CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Exemplo de homem sem escrúpulo

Estando eu todo fagueiro, quase radiante, à espera de registro na Portaria de um hotel em Curitiba, quando pedi à moça para preencher, por mim, a Ficha de Hóspede.

Justifiquei que minha letra já estava “pra lá de Baghdad”; ou seja, um tanto trêmula, quase hieroglífica, dificuldade de quem está convivendo com a fase dos 90 anos de idade e os dedos já tremem mais do que “vara verde”.

Holenka, uma galega de fino trato, começou a registrar meus dados obedecendo as linhas do questionário impresso, realçando sua bela caligrafia itálica, quase artística.

Foi perguntando e fui informando. No quesito: Filiação, no entanto, solicitou apenas o nome de mamãe, ao que alertei:

– Holenlka, falta acrescentar o nome de meu pai!

Surpresa! A criaturinha dos “cabelos de milho” informou que não precisava. Porque não constava no questionário. Em tons muito cordiais, discutimos e fui cientificado que naquele quesito não era mais exigida a definição paterna.

– Quer dizer que sou só “filho da mãe”?

Solicitou-me um instante e retornou com o gerente para dirimir a questão e ilustrar os “explicativos”. Fui, então, cientificado que pela legislação atual realmente não era mais exigido o nome do genitor.

Outro episódio curioso foi quando há poucos dias estive numa Emergência Médica e na prescrição dos medicamentos constava, na parte inicial da folha: Nome do paciente, data de nascimento e nome da mãe.

Novo constrangimento!

Deixei o consultório convicto que, para algumas empresas, inclusive hospitais e clínicas, apenas, “filhos da mãe”, que é semelhante a ser, cada um, “Filho de uma égua.”

Não que eu seja realmente um “filho da mãe”, porém, se assinar essas fichas de hoteis, assumirei a barbaridade que nem faz sentido.

E tem mais, o velho Arthur Saraiva Lins dos Santos, meu pai e outros dedicados genitores, teriam perdido mesmo a representatividade paternal?

Reporto-me, assim, ao vulgo. Ser “Filho da Mãe é estar como um filho acusado de ser “um coisa ruim”; representa um xingamento terrível.

“Filho da Mãe” tornou-se palavrão, porque, segundo Aurélio, historicamente, remete à figura do filho ilegítimo, de quenga safada; cabra considerado traiçoeiro, de origem incerta e desonrosa. Um bosta qualquer, sem escrúpulos. Capaz até de boa reprimenda:

Aquilo é um Filho da Mãe!

Com base na “Teoria de Bastardia”, em tempos antigos, a legitimidade de uma criança dependia do reconhecimento paterno. Por isso, ocorreu minha reação, lamentando o constrangimento de Holenka, que teve que convocar seu superior hierárquico, porque não desejei ser um ”Filho da mãe”, como se diz no vulgo: uma pessoa sem escrúpulos.

Sidcley Jamaica me disse que o termo escrupuloso é uma das palavras mais fascinantes do nosso vocabulário. Sua definição primária é: “uma dúvida ou hesitação que atinge a consciência de que algo está errado”.

O contrário dessa palavra é semelhante a uma arma carregada, pronta para atirar: o inescrupuloso.

Kutzjank, o habilidoso gerente, com fala meio macarrônica, bem ao estilo de descendente de eslavos, compreendendo meu respeito filial, convidou-me para um drink na sala de refeições do hotel e emocionado, contou sua tragédia de vida, por não haver conhecido seu pai, que faleceu num campo de batalha da II Guerra Mundial.

Fiz comentários sobre a maioria dos políticos do nosso país, onde o escrúpulo se realça até pelas novelas.

Quase chorei abraçado com o galego. Ao término, nos chega Holenka com o documento retificado, com a solução. Escreveu ao pé da Ficha de Inscrição de Hóspede:

P.S. – Filho do sr. Arthur Saraiva Lins dos Santos, brasileiro, casado, jornalista, residente no Recife – PE.

Taí quanto vale a reação cordial de não querer se passar por qualquer pessoa sem escrúpulos; algum “Filho da mãe!”

4 pensou em “FILHO DA MÃE

  1. Louvável a exigência do cronista em ser admitido no Hotel de Curitiba como ‘Filho do Pai’ e não apenas como ‘Filho da Mãe’. Seu Arthur Saraiva, esteja onde estiver, deve ter ficado grato pela deferência.

  2. Subida é a honra por merecer tão paternal manifestação de respeito aos nossos antepassados, notdamente de um letrado da mais alta quadra de Pernambucio.

    Muito grato, Xico.

  3. Caro João Bosco,

    Nós, que ainda colaboramos com notícias e comentários num jornal sério – embora caracterizado pelo próprio dono como uma “Gazeta Escrota” – temos a obrigação de ir lembrando ao público, certos detalhes relativos aos nossos modos de viver e conviver, não perdendo oportunidade para reagir quando houver sinais de incoveniências.

    Agradeço a distinção do seu comentário.

    Bom domingo, amigo!
    Carlos Eduardo.

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