GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

Nos anos 70 as difusoras do Cine Alvorada de tabira bradavam músicas engraçadas: Genival Lacerda com “ele tá de olho é na boutique dela” e “ela deu o rádio e nem me disse nada”, João Gonçalves com “Ô lapa de minhoca, eita que minhocão” e Zenilton com “você vai pagá-la” e “quebrei a cabaça dela”. Entre os sucessos de Lafayette, Perez Prado, Sidney Magal, Peninha e outros, encaixavam um forró de duplo sentido.

Zenilton com seu pai Cazuzinha Dentista e com a mãe Evangelina

Era época do governo militar, que tinha um órgão que censurava músicas politicamente desfavoráveis ao regime ou que atentassem contra o pudor e os bons costumes, essas músicas de duplo sentido passavam porque não havia como a censora riscar um trecho que falava “tem gente que educa o branco, tem gente que educa o preto, aqui educa qualquer um, porque não tem preconceito” ou “a capital do Equador é Quito, nunca mudou, é sempre Quito”, e os discos vendiam desde feiras livres até na Modinha e Aky Discos do Shopping Recife.

Capa dos discos com os sucessos “Só fumo no cachimbo da mulher” e “Com milho cru”

José Nilton Veras nasceu em Afogados da Ingazeira em 14 de fevereiro de 1939, mas foi criado em Salgueiro. Filho de pai militar, sofreu o preconceito de ser músico, o pai, Seu Cazuza ou Cazuzinha Dentista, que era do exército, queria ver o filho médico militar. O pai nas horas vagas frequentava as feiras de rolo da região, e nessas trocas adquiriu uma sanfona e Zenilton começou a tocar, quando Cazuzinha retornou do Recife viu som de um fole tocando no fundo da casa e perguntou a mulher: “Quem é esse que tá tocando?”, “´É um rapazinho do mato que veio comprar a sanfona”, respondeu Evangelina, mãe de Zeniton, “Ele toca bem”, opinou seu Cazuza, e foi ver, quando chegou lá era Zenilton, o pai deu-lhe uma bronca, pois queria o filho estudando e não na profissão de sanfoneiro, disse que aquilo é profissão de vagabundo, pois vive de cabaré em cabaré. Zenilton ainda argumentou dizendo que Luiz Gonzaga não tocava em cabaré, mas Cazuzinha disse que Luiz Gonzaga teve que ir pro Sul do país, ai fizeram um acordo para Zenilton não parar de estudar, por intermédio de um capitão do exército junto a Seu Cazuza: “deixa ele tocar, é melhor do que tá fumando ou aprendendo a roubar”.

O artista no documentário Zenilton & Sua História

Zenilton começou a ganhar dinheiro tocando em casamentos e batizados na região. Em 1951 quando chegou o jeep no Brasil, o sanfoneiro comprou um, depois resolveu seguir para a capital nordestina no Sudeste: São Paulo, na carroceria de um pau-de-arara. Lá fez um trio e foi tocar na Praça da Sé, cantava músicas de Luiz Gonzaga e fazia sucesso, o balaio saia cheio de dinheiro e a noite ainda ia tocar em alguns bares. Em um dos bares, o dono, um português, o convidou para morar num quartinho no fundo, tinha até ventilador, virou sócio e terminou comprando o bar do portuga, gostou do ramo empresarial e chegou a ter uma rede de lanchonetes e bares na capital paulista e até uma casa de show, a Forró da Moca, mas voltou a focar na arte.

Vídeo com o sucesso “eu vou botar o saco prá dentro”:

Zenilton voltou ao Nordeste e passou a participar de eventos abrindo os shows de cantores já consagrados. Um dia, ele foi abrir um show para Luiz Gonzaga e cantou as músicas do Rei do Baião, quando Gonzagão foi entrar no palco deu uma bronca no rei do duplo sentido: “Você só tocou minhas músicas, agora eu vou tocar o que?”, foi ai que Zenilton resolveu voltar a terra da garoa para tentar gravar suas próprias músicas. Ao chegar na gravadora Chanteclair encontrou com Raul Seixas, com quem fez uma grande amizade, o rei do rock não deu bronca, mas deu um conselho a Zenilton: “canta coisas diferentes, coisas engraçadas”, foi quando Zenilton gravou Capim Canela e virou sucesso, se não a nível nacional, mas no Nordeste e nas difusoras do Cine Alvorada, sim: “Só capim canela, só capim canela, a criação é gorda comendo capim canela”.

Panfleto de Zenilton com o prefeito Clebel

Nos anos 70, veio o auge da carreira, todo ano gravava um disco de sucesso pela gravadora Copacabana, topava com Trio Nordestino, Os 3 do Nordeste e Genival Lacerda. Nos anos 80 foi tentar carreira internacional em Portugal, que também aprecia a música de duplo sentido, mas lá não foi bem sucedido comercialmente e voltou para o Brasil. Zenilton tambem trabalhou como ator em 1970 no filme Sertão em Festa, com Tião Carreiro, Pardinho, Nhá Barbina e em 1978 na película Chapéu de Couro

Cena do filme Sertão em Festa em cena com Zenilton e Mariazinha (avó de Sandy e Júnior)

Nos anos 90, voltou a mídia no início de carreiras da banda Raimundos, cujos componentes se diziam influenciado pelo cantor pernambucano e fizeram parceria, gravaram “Chocho Pão” e “Ela tá dando, ela tá dando motivo prá desquitar”, mas depois do sucesso, a banda de Brasília esqueceu o ídolo, reclamou Zenilton ao repórter Jose Teles do JC. Zenilton reclamou também dos forrós de hoje do tipo Safadão: “É tudo igual, uma voz só, uma coisa só. Banda é iluminação, só o palco é um show. Eles não me convidam pra tocar com eles não, que não são doidos. Porque sabem que se botar o velhinho no palco, acabo com eles”.

Zenilton com os Raimundos

Zenilton voltou a morar no Sertão de Salgueiro, tá parado por problemas de artrose que espera corrigir com uma cirurgia e voltar a puxar o fole. Teve uma vida de altos e baixos, mas foi bem sucedido na vida: deixou bem encaminhados os 3 filhos, inclusive formou uma filha médica, como queria seu Cazuzinha Dentista. Tentou também a carreira política, foi candidato a vereador em Salgueiro em 2016, porém os eleitores não entenderam a sua mensagem e só votaram nele 17 vezes.

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