MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

Há uma fantasia confortável — quase infantil — de que os grandes horrores da história foram obra de monstros raros, figuras aberrantes que surgem de tempos em tempos como acidentes morais da humanidade. Essa narrativa é sedutora porque absolve. Ela permite ao homem comum dizer, com alívio: “isso não tem nada a ver comigo.” Mas a verdade, quando encarada sem anestesia, é mais brutal. Os maiores crimes da história não foram sustentados por monstros. Foram sustentados por pessoas comuns.

Pessoas que trabalhavam, que tinham família, que riam, que planejavam o futuro — e que, diante da deformação moral ao seu redor, escolheram não interromper o fluxo. Não resistir. Não questionar. Não pensar além do necessário para preservar a própria estabilidade. A tirania não se ergue apenas com força. Ela se ergue com adesão passiva em massa. E essa adesão não exige entusiasmo. Não exige ódio. Não exige sequer concordância plena. Exige apenas algo muito mais fácil — e, por isso, muito mais perigoso: a suspensão da responsabilidade individual.

Quando o indivíduo abdica do próprio julgamento, ele não se torna neutro. Ele se torna funcional. Funcional para sistemas que dependem de engrenagens humanas que não façam perguntas, que não sintam demais, que não interrompam o processo. E quanto mais sofisticado o sistema, menos ele precisa de convicção ideológica — basta eficiência. O horror moderno não é caótico. Ele é administrativo. Ele preenche formulários, organiza fluxos, calcula números, otimiza processos. Ele se esconde atrás de linguagem técnica, de eufemismos cuidadosamente escolhidos, de estruturas que fragmentam a responsabilidade até que ninguém se sinta realmente responsável por nada. E nesse ambiente, o indivíduo encontra o refúgio perfeito: “Eu apenas fiz o que me pediram. ” “Eu não tinha escolha. ” “Não era minha função questionar. ”

Essas frases não são defesas. São confissões. Confissões de que a consciência foi terceirizada. De que a moral foi delegada. De que a dignidade foi trocada por pertencimento, segurança ou simples conveniência. E é aqui que a análise se torna insuportável. Porque não estamos falando de aberrações psicológicas raras. Estamos falando de mecanismos profundamente humanos. A necessidade de pertencimento.

O medo da exclusão. A aversão ao conflito. O desejo de estabilidade. Esses elementos, quando combinados com pressão social e narrativa dominante, produzem algo devastador: conformidade moral. E a conformidade é silenciosa.

Ela não se anuncia. Não se reconhece como tal. Pelo contrário — ela se disfarça de prudência, de bom senso, de adaptação necessária às circunstâncias. Ela convence o indivíduo de que resistir é inútil, perigoso ou até mesmo irresponsável. E assim, pouco a pouco, o limite se desloca. O que antes era impensável torna-se discutível. O que era discutível torna-se aceitável. O que era aceitável torna-se norma. E quando a norma se estabelece, a consciência já foi suficientemente anestesiada para não reagir. Não é necessário que todos concordem. Basta que poucos executem — e que muitos não impeçam. A história demonstra, repetidamente, que o mal organizado não precisa de maioria ideológica. Ele precisa de uma minoria disciplinada e de uma maioria acomodada. E essa maioria não se percebe como cúmplice. Ela se percebe como espectadora. Mas a passividade, diante da injustiça, não é observação. É participação por omissão. E talvez este seja o ponto mais difícil de aceitar: O problema central não é apenas a existência de sistemas opressivos.

É a facilidade com que seres humanos se adaptam a eles. Adaptam-se à linguagem distorcida. Adaptam-se à injustiça gradual. Adaptam-se à desumanização do outro. Até que aquilo que deveria provocar ruptura passa a provocar indiferença. E quando a indiferença se instala, o terreno está completamente preparado. Porque o último estágio da degradação moral não é o ódio. É a apatia. O ódio ainda reconhece o outro como presença. A apatia o dissolve. E um mundo onde o outro é irrelevante é um mundo onde qualquer coisa se torna possível. Inclusive o pior. Por isso, a questão fundamental não é histórica. Não pertence ao passado. Não está confinada a regimes específicos, nomes ou ideologias. Ela é permanente. Ela é íntima. Ela é inevitável.

E ela se apresenta, silenciosamente, em cada geração, em cada sociedade, em cada indivíduo: Até que ponto você manterá sua consciência quando ela se tornar inconveniente? Porque no fim, quando os sistemas caem, quando os discursos se dissipam, quando as estruturas de poder deixam de existir, resta apenas uma avaliação — não coletiva, não abstrata, mas profundamente pessoal: Você pensou por si mesmo? Você reconheceu o erro? Você se manteve em silêncio? E essa última pergunta não admite resposta confortável. Porque, na maioria das vezes, a tirania não pergunta quem você é. Ela apenas observa: se você resiste — ou se você se adapta.

7 pensou em “A ANATOMIA DA COVARDIA: COMO HOMENS COMUNS SUSTENTAM MÁQUINAS DE HORROR

  1. E o que dizer dos povos que endeusam o mal? O povo da Coréia do Norte, por exemplo? Eles (e outros povos igualmente oprimidos) já passaram por todas as fases descritas no excelente texto e foram muito além! Conseguiram ultrapassar a conveniência, a prudência, a aceitação, a acomodação, a adaptação, a indiferença e até mesmo o última fase que é a apatia! Agora endeusam e morreriam para defender o sistema e os líderes que os oprimem e os fazem sofrer.

  2. Caro Maurino

    Ótimo texto; ótima análise e explicação para aquilo que hoje vivenciamos. Sempre que alguém se perguntar “como chegamos a isso”, eis a resposta em vosso texto.

    Cheguei a tratar disso, com bem menos talento, em uma de minha colunas, a partir de uma pergunta feita no primeiro parágrafo do livro “Conversa na Catedral”, de Vargas Llosa, e concordo plenamente com o senhor.

    Me lembrei, é claro, da análise de Hannah Arendt e sua “Banalidade do Mal”. infelizmente, meu caro, estamos caminhando a passos largos para alguma tragédia monstruosa, e espero não estar mais vivo quando acontecer…

    Abç

  3. Um comportamento social tido por indesejável numa sociedade não se estabelece apenas por omissão. São o resultado visível das nossas pequenas ações no cotidiano, aquelas contra o senso comum do que é certo, o esperado, o moralmente aceito, o desejado, o legal…
    Um cruzamento de sinal fechado, uma furada de fila, um troco errado não devolvido, um abuso presenciado e não denunciado, uma saída do trabalho fora do horário enfim, são todas aqueles pequenos atos que cometemos diariamente que, somados, nos levam à omissão, ao silêncio e findam na concordância de que, no fim, certos crimes são aceitáveis ou certos criminosos estão certos.
    Temos na presidência uma pessoa que foi condenada por corrupção e lavagem de dinheiro!
    Ah, mas foi anulado o processo!
    Alguém tem noção do que é ter na presidência uma pessoa condenada por corrupção e lavagem de dinheiro? Sue essa pessoa teve os votos da maioria dos votantes?
    Que provavelmente os maiores escândalos de corrupção do mundo ocorreram nos governos do partido dessa pessoa?
    Essa sociedade já perdeu o rumo faz tempo!
    Não importa quanto tempo demore, essa mudança não começa nas escolas, no trabalho, em cada, nos políticos, nos empresários.
    Começa em cada um de nós revendo os conceitos, as ações e os valores que ajudamos a erodir a cada pequeno gesto que colide com os reais valores morais da sociedade.
    Parabéns e obrigado, Maurino!

  4. Cronista,
    “Isso não tem nada a ver comigo.”,gritariam em uníssono, se vivos estivessem, os boníssimos e inesquecíveis Stalin, Hitler, Mao Tsé-Tung, Pol Pot, Saddam Hussein, Gaddafi, Osama Bin e Idi Amin Dadá.

    A crônica, bem construída, como de costume,, acabou ficando parecida com tosquia de porco, como diria meu avô: “muito grito e bem pouca lã”. Já temos cá malucos que cheguem, não precisamos de mais…

    Mas, para o bem ou para o mal, sempre defendi a tese de que somos um gigantesco hotel cheio de quartos e em cada um destes encerramos os monstros que nos habitam (sim, somos capazes de tudo). O jeito como trancamos (ou não) as portas que encerram tais anomalias é que define quem somos.
    “Um beijo, um queijo e uma pata de caranguejo” , de sua fãnzoca
    Matilde

    • Ah, a memória a falhar e quase já ia esquecendo: António Lobo Antunes foi-se HOJE, aos 83. As lágrimas desta fã da obra do portuga rolam pelas rugas de minha octogenária face. Obras geniais do lisboeta:
      Memória de Elefante, (1979)
      Os Cus de Judas, (1979)
      Conhecimento do Inferno, (1980)
      Explicação dos Pássaros, (1981)
      Fado Alexandrino, (1983)
      Auto dos Danados, (1985)
      As Naus, (1988)
      Tratado das Paixões da Alma, (1990)
      A Ordem Natural das Coisas, (1992)
      A Morte de Carlos Gardel, (1994)
      A História do Hidroavião (com ilustrações de Vitorino), (1994)
      Manual dos Inquisidores, (1996)
      O Esplendor de Portugal, (1997)
      Livro de Crónicas, (1998)
      Exortação aos Crocodilos, (1999)
      Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, (2000)
      Que farei quando tudo arde?, (2001)
      Segundo Livro de Crónicas, (2002)
      Letrinhas das Cantigas (edição limitada), (2002)
      Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, (2003)
      Eu Hei-de Amar Uma Pedra, (2004)
      D’este viver aqui neste papel descripto: cartas da guerra (“Cartas da Guerra”), (2005)
      Terceiro Livro de Crónicas, (2006)
      Ontem Não Te Vi Em Babilónia, (2006)
      O Meu Nome é Legião, (2007)
      O Arquipélago da Insónia, (2008)
      Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?, (2009)
      Sôbolos Rios Que Vão, (2010)
      Quarto Livro de Crónicas, (2011)
      Comissão das Lágrimas, (2011)
      Não É Meia Noite Quem Quer, (2012)
      Quinto Livro de Crónicas, (2013)
      Caminho Como Uma Casa Em Chamas, (2014)
      Da Natureza dos Deuses, (2015)
      Para Aquela que Está Sentada no Escuro à Minha Espera, (2016)
      Até Que as Pedras Se Tornem Mais Leves Que a Água, (2017)
      A Última Porta Antes da Noite, (2018)
      A Outra Margem do Mar, (2019)
      Diccionario da Linguagem das Flores, (2020)
      O Tamanho do Mundo (2022)
      As Outras Crónicas (2024)

  5. Gostei muito, Maurino.
    Duas citações da Hannah Arendt:
    “Aqueles que escolhem o ´mal menor´ esquecem rapidamente que escolheram o mal.”
    “A maior parte do mal é feita por pessoas que nunca decidiram ser boas ou más.”

  6. Bom dia a todos vocês!!
    Primeiramente, quero pedir desculpas por não ter dado uma resposta aos comentários que vocês fizeram, mas, eu tenho uma justificativa. Na semana passada, por um motivo que não conseguimos explicar, ficamos sem acesso à internet aqui na empresa. Um louco bateu com o carro em um dos terminais da empresa que é nosso provedor e aí foi aquele problema; o outro: Paulo Afonso é a capital da energia, que… falta energia!!! Com as últimas chuvas (tempestades, mesmo) uma subestação explodiu e a cidade mergulhou no caos completo. Imaginem que os equipamentos são obsoletos e por falta de manutenção, esse tipo de problema tem acontecido constantemente. Esses são os motivos pelos quais eu não pude responder a vocês. Obrigado pelos comentários e obrigado pela atenção. Saudações cordiais.

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