CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

MEUS MENTIROSOS DE ESTIMAÇÃO

O grande e estupendo Ariano Suassuna, que eu considero insubstituível, (nunca mais nasce outro) dizia que adorava fazer amizade com mentirosos e com doidos, ele mesmo se dizia um pouco doido.

Confesso que tenho atração por mentirosos também, convivi e convivo com alguns, e quero falar deles.

SINDÔ – Era um barbeiro que cortava cabelo dos soldados no quartel, onde meu pai era sargento, eu e meu irmão cortávamos cabelo com ele, um corte que se chamava Jack Demis Zero, esse tipo de corte que hoje ta na moda, raspava as laterais da cabeça com maquina zero, e depois passava a navalha, ficava somente uma trunfinha de cabelo em cima, aquilo quando batia o sol no cocoruto fosfórico ardia pra cacete, fora as lixas ou xulipa que levávamos dos colegas de classe, que hoje se chama Bullyng.

Sindô mentia com a cara mais séria do mundo, ele contava que foi soldado na guerra, e um dia entrou sozinho no bunker de Hitler, matou todos os guardas costa dele, e ficou cara a cara com o Fuhrer, que se ajoelhou e falando um português com sotaque de Pernambuco implorou:

– Seu Sindô não me mate, eu sou seu admirador, já ia lhe convidar para ser barbeiro aqui no front, e também quero lhe convidar para ser padrinho do meu filho Hitlezinho, bora ser compadre?

Quando a gente perguntava se eles tinham virado compadres ele confirmava. Quanto a Hitler falar Português ele completava:

– Isso não é nada, foda era ele saber meu nome e saber que eu era barbeiro.

URUBU – Era um sapateiro que morava perto do meu primeiro emprego, na Rua Aurora 555, todo dia ele bebia uma garrafa de Pitú, as vezes ele exagerava e tomava uma e meia, quando indagado por que bebia tanto, ele explicava :

– Sabe o que é, eu morro de medo de ressaca, quando tô ficando bom, eu meto outro porre em cima.

Urubu contava histórias mirabolantes, uma delas ele falava de um tal de circo americano que fez uma temporada na cidade dele que se chamava Araçoiaba e o circo tinha uma equipe de motociclistas americanos, galegos do cabelo louro e olho azul, que faziam o globo da morte de bicicleta, quando fazíamos aquela cara de espanto ele emendava:

– Isso não era nada, de lascar era quando ele fazia com o palhaço na garupa.

PANELA DE PRESSÃO – Era um sargento amigo do meu pai, conhecido por falar que conhecia todo mundo, qualquer militar que você falasse ele conhecia. Naquela época os americanos começavam a lançar os foguetes da base de Cabo Canaveral na Flórida.

Um dia meu pai estava no cassino dos sargentos batendo um papo numa roda de amigos e falava de Cabo Canaveral. Nisso entra Panela de Pressão, interrompe a conversa e arremata :

– Malta, ele agora tá é bom, queria que você visse essa peste quando foi meu soldado no 14 R.I.

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