Puxando a mais antiga memória lembro meu pai me levando à praia com um filho na corcunda e outro pelas mãos. Corríamos e mergulhávamos no mar tranquilo, de águas cristalinas. Os moradores da Avenida da Paz eram amigos, uma irmandade. De nossa infância ainda tenho gravado as retretas da Banda do Exército no coreto da Avenida. Concerto às quartas-feiras; nós meninos ficávamos calados ouvindo encantados com as músicas clássicas e populares, depois começava a algazarra. Todas as noites os adultos colocavam cadeiras na calçada para tomar fresca enquanto os meninos sentados no chão em torno de uma tia ouviam “Histórias de Trancoso” que aguçava nossa imaginação.
“Nos anos 1940 e 1950 a elite intelectual e econômica de Maceió descobriu a beleza da Avenida da Paz, que passou a ser moradia de comerciantes, industriais, intelectuais, políticos e barões que davam um tom eclético aos moradores. Mas os donos da praia eram os moleques, meninos seminus queimados de sol e sal (Histórias da Gente Brasileira – Mary Del Priore)”
Maceió era uma festa. Os moradores da Avenida da Paz faziam parte da elite econômica e social da cidade. Porém, nós jovens éramos democratas com nossas amizades, meninos maloqueiros, os donos da praia, podiam ser pretos, branco, pobre ou rico, moradores de todos os bairros. Nossa escala de valores era: jogar bem futebol, nadar até alto mar, contar histórias picantes, ser amigo, bem humorado e presepeiro. Gerson, negrinho, filho da lavadeira era admirado pela turma por sua destreza como goleiro e suas histórias safadas contadas com graça. Um líder.
No início da enseada da Avenida da Paz havia alguns trapiches. Uma espécie de cais fincados com palafitas de troncos grossos, estendendo-se mar adentro. Na extremidade, dentro do mar, havia um galpão de madeira, coberto com telhados de zinco, armazém de mercadorias. Quando a maré estava cheia, nós, maloqueiros da Avenida, nadávamos até o galpão, subíamos pelas palafitas ao telhado de zinco quente, onde havia uma deslumbrante vista da enseada da Avenida. De cima do zinco mergulhávamos ao mar, o corpo esticado, uma deliciosa caricia no peito, no ventre, até o impacto com a cabeça na água límpida e cristalina. Quando aparecia o vigia; todos pulavam, e nadando a molecada gritava uníssona: O galo canta… O macaco assobia… Banana de jegue… No cu do vigia! O vigia era um velhinho abusado, chegou a prender alguns dos campeões de salto ao mar, modalidade única no esporte mundial, praticado apenas pelos maloqueiros da praia da Avenida da Paz nos anos 50.
Pescávamos no Riacho Salgadinho. Empurrávamos uma jangada de tronco de bananeira para o meio do riacho jogávamos a tarrafa aberta que enchia de tainhas, também pescávamos siri com uma teteia. Nas margens e imediações do Salgadinho, por ser terra salobra, lama salgada, se prestava à vivência, ao “habitat” de caranguejos, o goiamum azulado. Com lata quadrada de óleo ou azeite, nós fabricávamos armadilhas para capturá-los. Armávamos a arapuca, com uma isca no buraco do caranguejo. Quando o bicho saía, beliscava a isca e fechava a arapuca. Uma vibração, uma felicidade, quando a gente via a lata com a tampa fechada e um baita goiamum preso. Cevava, engordava os caranguejos num gradeado. Dias depois nos deliciávamos com uma caranguejada, o caldo do gordo escorria pela boca.
À noite o calçadão da Avenida da Paz se transformava em palco e campo de jogos. Correr no “Roubar-Bandeira”. Dividia a calçada em dois campos, um para cada equipe de sete ou oito meninos (as), no final de cada campo fixava uma bandeira. O objetivo era entrar pelo campo adversário trazer a bandeira fincada para o nosso campo sem ser tocado pelo adversário. Quando alguém era tocado pelo adversário tinha que parar ficar imóvel até um amigo vir e tocar de novo, “soltar” o amigo. Ganhava quem trouxesse primeiro a bandeira do adversário pro seu campo. Jogo de astúcia e velocidade.
Havia outros jogos como ximbra (bola de gude). Pião, o vitorioso tinha direito de, com o próprio pião amarrado com a enfieira, tentar com a ponta quebrar o casco do pião adversário. Nosso paraíso não era apenas a praia. Nossos pais gostavam de passear nas lagoas. Embarcávamos numa enorme canoa navegando pelas lagoas até Coqueiro Seco. A meninada sentada no fundo, os mais velhos nos bancos de tábuas na proa e na popa. O canoeiro dava a direção, puxando e molhando a vela conforme a intensidade do vento. Vela enorme colorida em vários matizes marrom, como se fossem manchas. Nós ficávamos extasiados, embevecidos com a beleza da imensidão da lagoa cheia de ilhas, coqueirais e entrecortadas por canais naturais. Mergulhávamos a mão e deixávamos ser acariciada pela água. Tio Béu e Dr. Diegues cantavam emboladas e nós acompanhávamos: “Coqueiro Seco do outro lado da lagoa… Se atravessa de canoa… fazer feira no Pilar…” A moçada fazia o coro: “Espingarda, pá, pá, pá, pá, faca de ponta, tá, tá, tá”… A chegada da canoa era uma festa, não havia ancoradouro, era preciso ajudar as mulheres e crianças desembarcarem. Passávamos o dia naquele pequeno povoado, correndo, jogando bola, mergulhando nas águas limpas da lagoa.
No centro da cidade havia o Cine Arte (São Luiz) quase sempre assistíamos a matiné e descíamos caminhando à Avenida da Paz, passando junto ao Arcebispado tomávamos um divino suco de maracujá com pão doce.
À noite ficávamos nos bancos da Avenida ou saíamos à cata de namoradas, nas redondezas. Eram namoros à antiga, pegar na mão, às vezes um abraço mais quente. A turma de maloqueiros da Avenida dos anos 50 foi se dispersando no tempo e no espaço. Hoje é só memória e alguns retratos na parede.
O futebol na areia era o jogo o predileto. Começávamos jogando Zorra (Linha de Passe). Quando havia jogadores suficientes, dois “capitães” tiravam par ou ímpar e cada qual escolhia os jogadores alternadamente, as equipes se equilibravam, dividimos democraticamente os times. O campo era a areia da praia, as traves dois cocos em montículo de areia. Não havia camisa de time, nem juiz, nem falta, nem impedimento, a bola rolava, na hora do gol corria para o abraço. Geralmente havia empurrões e briga, fazíamos as pazes depois do jogo. Se o jogo era na parte da manhã, ao acabar, mergulhávamos no mar de água transparente, nadávamos até enxergar as casas pequeninhas, às vezes ajudávamos a puxar as redes dos pescadores, o arrastão. Quando a pelada era à tarde jogávamos até escurecer. Em época de Lua Cheia, só terminava a partida com o Gol da Lua, o primeiro gol depois da Lua aparecer. Meninos, maloqueiros românticos, estão acabando-se aos poucos como manda a natureza. Fica a saudade e um quadro na parede.
