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Paulo Briguet

Venezuela e Irã nas ruas: quando a espada do povo encontra a chama da verdade, até regimes que se julgavam eternos começam a ruir

A Hidra de Lerna é um dos monstros mais assustadores da mitologia e, ao mesmo tempo, um símbolo eficaz das catástrofes que acometem o mundo atual. Essa serpente de nove cabeças habitava um pântano e possuía um veneno tão letal que até as suas pegadas causavam a morte.

Um dos doze trabalhos de Hércules, o maior herói da mitologia grega, era justamente matar a terrível Hidra, que assombrava os moradores de toda a antiga Grécia. Sua tarefa, no entanto, parecia impossível, pois mesmo os golpes da poderosa espada de Hércules não eram suficientes para vencer o monstro: a cada cabeça cortada, surgiam outras duas.

Mas Hércules, com a ajuda de seu sobrinho Iolau, usou da astúcia para aniquilar a serpente maligna. Enquanto Hércules cortava as cabeças do monstro com a espada, Iolau cauterizava a ferida com uma tocha ardente, impedindo que as novas cabeças brotassem.

A Hidra de Lerna representa com perfeição os regimes revolucionários do nosso tempo. O Irã, em 1979, e a Venezuela, em 1999, foram dominados por esse monstro venenoso. Nos últimos dias, o povo iraniano e o povo venezuelano começaram a vislumbrar a possibilidade de que o monstro revolucionário seja aniquilado.

Na Venezuela, a vice-ditadora Delcy Rodríguez, cúmplice do regime chavista, permanece no poder. Ela e seu irmão Jorge Rodríguez, conhecidos como Los Hermanos Siniestros, são duas cabeças do monstro revolucionário que vampirizou e sufocou o país ao longo de 27 anos.

No Irã, a Guarda Revolucionária e os delatores do regime estão espalhando o terror pelo país e atirando contra manifestantes desarmados. Organizações internacionais falam em 500 a 2 mil mortos e mais de 10 mil presos até agora. Há relatos de guardas do regime invadindo hospitais e atirando contra feridos. Ninguém sabe os números exatos, no entanto. Como se trata de um regime ditatorial, que censura pesadamente a internet, as informações são imprecisas.

María Corina Machado, líder da oposição venezuelana e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, alertou nas redes sociais sobre o vínculo entre os dois regimes:

“Os iranianos rejeitam a fome e a opressão às quais foram submetidos durante anos por um regime autoritário — um regime que se infiltrou na América Latina para se associar a sistemas criminosos como o chavismo na Venezuela. Hoje, quando Maduro foi obrigado a enfrentar a justiça, e quando o povo do Irã desafia a brutalidade de um regime autoritário — que também se acreditava eterno — e seus aliados, nossas duas nações abrem caminho para decidir livremente seu futuro, longe de toda coação e violência”.

A sobrevivência da Hidra revolucionária depende, fundamentalmente, da manutenção do pântano. É na opacidade dos sigilos de Estado, no silêncio imposto pela censura e na rede de delatores — uma versão moderna da Zersetzung da Stasi — que o monstro encontra o oxigênio para regenerar suas cabeças decepadas.

Mas, como no mito de Lerna, o golpe da espada popular só será definitivo se acompanhado pela tocha da verdade. Se o povo nas ruas de Teerã e Caracas pode ser comparado à força de Hércules, a coragem dos dissidentes que expõem as vísceras do sistema faz lembrar a chama de Iolau, selando as feridas abertas para que a tirania não volte a brotar das cinzas de sua própria crueldade.

O tempo, esse juiz implacável que já viu cair os muros de Berlim e as guilhotinas de Paris, nos ensina que nenhum regime é eterno quando a luz da justiça drena o lodo da mentira. O destino do Irã e da Venezuela está unido por um fio de esperança e pelo fogo da memória.

Quando a última cabeça do monstro for finalmente enterrada sob a rocha da liberdade, não restará apenas o silêncio dos tiranos e cúmplices, mas a voz dos povos livres que, após décadas de coação e terror, enfim descobriram que a Verdade é a única força capaz de aniquilar a Hidra.

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