Editorial Gazeta do Povo

Lula e Xi Jinping durante cerimônia de assinatura de acordos em Brasília, em 2024
Sendo a China praticamente o principal parceiro comercial do Brasil em termos de valores de importação e exportação, e considerando que nos últimos tempos os capitais chineses vêm fazendo relevantes investimentos em empresas e negócios no território brasileiro, torna-se necessário que governo, autoridades, políticos e empresários conheçam aspectos históricos daquele país e, principalmente, como governo e investidores chineses costumam se relacionar com o resto do mundo. Para situar os dois países em termos de seu tamanho e relevância econômica, o Brasil tem 215,3 milhões de habitantes, enquanto a China atualmente está com 1,405 bilhão, em função da redução de 7,7 milhões de habitantes entre 2021 e 2025, após ter atingido 1,413 bilhão.
O principal desafio diário da China é como garantir oferta de alimentos em quantidades suficientes para atender a uma população dessa magnitude (17% da população mundial), razão pela qual o governo chinês tem interesse e necessidade de estabelecer relações comerciais pacíficas e amistosas com países de elevado potencial como fornecedores de produtos alimentícios ao mercado chinês. Foi por isso que o Brasil se tornou um dos principais parceiros comerciais da China, cuja história tem um dos casos de maior sofrimento derivado da fome. Após o fim da guerra com o Japão e a rendição japonesa em 1945, a China padeceu anos terríveis de pobreza e fome, que ajudaram a criar tensões políticas e a implantação do comunismo em 1949, sob a liderança de Mao Tsé-tung.
Mao instaurou uma ditadura comunista truculenta e feroz, marcada por repressão e por novos episódios de fome generalizada. Estimativas confiáveis afirmam que, no período de 1958 a 1961, mais de 45 milhões de pessoas morreram de fome e 70 milhões de vidas foram exterminadas pelo regime comunista, com destaque para a execução de mais de 2 milhões de proprietários rurais. O período de Mao Tsé-tung durou até sua morte, em 1976, e foi responsável pela superpopulação do país, com a duplicação do número de habitantes, atingindo perto de 950 milhões de pessoas. Dois anos após a morte de Mao, em 1978, Deng Xiaoping assumiu a liderança da China e deu uma guinada na linha do governo, começando reformas que introduziram instrumentos capitalistas, como o direito de propriedade privada, liberdade de mercado e direito de lucro.
Nos anos seguintes, o governo chinês impôs rigoroso controle populacional, principalmente pela decretação, em 1981, da “política de filho único”, sem abandonar a ditadura comunista que, no campo político e das liberdades individuais, continuou submetendo a população aos rigores do governo comunista – foi Deng quem ordenou o Massacre da Praça da Paz Celestial, em junho de 1989. A mistura complexa que caracterizou o governo Deng aplicou, na economia, um choque de capitalismo, com estímulo à iniciativa individual, reconhecimento da meritocracia (que permitia aos mais capazes rendas e lucros mais altos), com estímulos às pessoas para a busca do enriquecimento.
Nessa mesma época, a China iniciou um tempo em que a legislação se tornou favorável ao aumento da produção e ao enriquecimento pessoal, estratégia essa que tinha como objetivo aumentar a arrecadação de tributos, sob o argumento de usar o dinheiro para programas sociais de transferência de renda e combate à pobreza. Uma curiosidade histórica interessante e útil à compreensão da realidade mundial é que, ao introduzir estruturas capitalistas dentro de um pais comunista ditatorial, a China se viu obrigada a adotar uma política econômica apropriada típica de país capitalista, como equilíbrio nas contas do governo, controle da moeda nacional e do meio circulante para impedir o aumento da inflação, vinculação dos salários à produtividade e política cambial realista para dar suporte ao comércio exterior e à sobrevivência das empresas exportadoras.
Se há algo que o Brasil pode aprender com a China é que as políticas econômicas e as medidas adotadas pelo regime chinês não são uma invenção dos capitalistas nem dos neoliberais; são instrumentos de gestão macroeconômica determinados pela realidade e pela lógica do sistema de produção, circulação, consumo, investimentos e fluxos financeiros. Ou seja, a realidade do sistema econômico e seus componentes financeiros, cambiais, tributários e monetários têm caráter técnico e aspectos científicos que determinam as medidas e as políticas econômicas, seja numa economia de mercado sob uma democracia, ou numa economia socialista sob uma ditadura política. Nas ocasiões em que o dirigismo estatal se sobrepõe ao respeito às regras básicas da economia, o resultado aparece em episódios como a bolha do setor imobiliário chinês, que resultou no surgimento de enormes cidades fantasmas.
Quando Lula declara que admira o sistema chinês, que os livros de economia estão superados, que um pouco mais de déficit público não é importante, e que uma inflação um pouco maior não é problema, ele está dizendo que admira algo e também o seu contrário, numa demonstração de que, no fundo, ele não entende do que está falando, ou está apenas sendo um grande demagogo. Foi o respeito a certas regras da economia capitalista que permitiram à China, em menos de meio século, retirar milhões de pessoas da pobreza absoluta e começar a reduzir a fome que matou tanta gente no passado, ainda que sem eliminar totalmente o problema da subnutrição.
Conhecer a história da China é importante tanto para o Brasil saber como negociar com aquele país como para se defender da tática quase invasiva de ocupação de espaços dentro do Brasil, com destaque para a implantação de empresas chinesas por aqui e a compra de terras brasileiras para a produção de alimentos. Em outros países, a China tem trabalhado para criar dependência e comprar lealdade por meio de investimentos massivos em infraestrutura, dentro do projeto chamado de “Nova Rota da Seda”.
Que as autoridades e a sociedade não se enganem: a China não tem amigos; ela tem parceiros e aliados submetidos aos interesses chineses. Por tudo isso, não há nada mais perigoso para o futuro do Brasil do que provocar os Estados Unidos e ameaçar rompimento com os norte-americanos sob ameaça de que o Brasil se aproximará da China, pois os EUA são uma democracia política e uma economia capitalista de livre mercado, que se submete a eleições livres periodicamente, enquanto a China é uma ditadura truculenta, sem liberdade de opinião e expressão, e longe de qualquer marca democrática.