JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O juazeiro e sua sombra magnífica

Por ali, e pode-se afirmar com segurança, ninguém tinha conhecimento de quem plantara aquele juazeiro. Havia quem apostasse que, muitos anos atrás, antes mesmo de Queimadas ser considerado um povoado, algum animal silvestre poderia ter trazido a semente que, brotando produziu a árvore de frutos comestíveis e úteis na medicina informal.

O que se sabe – e algumas pessoas mais idosas viveram para contar e garantir a veracidade – é que, aquela sombra maravilhosa foi o primeiro e único “mercado onde se reuniam e reúnem” pessoas que ali vão para vender e comprar seus mantimentos alimentícios.

Um toco de cajueiro serviu de apoio para muitos cortarem suas porções de carnes de bodes e bois ou vacas; servia, também, para o corte de camurupins e até para escamar curumatás e traíras. Nunca alguém teve a coragem de limpar aquele toco – moscas, formigas e até ratos faziam banquetes dos minúsculos pedaços de alguma carne.

As feiras, ou encontros, aconteciam sempre aos domingos, ao clarear do sol. Criadores traziam suas criações (porcos e bodes) para abater ali mesmo. Muitas vezes, antes mesmo da missa dominical na Igreja São José, donas de casa já se postavam por ali esperando o abate dos animais – compravam do porco a cabeça e o fato e pechinchavam nos miúdos para completar o “sarrabui”.

A balança sempre foi um improviso. Os homens mereciam (ainda) confiança e até compravam para pagar depois. As carnes eram levadas em “fieiras” de folhas de carnaúba, colocada na parte traseira dos cambitos.

O comerciante que ficasse por último (era um acerto entre pessoas adultas e de respeito) fazia a varredura e a limpeza de tudo, espantando gatos e cachorros em preparação para os eventos vespertino e noturno.

Nas tardes e noites de sábados, cantorias e pelejas entre cordelistas. No mês de maio, tudo mudava. Era o mês de Maria e o mês das novenas organizadas pelas mulheres. Cada família levava seus assentos e os mais abastados se encarregavam de levar o candeeiro, as lamparinas e até as velas que acendiam até o fim. Tempos de muita Fé – muitos acreditavam que São José “mandaria” chuvas para garantir as safras de milho, feijão e principalmente mandioca.

As tardes e entrada pela boquinha da noite, sediavam as danças. Forró pé-de-serra, onde rapazes e cabrochas batiam virilhas naquele esfrega-esfrega no som produzido pelas sanfonas.

Certa vez, houve até um movimento para que o Padre Adail passasse a celebrar uma missa, pelo menos uma vez no mês, naquela frondosa sombra do juazeiro. Padre Adail pediu permissão para a Arquidiocese e, pelo que se sabe, até os dias de hoje a permissão não foi autorizada. Mas, novenas, podiam. Aqueles encontros para o novenário não passava de uma fervorosa demonstração de Fé cristã.

Mas, quando se quer, tudo se alcança.

Pelo menos uma vez no Mês de agosto ou setembro, de quatro em quatro anos, aquela frondosa sombra do juazeiro das Queimadas servia de ponto de encontro para as promessas politiqueiras dos candidatos a prefeitos.

Coisas do Brasil que estamos construindo desde 22 de abril de 1.500.

4 pensou em “O JUAZEIRO DAS QUEIMADAS

  1. Jose Ramos, como hoje não conseguimos mais diferenciar o que é real e o que foi criado por IA eu gostaria de saber se esse Juazeiro da foto é de verdade. Uma belíssima árvore.

    • Schiley, eu conheci, visitei e usufruí dessa sombra, muitos anos atrás. O que existe hoje (segundo relatos de alguns) é a limpeza que transforma a sombra numa obra de arte. Claro que essa árvore sofre, também, as agruras das várias e várias secas no Ceará. Detalhe: nunca parou de frutificar! A necessidade de ser o “primeiro mercado” do povoado, claro que já não existe, pois houve um crescimento urbano e esse povoado foi “agregado” ao município de Horizonte.

        • Schirley, hoje não garanto que ainda esteja assim. Há quem acredite que essa árvore era excepcional e até uma intervenção divina. Até onde se sabe, juazeiro não é árvore de caatinga, e, nessas regiões, as árvores não são frondosas e encorpadas assim. Repito: aí, durante muitos anos, funcionou como um “Senadinho”, lugar onde quase toda a vida da comunidade era decidida. Até casamentos aconteciam ali – provavelmente pela distância da Igreja formal e pela facilidade do freje comemorativo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *