MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

Há encontros curiosos na música. Alguns parecem acontecer por acaso. Outros, por afinidade. E há aqueles que parecem nascer de um reconhecimento íntimo, como se uma canção, ao ser ouvida, despertasse outra que já estava esperando para existir.

Tive esse sentimento ao aproximar Simple Man, lançada em 1973 pelo Lynyrd Skynyrd, e Uomini semplici, gravada em 1981 por Edoardo De Crescenzo.

Aliás, quanto à questão temporal, preciso fazer um registro da ordem cronológica em que essas duas canções chegaram ao meu conhecimento: apesar de Simple Man ser anterior a Uomini semplici, ouvi-as pela primeira vez na ordem inversa — ou seja, a mais recente antes da mais antiga.

E isso importa? Para mim, sim. Porque sempre me chamou a atenção o fato de a canção italiana trazer alguns versos em inglês: “simple man, simple man, simple man…” — repete Crescenzo insistentemente no final.

Eu já tinha ouvido versos em inglês na canção italiana C’era Un Ragazzo Che Come Me, de Gianni Morandi, que fez sucesso no Brasil com o título Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones — em dois momentos diferentes: primeiro com os Incríveis, depois com os Engenheiros do Hawaii.

Mas ali o contexto era claro: a história de um jovem americano convocado para a guerra do Vietnã. Logo, fazia sentido introduzir versos como “Stop! Coi Rolling Stones! Stop! Coi Beatles songs!”.

Também conhecia Tu vuò fa’ l’americano, de Renato Carosone, que muita gente no Brasil conhece na versão Pa-Panamericano (quem chegou até aqui e lembra já pode deixar um like!).

Nela, um italiano finge ser um soldado americano, tentando aproveitar sua popularidade com as garotas locais após a Segunda Guerra Mundial — mas não é levado muito a sério:

Tu balli il rock’n’roll (Você dança rock’n’roll)
Tu giochi a baseball (Você joga beisebol)
Ma i soldi per le Camel (Mas o dinheiro para os cigarros Camel)
Chi te li dà? (Quem te dá esse dinheiro?)
La borsetta di mammà (A bolsa da mamãe)
(…)
Tu vuo’ fa’ l’americano, ‘mericano, mericano, ma si’ nato in Italy
(Você finge que é americano, mas nasceu na Itália)

Mas, em Uomini semplici, eu não encontrava o motivo dos versos em inglês. Afinal, nenhum trecho da canção fazia referência ao povo americano, ao seu estilo de vida ou a algum personagem específico. Era um pequeno mistério.

Até o dia em que ouvi Simple Man, com sua mensagem direta e clara, sintetizada no refrão:

And be a simple kind of man (E seja um tipo simples de homem)
Oh, be something you love and understand (Oh, seja algo que você ame e entenda)
Baby, be a simple kind of man (Querido, seja um tipo simples de homem)
Oh, won’t you do this for me, son (Oh, você não fará isso por mim, filho)
If you can? (Se puder?)

A composição atribuída a Ronnie Van Zant e Gary Rossington carrega a simplicidade como método. Uma mãe fala ao filho. Não complica. Não teoriza. Diz apenas o essencial: não corra atrás do ouro dos outros, não se perca no barulho do mundo, seja um homem simples.

Depois de conhecê-la, ficou fácil imaginar Crescenzo, alguns anos mais tarde, ouvindo aquela canção americana e pensando, quase num impulso: “Ma certo… ma certo… ce ne sono mille così, nelle strade.” (Claro… claro… há milhares desses por aí, nas ruas.) — o autor da letra de Uomini semplici é Franco Migliacci, mas me parece natural que em nossa memória a canção fique mesmo ligada ao seu principal intérprete.

O fato é que, em Uomini semplici, o conselho dá lugar ao reconhecimento. Os homens simples já estão lá. Passam despercebidos, atravessam o dia, sustentam o mundo sem discurso e sem plateia. Não pedem definição, não reivindicam lugar. Apenas existem:

Gli uomini semplici sono sempre eroi (Os homens simples são sempre heróis)
che in silenzio vivono, esistono (que em silêncio vivem, existem)
Alberi e nuvole con il vento sbandano (Árvores e nuvens cambaleiam com o vento)
loro invece lottano, resistono (eles, ao contrário, lutam, resistem)
(…)
Sulla terra non ci sono santi (Na terra não há santos)
gli uomini semplici sono tanti (os homens simples são muitos)
Non li vedi e non li senti (Você não os vê e não os ouve)
ma son tutti intorno a te (mas estão todos ao seu redor)
Simple man, simple man, simple man

A partir daquele momento, ficou impossível ouvir uma música sem pensar na outra.

Porque, enquanto Simple Man nos convida a ser algo, Uomini semplici nos mostra que esse algo já vive entre nós — quem sabe, até dentro de nós, em algum lugar menos ruidoso.

Quando Crescenzo repete “Simple man, simple man”, não soa como mera citação. Soa como quem encontrou a palavra exata, mas em outra língua.

Há algo de melancólico nisso tudo. Porque, se é verdade que os homens simples existem, também é verdade que o mundo parece cada vez menos interessado neles. Preferimos o extraordinário, o complexo, o ruidoso.

Em tempos de redes sociais, superexposição da vida pessoal e sonhos de se tornar um influencer com milhões de seguidores — e dólares —, a vida continua sendo sustentada por gente que não faz alarde. Gente que não está tentando ser nada além do que já é.

No fundo, as duas canções não dizem coisas diferentes. Elas apenas chegam por caminhos distintos ao mesmo ponto. Uma ensina, a outra reconhece.

E entre ensinar e reconhecer há um intervalo sutil, mas decisivo.

Talvez a maior homenagem à simplicidade não seja recomendá-la, mas percebê-la.

Aí não importam as palavras — ou mesmo o idioma — para nos referirmos a ela: simple man; uomini semplici.

P.S.: Revisando o texto, observei que embora a palavra “simples”, em português, seja frequentemente utilizada no sentido de desprovido de complexidade, rudimentar ou singelo, esse não seria o sentido mais adequado ao transmitido pelas palavras “simple” e “semplici”, no contexto das canções que deram ensejo à crônica. Nelas, esses termos exprimem mais um sentido de pessoas que não teriam nada de extraordinário, que se guiam por valores considerados básicos, como família, amigos e trabalho. Ou seja, “simple man” e “uomini semplici”, para nós, brasileiros, talvez tenha um significado mais próximo de “pessoas comuns”, “gente comum”. Isso me remeteu a outra canção italiana, certamente mais conhecida dos brasileiros na voz de Renato Russo. Refiro-me a “Gente”, cujo refrão diz:

Non siamo angeli in volo venuti dal cielo (Não somos anjos voando no céu)
Ma gente comune che ama davvero (Mas pessoas comuns que amam de verdade)
Gente che vuole un mondo più vero (Pessoas que querem um mundo mais verdadeiro)
La gente che incontri per strada in città (As pessoas que você encontra na rua da cidade)

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