MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

Era 1986.

O mundo parecia grande demais para um garoto de quinze anos, e ainda assim, pequeno diante do céu que se derramava, imenso, sobre a antiga Escola Agro-Técnica Federal de Belo Jardim, no agreste pernambucano. O vento cortava a madrugada com aquele frio seco e mineral que só o interior conhece. A escola dormia, mas ele — não. Porque naquela noite o Universo tinha prometido um encontro.

Maurino acordou antes das três.

O silêncio era tão profundo que parecia escutar a própria pulsação da Terra. Pegou o binóculo simples — era quase infantil diante da vastidão que o aguardava — e saiu devagar, sentindo o cheiro do mato úmido, a respiração da noite e aquela pontada de arrebatamento que só quem tem alma cósmica pode compreender. O céu estava limpo.

De um azul tão escuro que tocava o preto absoluto.

A Via-Láctea atravessava o firmamento como uma estrada de poeira divina, e ali, entre estrelas frias e quentes, entre gigantes azuis e anãs veladas, entre espectros e abismos, ele buscava um viajante antigo, um mensageiro da eternidade: o cometa Halley.

A cada vez que aproximava o binóculo do rosto, era como se abrisse uma porta.
E quando finalmente o viu — tênue, difuso, quase tímido, mas ali — sentiu que algo dentro de si se deslocava. Não era alegria infantil. Não era surpresa de estudante. Era revelação. Era elã. Era o sentimento secreto de quem descobre, de repente, que a própria alma não nasceu para se limitar a um único mundo. Ali, naquele ponto perdido do agreste, um adolescente solitário conversava com um cometa. E o cometa respondeu. Os dias naquela escola não eram fáceis.

A distância da família, a saudade dos pais, o peso silencioso das responsabilidades precoces — tudo se acumulava como poeira no peito. Era um tempo em que crescer doía, e em que sentir demais parecia um tipo de crime silencioso. Havia quem o achasse estranho. E era mesmo — graças a Deus. Enquanto uns se protegiam na normalidade, ele se refugiava no infinito.

Ali, entre provas, dificuldades e medos nunca revelados, duas figuras surgiram como faróis no meio da neblina: Germano, o mestre da Química, sério, meticuloso, íntegro; e Dagmar, o mago da Física, que via nas equações um modo de decifrar a respiração do universo. Eles olharam para aquele garoto magro, introspectivo, apaixonado pelo céu, e viram potencial.

Instigaram. Incentivaram. Abriram portas. Sopram-lhe coragem para ir além do que a vida imediata oferecia. Sugeriram a Física Nuclear — não como obrigação, mas como destino. E ele acreditou. Porque havia, dentro dele, um núcleo ardente, uma vontade de compreender o indizível, de enfrentar o desconhecido, de tocar — nem que fosse com a ponta dos dedos — a textura do Universo. Mas crescer tem seus preços. E a vida, com a sabedoria dura que o tempo impõe, começou a exigir escolhas.

Houve recuos. Houve silêncio. Houve noites de medo. Houve dias de cansaço.

Recuar, porém, nunca foi desistir. Fraquejar? Sim: todos os seres humanos o fazem.

Desistir? Nunca. Isso não estava escrito na alma dele.

Os anos passaram.

Décadas inteiras, como labaredas sopradas pelo vento.

E aquele garoto de 1986 se tornou homem — forte, profundo, intuitivo, sensível e viril. Um homem que olhou o céu por dentro e por fora. Um homem que, mesmo carregando o peso das responsabilidades, preservou dentro de si uma chama antiga: a do menino que conversou com o Halley. Hoje, ao se aproximar dos cinquenta e cinco anos, ele olha para trás não com saudade, mas com reconhecimento.

Porque não perdeu nada.

Porque não desperdiçou nada.

Porque cada dificuldade o moldou.

Cada recuo foi estratégia.

Cada dor o fortaleceu.

Cada madrugada o ensinou que o Universo sempre responde quem ousa chamá-lo pelo nome.

O garoto permanece vivo.

O homem permanece digno.

E a história — a sua história — ainda está longe do fim. Porque alguns homens nascem para caminhar na Terra. Mas outros, poucos, raros… nascem para caminhar entre as estrelas.

2 pensou em “O MENINO QUE ACORDAVA AS ESTRELAS

  1. Parabéns pelo belo texto. Que as estrelas permaneçam brilhantes, Iluminando os caminhos do menino de Belo Jardim, vivo e digno, digno e vivo. E, ao encontrar o Halley, atual, diga-lhe da esperança de dias melhores futuros.

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