Jocelaine Santos
Ei, você sabe o que está acontecendo no Brasil? Ou é daqueles que acha que fingir que está tudo bem é a melhor estratégia para que um problema desapareça? Porque, no Brasil das realidades, como diria Guzzo, parece que todo mundo prefere a máxima de que “os olhos não veem, o coração não sente”. Nossa democracia morreu, somos governados por uma juristocracia, enterramos o devido processo legal e a Constituição? Melhor fingir que não sabemos de nada.
Há algumas semanas, a Gazeta do Povo revelou algo gravíssimo – ao menos, que seria gravíssimo se reportado em alguma democracia decente. A notícia de que no Brasil ninguém sabe quantas vozes foram caladas à força pelo Judiciário, quantos perfis e contas nas redes sociais foram varridos do mapa por conta de canetadas dos ministros supremos, faria tremer os poderes e chacoalhar as instituições no mundo civilizado.
Numa democracia, seria inadmissível que uma revelação assim passasse despercebida – como um dos poderes poderia simplesmente se furtar a prestar contas sobre uma ação de tal gravidade, como impor a censura a cidadãos protegidos pelas leis nacionais e internacionais sobre liberdade de expressão e pensamento? Poderia o Judiciário de algum país democrático se negar a informar a sociedade sobre suas ações, como omitir informações sobre quantas vezes e por quais motivos – se é que houve algum – obrigou uma rede social a excluir ou remover uma conta qualquer?
“Ah, mas por aqui não somos uma democracia”, dirão. E é verdade: poderes supremos mandam e desmandam no Brasil há um bom tempo; escolhem qual é a “direção correta”, fazem qualquer coisa – qualquer coisa mesmo – para nos “recivilizar”. No próximo ano, demonstrarão total zelo em fazer com que “votemos bem”. É esta, infelizmente, a realidade – temos personagens que jamais foram eleitos governando de fato o país e que se autocolocaram como salvadores da pátria, empurrando goela abaixo dos brasileiros o que bem entenderem.
Mas o pior mesmo é o silêncio quase sepulcral da sociedade, que assiste a tudo isso, percebe os rumos do país, mas continua inerte, fingindo que não há nada de errado. Como disse o articulista Edemir Bogesky von Schörner, no artigo A ditadura por escolha: o Brasil está renunciando à liberdade – e ao futuro, “o país caminha para um modelo de controle autoritário não por imposição, guerra civil ou por uma ruptura violenta, mas por decisão institucional, silenciosa e progressiva” – e não parece haver alguém disposto a fazer nada para evitar isso.
Denunciar os arbítrios – e são muitos – é só um primeiro passo e se torna inócuo quando não gera uma onda de indignação e, especialmente, ações concretas para colocar um ponto final nos abusos que temos vivido. A alternativa é permanecer inerte – e ajudar, com nosso próprio silêncio, a calar cada vez mais vozes no Brasil.