“VAI FICANDO POR AÍ, VELHO. DE REPENTE O NEGÓCIO SOBE”

Praça das Palmeiras em Carpina, perto do antigo cabaré de Maria Bago Mole

Maria das Dores era uma das mulheres da vida difíceis mais próximas de Maria Bago Mole, a famosa cafetina do Cabaré de mesmo nome no Século XIX, que ficava na Zona Norte do baixo meretrício de Carpina, localizado na bifurcação de Cruz das Almas Penadas, local onde se matou muita gente e onde se encontravam todos os dias os caminhoneiros e cortadores de cana dos engenhos das redondezas.

Famosa por saber estimular os fregueses nos momentos de languidez “piquiana”, que as “meninas” chamavam de “pau sem esperança”, com pouco tempo Maria Bago Mole elevou Maria das Dores a condição de administradora de viúvo solitário e endinheirado, que havia se esquecido completamente da feitura de um “cara preta”, “boca de macaco”, “boca de Gilmar”, como era chamada a “carne mijada” na época pelos freqüentadores do cabaré.

Sua tática consistia em relaxar o velho, fazer com que ele se esquecesse da viúva, dos problemas do engenho, para isso entrava com ele no quarto, tirava-lhe a roupa na penumbra do candeeiro, começava-lhe a alisar o peito, pegar nos cachos murchos e estimular a mimosa que estava mais adormecida do que bêbado no final de noitada cachacista.

Certo dia Maria Bago Mole deu a missão à Maria das Dores para encorajar um velho viúvo que, depois de perder a esposa no coice de jumento na boca do estômago, perdeu completamente a vontade de viver. Como não lhe conseguiu estimular a mimosa pelo método convencional, partiu para o radical, que consistia nas suas táticas de vinte anos de profissão.

Mandou o velho ficar de papo para baixo, nu, com o frinfa para cima e começou a passar óleo de peroba pelas beiradas, rezando agarrada com a “bicha” do moribundo: “Deus, fazei com que esse santo crie azas e voe para entrar no buraco.” Deus, fazei com que esse santo crie azas e voe para entrar no buraco.” Depois de repetidas vezes sem sucesso, Maria das Dores, com os braços dormentes, com cãimbra, de tanto movimento sem resultado, exclamou:

– “Valha-me Deus! Vai ficando por aí, meu velho, que de repente o negócio sobe e a gente soca dentro, porque de minha parte já perdi a esperança.”

E saiu de mancinho do quarto deixando o velho roncando, nu, com a bunda para cima banhada de óleo de peroba, certamente pensando na mulher que havia perdido com o coice do jumento.

“A velhice tem dessas coisas: A melhor coisa da vida o tempo mata” – pensou Maria das Dores e se foi-se a contar a “tragédia” a Maria Bago Mole, que ficou sirrindo-se de se mijar pensando no seu gambrião, Bitônio Coelho, que há dois sábados não aparece para lhe apagar o fogo na bacurinha nos aposentos do cabaré.

11 pensou em ““VAI FICANDO POR AÍ, VELHO. DE REPENTE O NEGÓCIO SOBE”

    • Jesus de Ritinha de Miúdo:

      É sempre maravilhoso ver um poeta-ótimo, cronista-excelente, homem+família decente do seu quilate, apreciar e considerar maravilhosa crônica escrita com a pretensão de tornar pública histórias do passado passada em ambiente lupanar!

      Obrigado, grande porta pela leitura e comentário.

  1. Muito bom. Maria Bago Mole se especializou em endurecer o bago mole dos velhos viúvos, contando com o auxilio luxuoso de Maria das Dores que, às vezes, não era competente o suficiente para cumprir suia missão. Alguns santos não criavam asas, por mais atraente que fosse o buraco.

    • Grande Xico:

      As histórias de Maria Bago Mole, que deu nome ao cabaré no século XIX em Carpina, são tão ricas de hilaridades, que possuem elementos suficientes para se escrever um novo Romance da Besta Fubana, do editor Luiz Berto, ou O Romance d’A Pedra do Reino, do genial Ariano Suassuna.

      O prazer de quem escreve é o de sempre ser reconhecido, principalmente no meu caso por um gênio reconhecido feito o nobre poeta.

      Obrigado, Grande Poeta, pelo comentário lisonjeiro.

  2. Cícero….. Cícero , nós também estamos ficando velhos!. E muitos de nós já estão usando a língua……………. para contar vantagem !. Aí é quente mas aqui é frio , a coisa encolhe ,mas não endurece.

    • Excelência Joaquimfrancisco:

      Desculpe-me a demora para agradecer a leitura da crônica e o comentário lisonjeiro. Sinto-me honrado por tamanha consideração, como diz o personagem da Família Dinossauro.

      Se houvesse sido documentada, Joaquimfrancisco, a história do Cabaré de Maria Bago Mole, em Carpina no século XIX, dava para escrever um romance à lá ROMANCE DA BESTA FUBANA, do nobilíssimo editor Luiz Berto, ou ao Romance d’A Pedra do Reino, do genial Ariano Suassuna.

      A Pedra do Reino, lugar místico, surreal! Só vendo para crer!

      Por falar em frio e endurecer, tem um cabra que escreve para esse espaço numa tal de ARCO, TARCO E VERVA, que diz com toda farrumbamba que dá três sem tirar de dentro. Sabendo da sua idolatria a um sujeito que montou uma seita chamada PT para fuder todo brasileiro honesto, trabalhador, não duvido nada que essa tesão dele está pelo avesso! kkkkk!

  3. Incrível a capacidade descritiva do colunista. Seu texto acima é de desbundar
    os menos precavidos que não esperavam, como eu, tamanha descrição , de cenas com tanta graça e talento , sabendo como poucos usar a arte do entretimento .em seus textos sempre criativos e com certeza verdadeiros. Já por diversas vezes tenho lido nesta gazeta, as aventuras da famosa Maria Bago Mole e suas amigas daderas que
    está se tornando uma personagem, importante nesta gazeta putífera e cada vez mais escrota
    Me lembro que numa das entrevista do Berto, perguntaram a ele o que significava a palavra FUBANA e ele disse que era um sinônimo de PUTA. Ou será que eu entendi mal ?

    • Caríssimo comentarista d.matt:

      Primeiramente, agradeço de coração as palavras lisonjeiras a mim atribuída pela crônica escrita acima.

      Fico felicíssimo com seus comentários, que vem do coração e são verdadeiros.

      Já cataloguei na cachola histórias hilárias de Maria Bago Mole, uma das puta (talvez a mais) inteligente que criou o cabaré na época, século XIX, que pretendo contar aqui em próximas crônicas.

      Obrigado, grande comentarista, e aguarde novas aventuras de uma puta que perdeu o cabaço com um senhor de engenho, montou um cabaré que era referência para época e nunca deu o priquito a outro homem! Será, kkkkkkkkkkk!

  4. Caro Cícero Tavares, fantástico. Com as proezas de Maria Bago Mole e de Maria das Domes se mirrie àbeça. Vc tem uma mente fértil para criar estórias simples, mas gostosas.

  5. Meu caríssimo colunista econômico Carlos Ivan:

    É com honra e orgulho que lhe agradeço o comentário feito a minha crônica simples sobre Maria Bago Mole, a cafetina mais inteligente e criativa de Carpina do Século XIX, que, à lá Carmen Miranda, sabia fazer com que todos os homens do pedaço, no caso os senhores de engenhos ricos, ficassem doidos por ela.

    Vem mais histórias por aí dela, e picantes! Aguarde-me.

Deixe uma resposta