A PALAVRA DO EDITOR

Esta é a abertura de uma matéria publicada na página Metrópoles, de Brasília, no dia 23 de março passado:

O Samba Urgente se descreve como uma roda de samba completamente informal, “como se fosse no quintal de casa”. Essa premissa descompromissada pode ser vista nas rodas de samba gratuitas, que ocorrem no Setor Comercial Sul e atraem, mensalmente, 7 mil pessoas por festa.

Formado por Augusto Berto (percussão), Pedro Berto (cavaquinho), Vinicius Vianna (violão), Toscanino Batista (Zabumba), Arthur Nobre (Cavaquinho), Saulo Veríssimo (percussão), Victor Angeleas (bandolim), Márcio Marinho (cavaquinho) e Rafael Pops (DJ), o grupo decidiu tocar um projeto iniciado há mais de 10 anos em aulas do Clube do Choro.

De lá para cá, os rapazes viraram atração no cenário musical da cidade.

Com muita irreverência, adotam repertório que transita do samba clássico ao pagode de grupos como Molejo, Só Pra Contrariar e Raça Negra.

Quem quiser ler a matéria na íntegra, basta clicar aqui

Pois é. Os dois nomes que destaquei na nota aí de cima, Augusto Berto e Pedro Berto, são os netos de Luiz Berto, este Editor que vos fala. Ambos filhos de Patrícia, minha filha mais velha.

São os dois bem encaminhados, tem curso superior, tem bons empregos, vivem em paz com a vida e levam a existência com muita alegria e disposição.

Sobretudo, levam a vida com muita música, paixão maior dos dois.

No último carnaval vieram aqui pra casa e caíram na gandaia da folia do Recife e de Olinda.

Pedro já me deu um casal de bisnetos, João e Júlia, duas coisas fofas deste bisavô babão.

Pois minha filha Patrícia, há poucos dias, me mandou pelo zap-zap uma entrevista que eles, Pedro e Augusto, concederam ao programa Escuta Que é Bom, a propósito deste grupo do qual eles participam, o Samba Urgente. 

A íntegra da entrevista, que dura uma hora e meia, está no final desta postagem.

Aviso que vale a pena ouvir e tomar conhecimento de tudo que é dito, pois meus netos são talentosos, brilhantes e modestos que nem o avô! 

Augusto Berto, na percussão, e Pedro Berto, no bandolim

* * *

Eu sei que tem neguinho aí que vai ficar implicando e perguntando porque eu estou fazendo esta postagem e levantando este assunto aqui nesta gazeta escrota.

E eu explico:

É porque o jornal é meu e eu publico nele o que eu quiser!!!

Intenderam ???

Quem achar ruim que vá se lascar.

Dito isto, continuemos.

* * *

Depois que ouvi a entrevista que minha filha me mandou, este avô babão, ou “Vozinho”, como os netos me chamam, enviei pra eles esta mensagem que está abaixo transcrita:

Meus queridos netos Pedro e Augusto:

Ouvi com muito carinho e atenção um áudio que Patrícia me mandou com o programa “Escuta que é bom”

Neste áudio estava uma entrevista da qual vocês participaram.

Paralelamente à alegria, senti um orgulho enorme pela preparo, pelo desenvoltura, pelo desembaraço e, principalmente, pela cultura e pelo conhecimento que vocês demonstraram sobre o assunto.

Ainda mais em se tratando de um tema que é uma das minhas paixões: a música.

O samba, o choro…

Noel Rosa é um dos gênios da minha galeria de gurus.

Repito: fiquei muito orgulhoso mesmo.

Tenho consciência da participação que tive na vida de vocês, quando ainda estavam em processo de crescimento e formação.

Lembro-me dos dois meninos, frequentando minha casa no Lago Norte, aí em Brasília.

Me sinto feliz, muito feliz mesmo, de ver que esta minha participação na vida de cada um foi benéfica, positiva e rendeu excelentes frutos.

Confesso que sou um vovô babão.

Tenho orgulho não só de vocês como também da mãe de vocês, uma batalhadora, uma guerreira que foi vitoriosa na missão de criar os dois.

Quero que vocês saibam que vivem ambos no fundo do meu coração e que guardo com muito carinho a lembrança dos dois.

Penso em vocês todos os dias.

Saúde, felicidade, vida longa e muito sucesso.

* * *

Algum tempo depois, recebi de Augusto esta mensagem que está a seguir.

Uma mensagem na qual ele fala até no meu apelido de família, Bel, que tenho desde a infância.

Vejam só:

Meu querido vôzinho!

Confesso que levei alguns dias para responder a sua mensagem porque eu não conseguia expressar tudo o que sentia. Escrevia e apagava, tentando sintetizar toda a gratidão que sinto por você.

Mas resolvi deixar essa besteira de lado e escrever de vez.

Primeiro, eu preciso contar do orgulho danado que eu tenho de ter nascido nesta família. Hoje eu percebo a sorte de também carregar o sangue dos Bertos. Agora eu começo a entender que para construir a pessoa que estou me formando, eu peguei um pouquinho de cada um. Aprendi um pouco com cada pessoa dessa família.

E grande parte desse orgulho se deve a você, vô. Sua história de vida, sua alegria, seus causos, sua bondade em ajudar tanta gente a seu redor. Sua capacidade de rir de tudo e de todos, de debochar de tudo para deixar a vida mais leve. Isso eu aprendi com você e tento levar para a minha vida.

Segundo, sobre a nossa participação no programa Escuta que é Bom. Pode ter certeza que cada palavra que você ouviu tem o DNA seu e da minha mãe. Não só pelas reuniões e confraternizações na sua casa no Lago Norte, onde desde pequeno eu já estava mergulhado num universo mágico de música, poesia e literatura.

Mas também por toda a bagagem cultural que você me permitiu conhecer. Por tudo que você sempre estimulou a estudar. Vô, você abriu uma janela de conhecimento que transformou minha vida para sempre.

Você não tem ideia do tanto que um vô babão é importante para a autoestima de uma criança! Hahahaha!

Muitas vezes eu adorava tirar uma música no cavaquinho e tocar com o meu irmão, só para te mostrar e ver você todo orgulhoso, comentando com todos os seus amigos. Ver que a minha família se orgulhava da música que eu começava a fazer teve um peso enorme para que despertasse um interesse maior dentro de mim.

Todos os incontáveis CDs de choro que você comprou pra gente (na época que CD era artigo de luxo!). Lembro de uma vez, passando férias aí em Recife, que você nos levou para comprar CDs e disse que a gente poderia escolher o álbum que quisesse.

Pense num dia feliz na vida de um adolescente.

Nunca esqueço: escolhi um CD de Paulinho da Viola e Elton Medeiros, “Samba na Madrugada”. Foi lá que aprendi a cantar a belíssima “14 anos”, canção que ficou no meu repertório, e eu canto em todas as rodas de samba que vou.

E quando você me deu a sua biografia do Noel Rosa? Eu quase caí duro. O livro já com a capa desgastada é o meu preferido, tem lugar de destaque na minha estante. Li e reli a obra, fascinado.

Foi aí que eu conheci a vida de um gênio. Foi um livro que abriu ainda mais meus horizontes e conhecimentos sobre o samba.

E quem estava lá de novo para me proporcionar isso? Você.

São só alguns exemplos pequenos que ilustram a sua importância na minha vida e na do meu irmão. Se hoje a gente é apaixonado por choro, samba, por música, você tem uma ENORME importância.

Se hoje estamos fazendo a segunda maior roda de samba do Brasil no meio da rua em Brasília, você e minha mãe são diretamente responsáveis. Hoje vejo a sorte que tenho de carregar esse sangue, de ter você na minha vida. Vocês abriram uma janela de conhecimentos e possibilidades que transformaram para sempre quem eu sou.

E acima de tudo, agradeço por ter a oportunidade de te dizer isso. De estar vivo e ter oportunidade de conversar e partilhar mais momentos com você, vô.

Sei que sou um neto desleixado e que poderia estar mais presente, ter mais contatos com você. Vou trabalhar para melhorar esse ponto.

Mas saiba que eu tenho cada momento ao seu lado bem guardado nas minhas lembranças. Admiro muito a pessoa, o artista, o contador de história e o avô que você é. Espero um dia proporcionar tantas experiências incríveis para os meus futuros netos. Que eles me vejam com tanta admiração e tenham tanto amor como eu tenho por você.

Ao menos um programa com meus netos eu já garanto: contar os causos e as histórias do vô Bel. O muro que ele construiu bêbado, a vez que falsificou os ingressos do circo de Palmares. Ou a história de Orlando Tejo com o Agiota, a única história que eu posso escutar mil vezes, eu vou rir em todas (inclusive, estou quase decorando o poema todo!)

Penso em você todos os dias. E você está presente em todos os meus dias.

Amo você. Só agradeço por ter um avô tão arretado e que me deu tanto amor.

* * *

Agora volto eu:

É mole, ou querem mais?

É ou não é pra arrombar a tabaca de Xolinha?

Tenho ou não razão de ser um vô babão?

Bom, encerro por aqui.

Já me amostrei-me muito.

Fecho a postagem com a íntegra da entrevista dada por Pedro e Augusto Berto, meus amados netos.

Boa audição!

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