GUILHERME FIUZA

Numa entrevista recente, Marcelo Tas comentou descontraidamente com Jô Soares que muitos achavam que ambos eram gays, e perguntou por que isso acontecia. Jô respondeu: “Acho que é por causa do nosso jeitinho”.

O grande artista sempre surpreende. Jô não estava, naturalmente, zombando de ninguém. Estava zombando do preconceito. E de si mesmo. É uma ótima entrevista em que ambos falam reto, abertamente, sobre a patrulha verbal e comportamental que vem proibindo o riso. Jô Soares fez da autoironia sua marca, brincando com a própria obesidade. Viva o Gordo.

Na primeira versão do programa que comandou por muitos anos na TV Globo, em plena febre das campanhas de ginástica e emagrecimento, o nome era “Viva o Gordo e Abaixo o Regime”, fazendo o trocadilho com saúde e governo – o que hoje seria considerado politicamente incorreto, mas na época era só humor. Jô satirizou livremente tudo na vida: gordos, magros, gays, machões, direita, esquerda, governo, oposição, ricos, pobres, letrados, iletrados, autoridades, povo e etc. Nunca parou no pedágio dos moralistas. E quando tentaram pará-lo, ele não pagou.

Vale lembrar que ele passou pelos moralistas arcaicos e pelos moderninhos – igualmente caretas e repressores, mas fantasiados de descolados e éticos. Na entrevista a Tas, Jô não faz nenhuma concessão à nova censura. Todos esses agrados que a maioria dos seus colegas passou a fazer à cartilha dos patrulheiros não são encontráveis nele. Completou sua jornada sem se ajoelhar para os reacionários – nem os carrancudos, nem os maquiados de progressistas.

Teve coragem de sair da Globo para fazer seu talk show no SBT e depois levá-lo de volta à Globo. Entrevistou convidados de todos os tipos, patentes, tendências ideológicas ou religiosas. Falou por cima de todos eles (sem querer te interromper), extraiu revelações, expôs suas próprias teses e eventuais inclinações políticas, das mais sóbrias às mais exóticas, sem nunca deixar de cumprir seu principal compromisso: entreter e divertir.

O “Programa do Jô” se tornou o principal holofote da mídia brasileira. Mesmo se iniciando por volta de meia-noite ou mais tarde (não vá pra cama sem ele), virou a grande caixa de ressonância. O que acontecia ali todo mundo via. O carisma do gordo exibido, que brincava com o seu exibicionismo em jogos hilariantes com os músicos da sua banda, era a melhor forma de encerrar o dia. Como ficaria a realidade depois de passar pelo doce sarcasmo do Jô? Essa era a curiosidade diária de milhões de pessoas, durante muitos anos.

Da vasta galeria de personagens, boa parte saiu da TV e encarnou na população através dos bordões. “Tirou daqui” talvez não tenha sido um dos mais famosos, mas vale destacar entre os vários quadros que permanecem atuais. O bordão era do personagem Mucio – um sujeito muito simpático e afável que basicamente dizia tudo o que o seu interlocutor queria ouvir, repetindo as palavras dele. Nesses tempos de mimetização geral e replicações automáticas para seguir a manada, Mucio seria um herói.

Obrigado, Jô.

1 pensou em “VIVA O GORDO

  1. O programa diário do Jô foi extinto (na TV aberta) porque perdeu brutalmente a audiência. Sucumbiu ao “Quem lacra não lucra”. Gostava de avacalhar, debochar e desprezar a direita, os conservadores e os eleitores de Bolsonaro. Fazia coro com a esquerda: “É de direita? É fascista”.

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