VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

Guilherme, alfaiate falido, resolveu costurar máscaras protetoras e cuecas, para sobreviver à crise provocada pela Pandemia do COVID-19. A Quarentena e o isolamento social compulsório provocaram muitos problemas, entre comerciantes e autônomos, resultando em falência, perdas de emprego, depressão e desespero, fora os óbitos e contaminação, provocados pelo terrível vírus.

Depressivo, em decorrência da quebra da sua alfaiataria, a “menina dos seus olhos”, além de um “bem de família”, passado de pai para filho, Guilherme tentava, agora, garantir a sua sobrevivência e dos seus familiares, confeccionando as convencionais máscaras, nos padrões exigidos pelas autoridades sanitárias. Paralelamente, passou a confeccionar, também, para vender, cuecas confortáveis, lisas e estampadas, com desenhos sensuais e frases românticas.

Seus clientes da alfaiataria e amigos, sabendo da dificuldade financeira que ele atravessava, passaram a lhe prestigiar. Seu atelier era pequeno e só contava com uma antiga costureira auxiliar.

Anos atrás, assistindo a um telejornal, Guilherme se surpreendeu, com a notícia de que um assessor de um deputado estadual cearense fora preso, num determinado aeroporto, portanto US$ 100 mil (cem mil dólares) dentro da cueca.

Outra vez, ouviu a notícia de que a Polícia Rodoviária Federal prendera três suspeitos de furto, também, com muitos reais escondidos nas respectivas cuecas.

Há anos, o Brasil assistiu, a prisão, pela Polícia Federal e Receita Federal, de um empresário, réu de uma determinada “operação”, que tentava entrar no País, com mais de 360 mil euros não declarados. A polícia ainda descobriu que esse homem, também, portava maços de dinheiro vivo escondidos na cueca.

Essas lembranças fizeram nascer em Guilherme uma grande vontade de fabricar um tipo de cueca, que contivesse uma espécie de “cofrinho”, próprio para esconder dinheiro. Isso evitaria assaltos. Encarou essa ideia fixa, como um sinal, para que ele se inspirasse e pusesse em prática a confecção desse novo modelo de cueca.

Ao amanhecer o dia, Guilherme passou para um papel o modelo que tinha na cabeça. Lembrou-se da passagem bíblica, onde Adão e Eva, ao serem expulsos do Paraíso, viram que estavam nus, o que fez com que Adão cobrisse as partes pudendas com folhas de parreira. Na cabeça de Guilherme, Adão, o primeiro homem, foi o inventor da primeira cueca.

E Guilherme ficou com a ideia fixa de costurar cuecas-cofres para vender. Tinha certeza de que o novo produto teria sucesso, igual ao do cotonete (tira-cera), que quem inventou ficou rico para o resto da vida.

O novo modelo de cueca teria um segredo conhecido, somente, pelo dono. Seria confeccionada em camada dupla de um tecido impermeável, resistente e flexível, com um grande bolso costurado no fundo da peça, com um fecho delicado (ri-ri), com capacidade de esconder uma razoável fortuna em euros, dólares ou reais.

E o sonho de Guilherme tornou-se realidade. A cueca-cofre foi um sucesso, em face do alto grau de insegurança que rodeia a atual população do País.

7 pensou em “O COFRE

  1. Conheci uma figura que era um tremendo bonachão que além do seu alto astral era bastante criativo e fabricava tangas e calções de banho para praia e piscina com um letreiro na frente muito peculiar e sugestivo, como: Maior abandonado… Tira que eu gamo… Obrigado pela preferência… Agite antes de usar… O gigante acordou… satisfação garantida… Vai ter que me engolir… E danava‐se por aí afora com seu poder de criatividade impressionante, tudo isso para sobreviver com dignidade e bom humor.

    • Obrigada pela presença, prezado Altamir Pinheiro! Gostei da criatividade do fabricante de tangas e calções de banho, para praia e piscina, que você conheceu.. As frases exibidas no letreiro, eram hilárias…rsrs

  2. Linda narrativa, Violante.

    Benditos sejam os que, como o Guilherme, nunca desistem, ainda que a burrice humana não pare de inventar obstáculos.

    • Obrigada pela presença, Marcelo Bertoluce! Que sejam benditos esses brasileiros, “duros na queda”, que, tentam contornar os obstáculos postos à sua frente.

  3. Violante,

    Parabéns pela excelente crônica. A insegurança que ronda nosso país leva a criatividade para se ganhar dinheiro. Esses tempos estranhos temos a cueca servindo como cofre e, por incrível que pareça, gente ganhando dinheiro se aproveitando da pandemia do novo coronavírus. Compartilho uma piada sobre cueca com a prezada amiga.

    Um homem vai até o balcão a loja e pede: “Dois pares de cuecas, por favor.” O vendedor, atrás do balcão olha-o, incrédulo.
    “Apenas dois pares de cuecas?”
    “Sim. Eu visto um enquanto o outro está sendo lavado.”
    O vendedor olha para ele com nojo, mas providencia seu pedido.

    Um segundo homem entra na loja e diz: “5 pares de cuecas, por favor.”
    “Apenas 5 hein?”
    “Sim, eu uso uma para cada dia da semana e fico sem cueca todo o fim de semana.”
    O homem atrás do balcão balança a cabeça. “Bem, você é melhor que o último cara…”

    Um terceiro homem entra e pede: “7 pares de cuecas, por favor.”
    “Finalmente, um homem que conhece a higiene!”
    “Sim, eu tento. Uma para cada dia e lavo minhas roupas no domingo.”

    No final do dia, um quarto homem entra na loja de cuecas. Pede: “12 pares de cuecas, por favor.”
    “Uau! Você deve ser realmente limpo e asseado!”
    O homem sorri. “Sim, eu tento! Hummm… espere, deixe-me ver se eu contei direito. Janeiro, fevereiro, março, abril …”

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  4. Obrigada pelo gratificante comentário, prezado Aristeu! O espírito empreendedor de alguns brasileiros neles faz nascer uma força interior, para enfrentar as crises, e depois ressurgir das cinzas, como a Fênix da lenda.
    Gostei muito da piada das cuecas, especialmente a que se refere aos 12 pares, kkkkkk

    Um abraço! Muita Saúde e Paz!

    Violante

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