Exemplo de homem sem escrúpulo
Estando eu todo fagueiro, quase radiante, à espera de registro na Portaria de um hotel em Curitiba, quando pedi à moça para preencher, por mim, a Ficha de Hóspede.
Justifiquei que minha letra já estava “pra lá de Baghdad”; ou seja, um tanto trêmula, quase hieroglífica, dificuldade de quem está convivendo com a fase dos 90 anos de idade e os dedos já tremem mais do que “vara verde”.
Holenka, uma galega de fino trato, começou a registrar meus dados obedecendo as linhas do questionário impresso, realçando sua bela caligrafia itálica, quase artística.
Foi perguntando e fui informando. No quesito: Filiação, no entanto, solicitou apenas o nome de mamãe, ao que alertei:
– Holenlka, falta acrescentar o nome de meu pai!
Surpresa! A criaturinha dos “cabelos de milho” informou que não precisava. Porque não constava no questionário. Em tons muito cordiais, discutimos e fui cientificado que naquele quesito não era mais exigida a definição paterna.
– Quer dizer que sou só “filho da mãe”?
Solicitou-me um instante e retornou com o gerente para dirimir a questão e ilustrar os “explicativos”. Fui, então, cientificado que pela legislação atual realmente não era mais exigido o nome do genitor.
Outro episódio curioso foi quando há poucos dias estive numa Emergência Médica e na prescrição dos medicamentos constava, na parte inicial da folha: Nome do paciente, data de nascimento e nome da mãe.
Novo constrangimento!
Deixei o consultório convicto que, para algumas empresas, inclusive hospitais e clínicas, apenas, “filhos da mãe”, que é semelhante a ser, cada um, “Filho de uma égua.”
Não que eu seja realmente um “filho da mãe”, porém, se assinar essas fichas de hoteis, assumirei a barbaridade que nem faz sentido.
E tem mais, o velho Arthur Saraiva Lins dos Santos, meu pai e outros dedicados genitores, teriam perdido mesmo a representatividade paternal?
Reporto-me, assim, ao vulgo. Ser “Filho da Mãe é estar como um filho acusado de ser “um coisa ruim”; representa um xingamento terrível.
“Filho da Mãe” tornou-se palavrão, porque, segundo Aurélio, historicamente, remete à figura do filho ilegítimo, de quenga safada; cabra considerado traiçoeiro, de origem incerta e desonrosa. Um bosta qualquer, sem escrúpulos. Capaz até de boa reprimenda:
Aquilo é um Filho da Mãe!
Com base na “Teoria de Bastardia”, em tempos antigos, a legitimidade de uma criança dependia do reconhecimento paterno. Por isso, ocorreu minha reação, lamentando o constrangimento de Holenka, que teve que convocar seu superior hierárquico, porque não desejei ser um ”Filho da mãe”, como se diz no vulgo: uma pessoa sem escrúpulos.
Sidcley Jamaica me disse que o termo escrupuloso é uma das palavras mais fascinantes do nosso vocabulário. Sua definição primária é: “uma dúvida ou hesitação que atinge a consciência de que algo está errado”.
O contrário dessa palavra é semelhante a uma arma carregada, pronta para atirar: o inescrupuloso.
Kutzjank, o habilidoso gerente, com fala meio macarrônica, bem ao estilo de descendente de eslavos, compreendendo meu respeito filial, convidou-me para um drink na sala de refeições do hotel e emocionado, contou sua tragédia de vida, por não haver conhecido seu pai, que faleceu num campo de batalha da II Guerra Mundial.
Fiz comentários sobre a maioria dos políticos do nosso país, onde o escrúpulo se realça até pelas novelas.
Quase chorei abraçado com o galego. Ao término, nos chega Holenka com o documento retificado, com a solução. Escreveu ao pé da Ficha de Inscrição de Hóspede:
P.S. – Filho do sr. Arthur Saraiva Lins dos Santos, brasileiro, casado, jornalista, residente no Recife – PE.
Taí quanto vale a reação cordial de não querer se passar por qualquer pessoa sem escrúpulos; algum “Filho da mãe!”


Louvável a exigência do cronista em ser admitido no Hotel de Curitiba como ‘Filho do Pai’ e não apenas como ‘Filho da Mãe’. Seu Arthur Saraiva, esteja onde estiver, deve ter ficado grato pela deferência.
Subida é a honra por merecer tão paternal manifestação de respeito aos nossos antepassados, notdamente de um letrado da mais alta quadra de Pernambucio.
Muito grato, Xico.
E interessante porque existe uma onda no pais para acabar com registros de filhos sem o nome do pai.
Caro João Bosco,
Nós, que ainda colaboramos com notícias e comentários num jornal sério – embora caracterizado pelo próprio dono como uma “Gazeta Escrota” – temos a obrigação de ir lembrando ao público, certos detalhes relativos aos nossos modos de viver e conviver, não perdendo oportunidade para reagir quando houver sinais de incoveniências.
Agradeço a distinção do seu comentário.
Bom domingo, amigo!
Carlos Eduardo.