MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

Se mal lhe pergunte bem perguntado a vossuncê que presta atenção em meus fuxicos esculhambosos, já se sentiu acima do seu chefe no serviço? E acima do chefe do chefe? Pois bem, isso às vezes acontece, nem que seja por um instante.

Explico:

Nos idos de 1970 trabalhei como Engenheiro Sênior na General Motors em São José dos Campos, SP.

Uma de minhas atribuições era a parte hidráulica da nova estação de tratamento de esgoto da fábrica, carinhosamente conhecida como “Penicão”, que trataria os efluentes da fábrica antes de lançá-los no Rio Paraíba, o qual passava ao fundo do terreno da empresa.

Ora, a administração da GM era muito influenciada por uma penca de burocratas da Seção de Procedimentos e Métodos, uma leve amostra do que seria o Brasil de hoje, país onde políticos vagabundos que não trabalham nos dizem como devemos trabalhar.

Toda o terreno da fábrica era cercado, e as normas diziam que qualquer abertura nas cercas deveria ter um portão, uma guarita e um guarda para controlar quem entrava e quem saía. Até aí tudo bem. Como a estação de tratamento ficava fora do perímetro até então cercado, lá foi feita uma abertura e foram colocados, como manda o figurino, um portão e uma guarita habitada por um guarda para anotar o número do crachá e o nome de todo mundo que por ali passasse.

Como essa travessia era feita várias vezes ao dia pelo pessoal da obra, entre os quais este escrivinhador que fala a vosmecê, as anotações do guarda representavam pura perda de tempo, uma atividade totalmente sem propósito, uma vez que os relatórios de entrada e saída das pessoas eram jogados fora no dia seguinte, por absoluta falta de utilidade.

Veio então uma ideia prática do grupo: porque não fazer uma lista oficial das pessoas autorizadas a cruzar a “fronteira”, sendo que elas simplesmente mostrariam o crachá e pronto? Bingo!

Assim foi feito. A pedido nosso o Sr. J. M., o pirocão maior, fez um memorando ao sr. C. M., chefe da Segurança, com a lista dessas pessoas.

Estavam, pois, fixados na guarita, o memorando do Sr. J. M. e, separadamente, a lista dos funcionários autorizados a atravessar a fronteira sem “carimbar o passaporte”.

Tudo estava funcionando muito bem até o dia que o próprio Sr. J. M. resolveu visitar a obra do Penicão para verificar o seu andamento. E lá chegou nosso chefe maior em frente à guarita. Claro, como manda-chuva que era, não costumava andar com o crachá espetado na camisa e nem dar satisfações à ignara plebe, muito menos ao guarda que o impediu de passar sem o controle burocrático porque seu próprio nome não constava da lista e também crachá não tinha.

O diálogo que se seguiu mostra bem a situação:

Guarda: “Qual o seu nome?”

J. M.: “J. M., senhor. Sou o Superintendente Geral.”

Guarda: “Seu nome não está na lista, portanto o senhor não pode passar sem mostrar o crachá, ter seu nome anotado aqui neste relatório ou ser acompanhado por um funcionário autorizado.”

J. M.: “Claro que meu nome não está na lista, já que sou eu quem assinou o memorando que definiu a lista. Se eu tenho poder para dar a autorização é claro que tenho o poder de entrar na hora que eu quiser.”

Guarda: “Não quero saber se o senhor tem ou não tem poder de autorizar, mas o memorando diz que somente as pessoas da lista podem entrar e o seu nome não está nela. Portanto, não posso permitir a sua passagem, a menos que algum dos integrantes da lista o considere seu convidado e o acompanhe.”

E não adiantou querer dar uma de Lewandovski. Êita gosto gostoso da moléstia! Essa foi a única ocasião na minha carreira profissional em que dei autorização para o chefe do chefe fazer algo.

4 pensou em “VISITANDO O PENICÃO

  1. Tem sempre uma primeira (e única talvez) pra tudo !!!
    Só você pra me fazer rir … sem precisar de mel.

    Um abração Big Smile

    PS – Junho batendo à porta.

    • Schirley, “A Inspiração”:
      A vida, por si só, já é motivo para sorrir. Principalmente quando, imagino, sua vida está rodeada de alegria e inspiração.
      Beijão estraloso, com desejo de que tenha um bom final de semana.
      Grato pelo gentil comentário.
      Às vezes junho entra sem bater.
      Magnovaldo

  2. Estimado Magnovaldo Santos,

    Mais uma vez esse peste desse vírus H1N1 me ferrou, amigo, e eu fiquei impossibilitado (sem ânimo) de ler qualquer texto dos amigos, inclusive esse magnífico “Visitando o Pinicão”, que caberia bem também como ordem ao patrão que não consultou a outros consultores para elaborar o “controle burocrático.”

    Espiritualmente, me identifico muito com essas crônicas impositivas que envolve situações hilárias, e essa sua cai perfeitamente magnífica.

    Interessante, a cada crônica sua que leio vou percebendo o estilo de cada um, mesmo dentro da comunidade.

    Mais o mais magnífico que observei na sua crônica foi a ordem imposta pelo subordinado ao patrão, dono do pinicão, Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

    Imagine essa disciplina hoje aplicada no Brasil aos funcionários públicos estaduais e municipais?

    Abraçaço irmão do coração!

    • Ciço, meu bom compadre:
      Antes de mais nada, meus sinceros votos para que você se restabeleça logo dessa peste que apoquenta o bestunto, os nervos e o nariz.
      Minhas crônicas são apenas a observação dos momentos da vida que ficaram marcados indelevelmente em meu espírito. Suas gentis observações são um incentivo para que este humilde escrivinhador ponha em um papel certas circunstâncias que merecem, em meu entender, algum destaque.
      Agradeço de coração suas incentivadoras palavras.
      Um grande abraço,
      Magnovaldo

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