CARLOS IVAN - ENQUANTO ISSO

Finalmente, a humanidade resolveu botar pra fora aquela coisa que tava engasgada na goela. Em todo canto do mundo rolam manifestações, nos mais diversos idiomas, inglês, francês, japonês, mandarim, italiano, na língua russa e principalmente em português. A galera se une num só estribilho. Justiça. Fora o racismo, o autoritarismo, a ganância, a roubalheira e a truculência policial.

Mesmo girando a toda velocidade, o mundo quer paz, justiça, calma, paciência e proteção. As pessoas, independente de cultura e de comportamento, sonham com sossego, ordem, menor depredação no patrimônio público, menos roubo e violência, inclusive a policial.

A questão, agora pública, viralizou tanto que até o Papa Francisco resolveu intervir, emitindo opinião: “Não é hora de olhar as indiferenças e ficar calado”. Realmente, o momento pede irmandade e reação para exigir menos ganância e mais ação para evitar a depredação, principalmente do ecossistema.

De uns tempos pra cá, o mundo demonstra ter perdido a paciência. Por isso, faz explodir revoltas pelo globo terrestre. No ano passado, as estatísticas registraram várias manifestações de conflitos populares.

Na Bolívia, o povo afrontou a polícia por causa de manipulação de urnas. A oposição rejeitou o resultado das eleições de outubro de 2019, desconfiado de fraudes. A quarta reeleição consecutiva de Evo Morales provocou crise política. Então, o jeito foi Morales renunciar.

No Chile, o caos tomou contas das ruas centrais de Santiago. O povo, insatisfeito com a majoração no preço das passagens, tocou fogo em ônibus, saqueou lojas. A situação ficou tão preta que o presidente da época não teve outra saída, senão declarar estado de emergência.

No Equador, em virtude do cancelamento dos subsidio aos combustíveis, vigentes há décadas, a população provocou violentos distúrbios. O motivo da maior crise dos últimos doze anos no país, foi consequência de severas medidas econômicas recomendadas pelo FMI.

Todavia, a onda de protestos não se restringe apenas à América do Sul. Hong Kong, na China, importante centro comercial, movimentado porto e detentora de impactante polo financeiro também enfrentou distúrbios no ano passado. Os protestos culminaram em greve geral nos transportes públicos e nos voos internacionais. No aeroporto de Hong Kong, um dos mais movimentados do mundo, a coisa pegou fogo. Os tumultos, generalizados, de tão dramáticos, perturbaram a lei e a ordem no país por um bom tempo.

Mas, neste ano, de 2020, os protestos se multiplicam absurdamente por todos os cantos do planeta. Dois fatos repercutem intensamente. O racismo e a violência policial.

Em junho passado, eclodiram ondas de protestos por todos os cantos que nem a pandemia do coronavírus, matando gente adoidado, impediu os distúrbios de se espalhar pelo mundo afora.

Na França, a morte do jovem negro francês, Adama Traoré, ocorrida há quatro anos, de forma brutal, foi o estopim para reunir mais de 20 mil pessoas no Norte francês e deflagrar um tremendo confronto.

Na Austrália, a causa de manifestações de protestos foi o preconceito contra os aborígenes. De máscaras, os manifestantes protestavam respeitando a distância regulamentar, em obediência às medidas de prevenção contra o Covid-19.

No Reino Unido, bastou o Parlamento britânico suspender as atividades, conforme autorização concedida pela rainha Elizabeth 2ª, como chefe de Estado, para gerar discordâncias. Os manifestantes, sob o slogan “de assalto à democracia”, chegaram inclusive a pedir a renúncia do primeiro ministro britânico, Boris Johnson.

Da onda de protestos, nem as estátuas de figuras famosas da História, escaparam da fúria dos manifestantes. Em Londres, em plena Trafalgar Square, ativistas travaram confrontos contra policiais de choque com cães.

De um lado, grupos de extrema-direita, insultavam os manifestantes antirracistas, todos mascaradas por conta do Covid-19. Atordoadas com as manifestações de protesto, que escambavam para a violência e a desordem no centro londrino, as autoridades solicitavam ao povo que se mantivesse longe das praças de guerra.

Nos confrontos, nem a estátua de Winston Churchill, safou-se dos ataques. A estatura foi pixada com a frase “era um racista”. No entanto, Churchill, foi considerado líder da Segunda Guerra Mundial, É admirado por boa parte dos ingleses por ter exercido importante papel na derrota da Alemanha, de Hitler.

A morte, de forma cruel e desumana do norte-americano, George Floyd, 46 anos, em Minneapolis, no estado de Minnesota, provocada por um policial branco, abriu a boca do furacão nos Estados Unidos.

A ocorrência desencadeou protestos antirracistas em várias partes do mundo: Alemanha, Inglaterra, Canadá. México, Bélgica, Espanha e Portugal. A rejeição à truculência policial é tema crescente entre os ativistas.

A frase dita por Floyd, deitado no chão submisso e sem poder de reação, “Não consigo respirar” permanece no ouvido dos manifestantes que não se conformam com a barbaridade policial que matou Floyd, por asfixia.

Portland, no estado de Oregon, cidade mais progressista e mais branca dos Estados Unidos, também foi palco de manifestações de protestos antirracismo. Depois da chegada, então, de agentes federais, enviados pelo presidente Trump, a massa saiu às ruas, protestando.

O ato, incentivou a população a lembrar da década de 1920, quando a poderosa organização supremacista branco Klu Klux Klan realizava desfiles, cerimônias públicas e queima de cruzes. O interessante do grupo terrorista é a participação de membros que ocupavam importantes cargos no governo local.

Até os italianos, inconformados com os atos de arrogância no mundo, se reuniram na Piazza del Popolo, Roma, e de punho erguido, berravam “Sem Justiça, não há paz”.

No Brasil, os protestos têm acontecido de várias formas. Contra a política, contra os ideais antirracistas e antifascistas, contra as medidas de isolamento impostas pelos governos estaduais e o fechamento do comércio, e também contra a ditadura do STF.

Insatisfeitos, os manifestantes não se conformam com o tratamento dispensado por alguns governos que julgam os protestos como conduta de perturbação da ordem púbica e de terrorismo.

É isso o que dá o autoritarismo, o abuso de poder, as violações, a mania de policiais tirar a tarjeta de identificação na farda, contendo o nome e a graduação, num claro desrespeito à lei. Salvo raras exceções.

Ora, logo o policial, que tem o dever de proteger, garantir a segurança do cidadão e cumprir a lei. No entanto, nos atos de repressão, os agentes policiais agem anonimamente e armados até os dentes. Valorizando a impunidade e estimulando a violência.

A metade da população mundial tem bons motivos para andar insatisfeita com o declínio da democracia, a radicalização e as instabilidades política e econômica reinando absolutas em vários países, inclusive no Brasil. Também pudera. Tantos Poderes mandando, mas usando línguas diferentes que ninguém entende. Acaba levando o povo aos protestos. Com razão.

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