JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A bodega do Toinho o “10graçado”

Antônio Carlos, conhecido como Toinho, era um bodegueiro antigo que teve como exemplo os dois homens que foram crucificados ao lado de Jesus Cristo. Aprendeu tudo, seguiu tudo e não tinha compaixão. Roubava pobres, ricos e remediados.

Não era, nem pretendia ser “político”. Bodegueiro era a mesma coisa de ser político, com a vantagem de não precisar enganar ninguém pedindo votos. Dizia abertamente que, “quem come do meu pirão, apanha do meu cinturão”. Haja vista que vendia fiado e sabia para quem vendia. Agia assim, porque fora enganado várias vezes.

Para quem implorava alguma venda fiado, mostrava uma placa feita por encomenda, que tinha orgulho de exibirr aos pretendentes das compras, que dizia: “Toinho, o 10graçado.”

A balança manipulada por Toinho

Toinho vendia fiado. Tinha uma “caderneta do fiado”, onde anotava os valores e onde também fazia sua politicagem. Anotava sempre valores a mais. Sabia pelas reações de fregueses, quando o “camarada” recebia dinheiro do salário.

E, sabia porque, quando o freguês recebia dinheiro, falava diferente e prepotentemente. Quando não tinha dinheiro e precisava comprar falava diferente. A forma de falar era outra. Humilde. Quase pedindo pelo amor de Deus.

Mas Toinho não “metia a mão nos valores anotados na caderneta do fiado” e tampouco aquela não era a única forma de levar vantagem na comercialização dos seus produtos. O segredo era os pesos. Peso de 1 Kg para vender e peso de 5 Kg para comprar o que revendia.

Toinho, ardilosamente, mantinha entre a balança e o seu corpo quando vendia ou comprava, uma fileira de pesos com uso e tonalidades diferentes.

Quando comprava alguma mercadoria, Toinho usava o peso normal de 5 Kg, sem falcatrua. Quando vendia, usava o peso de 1 Kg com uma chumbada removível, que ele retirava. Na realidade, o peso de 1 Kg para vender, pesava apenas 900 gramas. Quer dizer: Toinho comprava 5 Kg e vendia apenas 4,5 Kg.

Pesos usados por Toinho da Bodega – o 10graçado

As mercadorias de antigamente vendidas nas bodegas, não tinham “prazo de validade” e nunca se teve notícia que, alguma comida com “gorgulho” tivesse sido a causa-mortis de alguém.

Ali, na bodega – do Toinho e dos outros bodegueiros – se vendia de tudo. Creolina, gás para lamparina, sabão em barra inteira e em meia barra. Uma banda de pão, manteiga em retalho, fumo de rolo, colorau, pimenta do reio, banha de porco, anil, carvão em lata pequena e grande, banha de coco e até a famosa “píula do mato”. Era assim que se falava, em vez de “pílula do mato”.

Arroz, feijão, farinha eram vendidos à granel. Retiradas de um saco de 60 Kg, que o bodegueiro esquecia de fechar. Todas as mercadorias retiradas dos sacos com uma concha de alumínio ou com uma metade de cabaça.

Concha

Alguns itens como banha de porco e manteiga (as embalagens eram de latas grandes – e as embalagens pequenas, de 1 Kg ou 500 gramas, eram de manteigas especiais e fora do alcance de quem comprava fiado) a retalho.

Esses produtos eram vendidos acondicionados em papel de embrulho que, normalmente, ficava sobre o balão e também era usado para enrolar toucinho salgado e tripas de boi ou de porco.

Papel de embrulho

A bodega era o único estabelecimento comercial que não precisava do político. Ao contrário. O político era quem fazia uso da bodega, às vezes, até avalizando algumas compras de alimentos para os eleitores. Mas, esses, os bodegueiros, os políticos nunca enganavam – funcionavam como perfeitos cabos eleitorais.

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