 1932 e que envolveu meu pai, ele era o Tenente do Exército Mário Lima, que serviu no 5º RI na época.
    Obrigado

    • Boa noite, Carlos.
      Lorena é realmente uma cidade muito aprazível, acolhedora, terra de gente boa.
      Me adaptei bem aqui e lamento ter que retornar para S. J. dos Campos, onde se vive uma vida bastante agitada.
      Você, obviamente, deve ter um orgulho muito grande de seu falecido pai, que viveu momentos históricos de nosso Brasil.
      Na minha família, com 5 homens e uma mulher, somente eu um dos irmãos não tivemos vida militar. Três dos meus irmãos sim, um em Juiz de Fora, um em Resende, na AMAN e um em Lorena, no então 5° RI.
      Me alistei na Escola de Especialistas de Aeronáutica de Guaratinguetá e fui dispensado.
      Ainda sim, convivi um bom tempo com militares, pois trabalhei na Construtora Gama, em Cruzeiro – SP, onde residia. Hoje já não existe, pertencia ao saudoso Cel. Estácio von Söhsten Gama, alagoano, engenheiro de minas e barragens formado pelo IME, que foi para a reserva quando servia no 5° RI. Um homem muito inteligente e uma das pessoas mais maravilhosas que conheci na minha vida.
      Convivi também com o falecido Cel. Milton Molinaro, de Lorena, que gerenciou a construtora por algum tempo.
      Muito bom prosear com ocê, Carlos.
      Desejo-lhe uma semana de muita luz e paz.
      Abração.

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