A MÃO ENVELHECIDA E MACHUCADA

Mãos envelhecidas postas em oração

Não sei que horas eram, mas sei que era noite. Um estado febril desconhecido me nocauteou, após uma tarde inteira de brincadeiras no quintal da casa.

Como que saindo de uma penumbra, tive lucidez para perceber por detrás daquela fumaça que saía da xícara de chá, uma mão envelhecida que dirigia a xícara para a minha boca, enquanto a outra forçava meus ombros para facilitar a ingestão do milagroso chá de erva cidreira e uma pílula.

Chá bebido, aquelas mesmas mãos envelhecidas me acomodaram sobre o travesseiro macio e cheiroso, ao mesmo tempo que puxava o lençol para me cobrir por inteiro, e me dar mais conforto.

A porta da camarinha ficou entreaberta, o que me permitia, antes de fechar os olhos, ver a movimentação na cozinha.

Aquelas mesmas mãos envelhecidas cuidavam de pôr em ordem as tralhas usadas no dia a dia da cozinha. Em seguida, as mãos envelhecidas limpavam uma mesa, e sobre ela, estendiam uma toalha, depois mais outra e finalmente um lençol branco. Em seguida, aquelas mesmas mãos punham carvão num ferro de engomar, aproveitando para abanar com o abanador de palha, e garantir o ponto de passar do ferro.

Devo ter adormecido e não vi o que aconteceu depois. Mas, como o estado febril não me deixava dormir, acordei no meio da noite, e vi, ao lado do meu catre, uma cadeira de balanço com alguém sentado. Não vi quem era. Mas vi que, as mesmas mãos envelhecidas dos atos anteriores coziam em remendos umas roupas velhas de trabalho do meu pai.

O dia seguinte já estava claro, quando acordei e vi aquela mesma mão envelhecida, sobre a minha face, e em seguida na garganta, verificando se a febre continuava. Pude perceber que a mão cheirava a pó de café, e, além de envelhecida, tinha também muitas estrias de bondade.

Mãos envelhecidas que falavam sem soltar um único som. Que diziam tudo, ao mesmo tempo que não diziam nada – apena faziam. E, vi que, em muitas ocasiões, postas, serviam também para orar, conversando com Deus, como fazem todas essas mãos envelhecidas, calejadas e nobres.

Eram as envelhecidas mãos da minha mãe.

10 pensou em “A MÃO ENVELHECIDA E MACHUCADA

  1. Caro José Ramos. Você é um escritor nato. Está esperando o que para escrever um livro ?
    Belíssima crônica que eu gostaria muito de ter escrito. Mas nem todos têm o dom de comunicar com facilidade e palavras sinceras o que lhe vai pela alma.
    Congratulações. Um abraço.

    • d. matt: fico agradecido, amigo. Escrever, já escrevi dois e não estou conseguindo reunir grana para pagar a publicação. Os governantes brasileiros não oportunizam isso. Quando o fazem, é quase sempre através de “concursos literários” – e quem não ganha, ainda que não se sinta derrotado, acaba desmotivado. Acho que, nesses casos, o simples fato da “inscrição” já deveria garantir a impressão e a publicação. Premiar, seria outro item à parte.

    • Severino: sinceramente, não consegui ver o autor da foto (se não tivesse achado boa, não teria escolhido) maravilhosa. Peguei no Google e não li recomendação para citar o autoria.

  2. Texto lindíssimo, querido amigo, escritor José Ramos! Confesso que me emocionei com essas mãos envelhecidas, lembrando das mãos abençoadas. iguais a essas, que também controlavam a minha febre.
    Um grande abraço! Adoro os seus escritos!!!
    Violante Pimentel Natal (RN)

  3. muito brilhante sua narrativa. Esta mão abençoadas também passaram pela minha infância e adolescência. Quanta falta , ainda, elas me fazem.
    Salvador Pedroza
    Sobra-Ce.

  4. Corrigindo: Muito brilhante sua narrativa. Estas mãos abençoadas também passaram pela minha infância e adolescência. Quanta falta, ainda, elas me fazem.
    Abraços Amigo.

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