Um dos mais famosos boêmios potiguares, Zé Areia, (1900-1972) viveu na época da Segunda Guerra Mundial, e marcou época, não apenas pela vida de boêmio, como pelo arsenal de respostas malcriadas, que trazia na ponta da língua, pronto para se defender dos desafetos ou simples cidadãos anônimos, que, por acaso o incomodassem.
Havia quem mexesse com ele, somente para ouvir a resposta agressiva.
Foi o caso de um professor que o encontrou na porta do Café São Luiz, na Cidade Alta, e foi dizendo:
– Hoje eu estou doido para ver um corno!
Zé Areia o convidou:
– Entre aqui no café. Vou lhe mostrar o maior corno do mundo!
E em frente ao espelho, disse:
– Veja ali! É aquele que está junto de mim!!!
Era o próprio professor.
Zé Areia nunca se preocupou muito com o seu conforto pessoal, vivendo modestamente. Sempre preferiu a vida de boêmio, sem se preocupar em acumular dinheiro.
Sua inteligência privilegiada, suas respostas na ponta da língua e sua simpatia, conquistavam a todos, e lhe facilitavam a venda de loterias ou rifas, desfilando com lindos carneiros, objetos dos sorteios.
Amigo de juventude de João Café Filho, qual não foi a sua alegria ao ver o amigo chegar à Presidência da República. Viajou para o Rio, na esperança de conseguir um bom emprego, conforme lhe havia sido prometido.
Ao chegar ao Palácio, foi atendido por um secretário, que não permitiu sua entrada, e ainda lhe transmitiu o recado de que o emprego disponível no momento era o de seringueiro na Amazônia.
Indignado, Zé Areia teria disparado, no ato:
– Meu amigo, você diga pra Café Filho que quem veio aqui foi o amigo dele Zé Areia, atrás do emprego que ele me prometeu, quando subisse na vida. Diga também, que ele se lembre de que, no Rio Grande do Norte, quem tira leite de pau é “bu…….!” Um emprego desse, eu não quero!!!
Certa tarde, melancólico, num botequim, Zé Areia contava sua desdita. Fora casado, tivera lar, esposa e filhos, mas a mulher não aguentara sua vida boêmia e as incertezas dos dias sem ter o que comer com os filhos. Certa madrugada, ao voltar para casa, não encontrou nem mulher, nem filhos, nem móveis. E Zé Areia confessou que ficou louco de aperreio, não por ela, mas pela saudade dos filhos.
Terminou localizando a nova moradia da ex-mulher. Agora, tida e mantida pelo Coronel Teodósio, conhecido chefe político, poderoso e rico.
Cheio de alegria, Zé Areia foi à procura dos filhos. Estava brincando com eles, quando salta dum cavalo o tal coronel Teodósio, rebenque na mão e falando grosso:
– Boa tarde, seu Areia!
Assustado, conta Zé Areia que só fez desengalhar o chapeu da galhada de chifres e respondeu, educadamente:
– Boa tarde, coronel Teodósio, Deus guarde Vossa Senhoria e suas excelentíssimas famílias!

Memória deliciosa e suave de se ser minha nobre Violante. Brabento com todo mundo, deseducado de boca, Zé Areia faz lembrar o típico caboclo brasileiro que, pode até ser passado para trás, mas não deixa ninguém mangar de suas desdita.
Um forte abraço, deste seu admirador dos seus causos e sucedidos na terra brasilis.
Obrigada pela gentileza do comentário, querido colunista Roque Nunes!
Um forte abraço para você, desta sua fã incondicional!